Os EUA enviaram ao Irã um plano de 15 pontos para encerrar a guerra enquanto o Pentágono ordena o deslocamento de milhares de soldados para a região. A diplomacia é real ou é uma cortina de fumaça?
Na terça-feira, 24 de março, o presidente Donald Trump surpreendeu o mundo ao afirmar que os Estados Unidos estão negociando ativamente com o Irã para encerrar a guerra iniciada em 28 de fevereiro. “Estamos em negociações agora”, disse Trump, acrescentando que as conversas estão sendo “muito boas e produtivas” e que o Irã estaria ansioso para fechar um acordo.
Ao mesmo tempo, o Pentágono ordenou o deslocamento de cerca de 2.000 paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada para o Oriente Médio. Duas Unidades Expedicionárias de Marines já estão a caminho da região, adicionando potencialmente entre 6.000 e 8.000 soldados ao terreno.
A pergunta que analistas, governos e mercados estão fazendo é simples: Trump quer mesmo a paz, ou está usando a diplomacia como cobertura para posicionar suas forças antes de um ataque terrestre?
O plano de 15 pontos
Segundo o New York Times, citando dois funcionários americanos, os Estados Unidos enviaram ao Irã, por intermédio do Paquistão, uma proposta com 15 pontos para encerrar a guerra. O Washington Post e a Associated Press confirmaram a informação com fontes próprias.
Os pontos centrais da proposta incluem:
- O desmantelamento completo das capacidades nucleares iranianas existentes
- O compromisso formal de nunca buscar armas nucleares
- A cessação de todo enriquecimento de urânio em território iraniano
- A entrega do urânio enriquecido acumulado à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)
- O desmantelamento das instalações nucleares de Natanz, Isfahan e Fordow
- Acesso total e irrestrito da AIEA para inspeções
- O fim do financiamento e do armamento de milícias aliadas na região, como o Hezbollah, os Houthis e o Hamas
- A garantia de que o Estreito de Ormuz permaneça aberto como corredor marítimo livre
- A limitação do programa de mísseis iraniano em alcance e quantidade
Em troca, os Estados Unidos ofereceriam o levantamento total das sanções e assistência no desenvolvimento do programa nuclear civil iraniano.
A proposta também prevê um cessar-fogo de um mês durante o qual as partes negociariam os detalhes finais.
O premiê paquistanês Shehbaz Sharif publicou em sua conta no X que o Paquistão está “pronto e honrado” para ser sede de negociações entre os dois países. Trump compartilhou a publicação em seu Truth Social.
O Irã diz que não há negociação
Apesar das declarações de Trump, o Irã rejeita categoricamente que qualquer negociação direta esteja acontecendo.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou à televisão estatal que “nenhuma negociação aconteceu com o inimigo até agora e não planejamos nenhuma negociação”. O porta-voz militar iraniano Ebrahim Zolfaghari foi ainda mais direto: “Suas divergências internas chegaram ao ponto de vocês negociarem com vocês mesmos?”, disse em pronunciamento televisionado.

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que Teerã está “monitorando de perto” os movimentos de tropas americanas na região.
O Irã rejeitou formalmente a proposta e apresentou suas próprias cinco condições para encerrar a guerra, entre elas: a cessação total dos ataques dos EUA e de Israel, o pagamento de indenizações de guerra e o reconhecimento internacional da soberania iraniana sobre o Estreito de Ormuz.
Mas a diplomacia existe — só que indireta
Apesar das negações públicas, há um canal diplomático funcionando.
O próprio Araghchi reconheceu que o Irã está “respondendo a pedidos através de intermediários de países amigos”. A Associated Press, citando fontes em Islamabad, confirmou que o plano de 15 pontos foi fisicamente entregue ao governo iraniano. Fontes iranianas disseram à CNN que há “contatos” entre os dois países e que o Irã está disposto a ouvir propostas “sustentáveis”.
Ou seja: a diplomacia existe, mas por canais indiretos. Nenhum dos dois lados quer sentar à mesma mesa — pelo menos não publicamente.
Os soldados que chegam enquanto se fala em paz
É aqui que a situação fica mais complexa.
Enquanto Trump fala em negociação, o Pentágono confirmou oficialmente o deslocamento de elementos da 82ª Divisão Aerotransportada para o Oriente Médio. A divisão, sediada em Fort Bragg, na Carolina do Norte, tem entre 2.000 e 3.000 soldados recebendo ordens de deslocamento. O comandante da divisão, Major-General Brandon Tegtmeier, e seu estado-maior já receberam ordens para se deslocar.

Quando o quartel-general vai antes da tropa, geralmente significa que uma missão está sendo ativamente planejada.
A 82ª Aerotransportada é a força de resposta imediata do Exército americano, capaz de ser deslocada para qualquer lugar do mundo em menos de 24 horas. São soldados treinados para saltar de paraquedas em território hostil, capturar aeródromos e estabelecer cabeças de ponte.
Além disso, duas Unidades Expedicionárias de Marines estão a caminho da região. Juntas, essas forças adicionariam entre 6.000 e 8.000 militares ao contingente de cerca de 50.000 americanos já presentes no Oriente Médio, segundo o NPR.
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, não escondeu a dualidade da situação: “Enquanto o presidente Trump e seus negociadores exploram essa nova possibilidade diplomática, a Operação Fúria Épica continua sem pausa para atingir os objetivos militares estabelecidos pelo comandante-em-chefe e pelo Pentágono”, disse na quarta-feira.
Ilha de Kharg: o objetivo mais discutido
O cenário mais analisado por especialistas é a tomada da Ilha de Kharg, uma pequena ilha no Golfo Pérsico que processa 90% das exportações de petróleo do Irã. A ilha já foi alvo de bombardeios americanos desde o início do conflito. Trump a descreveu publicamente como a “joia da coroa” iraniana.
O conceito operacional discutido por analistas prevê uma ação combinada: os marines realizariam o assalto anfíbio inicial, assegurando praias e instalações portuárias. A 82ª Aerotransportada lançaria paraquedistas para expandir o perímetro e assumir o controle terrestre.
Analistas do think tank Atlantic Council, no entanto, alertam que o tamanho da força sendo enviada “não é suficiente para uma grande invasão nem para segurar uma cidade inteira”, indicando que qualquer operação seria limitada e cirúrgica.
Paz genuína ou manobra? Há argumentos para os dois lados
A favor de uma paz genuína: a guerra está custando caro. O Pentágono prepara um pedido de financiamento suplementar ao Congresso que pode chegar a 200 bilhões de dólares. Os preços do petróleo dispararam. A crise no Estreito de Ormuz afeta o comércio global de energia e fertilizantes. Há pressão política doméstica crescente. Trump pode estar genuinamente buscando uma saída diplomática para declarar vitória e encerrar o conflito.
A favor de uma manobra: a própria Casa Branca reconheceu que mais semanas de guerra estão planejadas, mesmo que conversas ocorram. O Irã suspeita que o movimento diplomático seja uma tática dilatória enquanto os EUA posicionam forças. Fontes iranianas disseram ao Axios que Teerã vê a proposta de paz “como uma manobra”. A porta-voz Leavitt reforçou a pressão: “O presidente não faz blefe e está preparado para desencadear o inferno.”
O problema iraniano: negociar com quem te atacou
Do ponto de vista iraniano, o cenário é delicado. Teerã desconfia de negociações com Washington porque a guerra atual começou justamente quando conversações ainda estavam em andamento — os EUA e Israel iniciaram os ataques em 28 de fevereiro.
Um alto funcionário iraniano disse ao Press TV que as condições americanas são “excessivas” e que a guerra só terminará “nos termos e no cronograma de Teerã”. O Irã, apesar de militarmente enfraquecido — sem marinha, sem força aérea e sem sistema de defesa antiaérea, segundo a porta-voz americana — ainda não se vê como derrotado.
A corrida dupla
O que está acontecendo na prática é uma corrida dupla: diplomacia e preparação militar avançando lado a lado, cada uma alimentando a outra.
Se o Irã fizer concessões, Trump declara vitória sem precisar arriscar tropas em solo hostil. Se não fizer, as forças estarão posicionadas para agir. É o que analistas chamam de “flexibilidade máxima” — manter todas as opções sobre a mesa ao mesmo tempo.
O problema é que essa estratégia tem um limite: quanto mais tropas chegam à região e mais bombas caem, menor a janela para um acordo diplomático funcionar.
Por enquanto, o mundo aguarda a resposta do Irã. E observa os navios com marines se aproximarem do Golfo Pérsico.
Fontes consultadas: CNBC, The New York Times, Washington Post, NPR, Stars and Stripes, CNN, ABC News, Time, Al Jazeera, Axios, Fox News, Bloomberg, Military Times, NBC News