O Terceiro Corpo do Exército da Ucrânia conduziu por cerca de quatro meses, em silêncio, uma contraofensiva ao norte de Lyman, em Donetsk, e só a revelou em 15 de setembro, quando o saliente que a Rússia usaria para cercar Sloviansk e Kramatorsk por cima já não existia. A operação, batizada de Vivaldi, foi anunciada em vídeo pelo comandante do corpo, o brigadeiro-general Andrii Biletskyi. Os russos souberam do tamanho do problema antes pelos próprios blogueiros militares do que pelo comando.

Resumo rápido:

  • Operação Vivaldi: Terceiro Corpo ucraniano, ao norte de Lyman, anunciada em 15 de setembro de 2026
  • Número oficial: 75 km² limpos de infiltrados e 10 km² liberados, incluindo a vila de Serednie
  • Estimativas independentes: entre 200 e 240 km² retomados desde maio
  • Perdas russas segundo o Terceiro Corpo: cerca de 1.500 soldados e 12 mil drones
Ucrânia Colocou um PLANO em Ação... e a Rússia Caiu na Armadilha
Vídeo: Realidade Militar

O que se sabe até agora

A Rússia foi a primeira a falar. Em 1º de setembro, Vladimir Putin afirmou que suas tropas tinham tomado Sviatohirsk, cidade a cerca de 15 km a noroeste de Lyman. Seis dias depois, Biletskyi gravou um vídeo no centro da cidade, com o mosteiro da Lavra ao fundo, e disse que a 60ª Brigada Mecanizada controlava o local por completo, segundo o Ukrainska Pravda. A mensagem ao comando russo, na íntegra: tirem os narizes de palhaço.

Enquanto isso, o Telegram russo já reclamava. Em 6 de setembro, o blogueiro Anatoli Radov escreveu que os ucranianos vinham conduzindo uma contraofensiva havia dois meses e meio, “que o nosso comando tenta não perceber”. Em 13 de setembro, o canal Rybar admitiu que grupos ucranianos tinham chegado ao rio Zherebets, atrás de onde a linha russa deveria estar. Os dois relatos foram compilados pelo Kyiv Independent. A Euronews, citando o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), registrou que os mesmos blogueiros culparam os “relatórios bonitos” que sobem pela cadeia de comando russa e pediram que a prática fosse proibida.

Do lado ucraniano, nada. O projeto de mapeamento DeepState não registrava mudança de terreno até o dia do anúncio. Os números oficiais só vieram em 15 de setembro: 75 km² limpos de grupos de infiltração e 10 km² liberados, com a vila de Serednie retomada e Novoselivka, Oleksandrivka, Yarova e os arredores de Korovyi Yar limpos de infantaria russa, conforme o Militarnyi. Analistas de fontes abertas chegam a números bem maiores. O francês Clément Molin calculou mais de 200 km² liberados em quatro meses de contra-ataques, e Konrad Muzyka, da Rochan Consulting, estimou que a Rússia perdeu o controle de cerca de 240 km², de acordo com o Kyiv Post. O ISW disse ter poucas evidências públicas para uma avaliação completa, mas admitiu que seu próprio mapa provavelmente subestimava os ganhos ucranianos. Só Serednie e Zelena Dolyna estão confirmadas por imagens de satélite.

Como a batalha foi vencida antes de a infantaria entrar

Não houve coluna de blindados. Qualquer grupo grande de tropas hoje é detectado por drone e destruído antes de chegar ao alvo, e o Terceiro Corpo fez o oposto: atacou primeiro o que sustentava o saliente. As unidades de sistemas não tripulados do corpo executaram 36 mil missões de ataque contra a logística russa durante a primeira fase da operação, segundo a Interfax-Ucrânia. Os alvos foram caminhões, depósitos, pontes e combustível, primeiro numa faixa de 50 km atrás da linha de frente e depois de 120 km.

O efeito mais concreto foi no abastecimento. Ataques sistemáticos a depósitos de combustível na região de Luhansk forçaram os russos a desativar um oleoduto que trazia combustível da Rússia e a recuar os estoques para a região de Voronej, dentro do território russo. A rota de evacuação de equipamento de uma divisão russa ficou cerca de 250 km mais longa, de acordo com o Militarnyi. Biletskyi disse que a operação atingiu o 20º e o 25º Exércitos de Armas Combinadas da Rússia e empurrou os polos de suprimento para trás da fronteira.

Com a logística cortada, os grupos de infiltração russos, de dois ou três soldados que se esgueiram por dentro das linhas ucranianas, ficaram isolados. Pequenas equipes de infantaria guiadas por drones caçaram esses grupos um a um. Só então Serednie foi retomada, e o saliente, cortado. Biletskyi contabilizou para essa etapa preparatória cerca de 1.500 soldados russos, mais de 12 mil drones e centenas de blindados, peças de artilharia e outros veículos perdidos. A operação envolveu cinco brigadas principais e cinco unidades agregadas.

Por que o silêncio ucraniano foi uma arma?

Porque o comando russo estava lendo mapas falsos. A cultura dos relatórios embelezados, que cada comandante passa para o chefe acima, é a explicação dada pelos próprios blogueiros russos para Putin ter anunciado a captura de uma cidade que era retaguarda ucraniana. Qualquer comunicado de vitória da Ucrânia teria corrigido essa ficção e disparado o envio de reservas russas para o setor. A Ucrânia preferiu deixar a Rússia acreditar no próprio mapa enquanto o saliente desaparecia por baixo dele. Quando Biletskyi falou, o trabalho já estava feito.

O que muda para Sloviansk e Kramatorsk

O saliente ao norte de Lyman era a pinça de cima do plano russo de 2026 para envolver o cinturão fortificado de Sloviansk, Kramatorsk, Druzhkivka e Kostiantynivka, as maiores cidades que a Ucrânia ainda controla em Donetsk. Segundo o Kyiv Post, a contraofensiva frustrou a tentativa russa de envolver a aglomeração pelo norte. Naquele setor, pela primeira vez em muito tempo, é a Ucrânia quem decide onde a linha se move.

Biletskyi não disse qual é o próximo objetivo. Encerrou o pronunciamento com uma pista: a operação se chama Vivaldi, e Vivaldi tem quatro estações. Esta foi só a primeira.