País de 3 milhões de habitantes gasta o maior percentual do PIB em defesa de toda a OTAN e copia da Ucrânia o manual de sobrevivência
A Lituânia está montando, na fronteira com a Bielorrússia e com Kaliningrado, a defesa mais pesada que um país da OTAN ergueu desde a Guerra Fria: dentes de dragão, trincheiras, bunkers, minas terrestres e uma brigada blindada alemã a 30 km da linha. O gatilho mais recente veio na madrugada de 15 de setembro, quando um caça italiano derrubou perto de Kaunas um drone russo com explosivo que havia entrado pela Bielorrússia. O governo lituano trabalha com um prazo: a inteligência do país calcula que a Rússia teria condições de atacar um ou dois membros da aliança dentro de três a cinco anos depois que a guerra na Ucrânia parar.
Resumo rápido:
- Orçamento de defesa de 2026: 4,79 bilhões de euros, 5,38% do PIB, o maior percentual da OTAN
- Brigada alemã de 4.800 soldados em Rūdninkai, a 30 km da Bielorrússia, completa até o fim de 2027
- Saída da Convenção de Ottawa em vigor desde 27 de dezembro de 2025; minas antipessoal voltam à fronteira
- Drone Gerbera russo abatido em 15 de setembro de 2026 após cruzar cerca de 100 km do território lituano
O drone que atravessou o país
O drone entrou pela Bielorrússia pouco depois da meia-noite de terça-feira e foi abatido perto do vilarejo de Pratkūnai, nos arredores de Kaunas, a segunda maior cidade do país, por um caça italiano da missão de policiamento aéreo da OTAN. Segundo o Defense News, o ministro da Defesa da Lituânia, Robertas Kaunas, informou que os destroços tinham partes de madeira e um artefato explosivo, desativado por uma equipe antibombas. O ministro da Defesa da Itália, Guido Crosetto, disse que a ameaça “muito provavelmente veio da Rússia”. Foi a primeira vez que um drone foi derrubado dentro do território lituano.
No dia seguinte, o presidente Gitanas Nausėda foi mais longe. De acordo com o Moscow Times, ele identificou o aparelho como um Gerbera, drone russo de compensado usado como isca ou como portador de explosivos, e disse que ele provavelmente tinha como alvo a Ucrânia e foi desviado pela guerra eletrônica ucraniana. Antes de ser interceptado, o drone percorreu cerca de 100 km sobre a Lituânia. O Exército lituano analisa a eletrônica do aparelho para descobrir o destino programado. O governo russo não comentou.
O caso se soma a uma sequência de incidentes no flanco leste. Em 30 de julho, um míssil de cruzeiro russo caiu a cerca de 90 km dentro da Polônia, carregado com “quantidade significativa” de explosivo, segundo o Notes from Poland. Em agosto, um drone com 800 gramas de explosivo foi encontrado ao lado de um cargueiro ucraniano no aeroporto de Leipzig, na Alemanha. Em 1º de setembro, o governo alemão atribuiu o ataque à Rússia e fechou o consulado russo em Bonn, conforme a CNN.
O que a Lituânia comprou e de quem
O parlamento lituano aprovou para 2026 um orçamento de defesa de 4,79 bilhões de euros, ou 5,38% do PIB, 43% acima do ano anterior, segundo o Ministério da Defesa da Lituânia. A estimativa da própria OTAN coloca o país no topo da aliança, com 5,33% do PIB, à frente de Estônia, Letônia, Polônia e Grécia, de acordo com a LRT, a emissora pública lituana.
Parte desse dinheiro vai para 44 tanques Leopard 2A8, num contrato de 950 milhões de euros com a KNDS Deutschland. Segundo o Defense Post, 41 deles serão montados numa fábrica nova em Kaunas, com o primeiro blindado saindo da linha no fim de 2028. Os tanques alemães que já estão no país pertencem à 45ª Brigada Blindada da Bundeswehr, a primeira unidade de combate que a Alemanha estaciona permanentemente fora do território alemão desde a Segunda Guerra Mundial. A base principal fica em Rūdninkai, a cerca de 30 km da Bielorrússia. A Euronews informou em 14 de setembro que a brigada terá 4.800 soldados até o fim de 2027 e que o governo alemão vai transferir centenas de militares por ordem direta, porque os voluntários não bastaram para preencher os batalhões de tanques.
A escolha do lugar diz muito. A brigada não olha para Kaliningrado, o enclave russo no litoral, e sim para a Bielorrússia. Foi de lá que as colunas russas partiram para Kiev em 2022, e é de lá que vêm os drones de agora. Da fronteira bielorrussa até Vilnius são cerca de 40 km.
No solo, a Lituânia constrói com Letônia e Estônia a Linha de Defesa do Báltico, uma barreira de 950 km com fossos antitanque, dentes de dragão, bunkers e pontes preparadas para demolição, segundo o EUobserver. O plano lituano prevê camadas de obstáculos até 50 km para dentro da fronteira. Para completar essa linha com minas, o país deixou a Convenção de Ottawa, que proíbe minas antipessoal. A saída ficou oficial em 27 de dezembro de 2025, junto com Letônia e Estônia, e o governo lituano planeja gastar cerca de 500 milhões de euros em minas antitanque e antipessoal, conforme a Forbes.
Falta gente, e o país foi buscar nos jovens. Desde janeiro de 2026, quem consta na lista de conscrição aos 17 anos passa por exame médico e é convocado aos 18 para nove meses de serviço, segundo a LRT. Quem entra na universidade depois de ser listado perde o direito de adiar a convocação. Entre as vagas abertas aos recrutas está a de operador de drone nas Forças de Operações Especiais. Em programa acompanhado pela CBS News, adolescentes recebem treinamento de sobrevivência, primeiros socorros e manejo de armas nas escolas.
Tudo isso num país que não tem um único caça. O espaço aéreo lituano é patrulhado em rodízio por jatos de outros aliados, como o italiano que derrubou o drone de terça. Para enxergar aparelhos de madeira voando baixo, o país adotou sensores acústicos e sistemas de fusão de dados desenvolvidos pela Ucrânia sob bombardeio.
Por que a Lituânia teme a paz na Ucrânia?
Porque hoje o grosso do Exército russo está preso na Ucrânia. A avaliação da inteligência lituana, citada pelo Institute for the Study of War, é que a Rússia pode reunir capacidade para uma campanha limitada contra um ou vários países da OTAN em três a cinco anos. Um cessar-fogo libera tropas, munição e capacidade fabril para reconstruir essa força e movê-la para o oeste. Não seria uma guerra total contra a aliança, e sim uma ação pontual contra um alvo pequeno, para testar se o Artigo 5 funciona.
A leitura americana é parecida. Segundo a CNN, a inteligência dos Estados Unidos avalia que Vladimir Putin pode tentar um ataque limitado a um aliado nos próximos anos, com o Báltico ou a Polônia como alvos mais prováveis. Em 25 de agosto, o diretor da CIA, John Ratcliffe, voou a Moscou sem aviso e passou oito horas na cidade. Fontes ouvidas pela RFE/RL disseram que a viagem serviu para alertar a Rússia contra qualquer ataque a Estônia, Letônia e Lituânia. No dia seguinte, Donald Trump chamou a viagem de “semirrotineira” e disse que Putin não vai atacar a OTAN. É essa oscilação que leva o governo lituano a se preparar como se a ajuda pudesse não vir.
Há um problema geográfico que a aliança não resolve com dinheiro. O único acesso terrestre entre os países bálticos e o resto da OTAN é o corredor de Suwałki, uma faixa de 65 km na fronteira entre Polônia e Lituânia, com Kaliningrado de um lado e a Bielorrússia do outro. Fechado esse corredor, Lituânia, Letônia e Estônia viram uma ilha.
A Rússia ataca porque enfraquece
Do outro lado, os números não favorecem o governo russo. O Estado-Maior ucraniano contabiliza mais de 1,4 milhão de soldados russos mortos e feridos desde 2022, e a inteligência ucraniana afirma que a Rússia decidiu mobilizar mais 600 mil homens entre 2026 e 2027, 300 mil por ano, diante do colapso do recrutamento voluntário, segundo a Euronews. Kaliningrado, o enclave que assusta no mapa, mandou suas tropas terrestres para a Ucrânia e ficou com a Marinha e a defesa aérea.
A lógica dos incidentes, na leitura dos serviços ocidentais, é pressionar a OTAN para forçar um acordo na Ucrânia antes que o Exército russo se esgote. Para isso, cada ação precisa vir embrulhada numa dúvida: um drone que pode ter sido desviado, um míssil que pode ter sido erro, um explosivo que não detonou. A dúvida é o que trava a resposta coletiva. A Lituânia decidiu não esperar a prova.
Questionado pela CBS News sobre a mensagem do país a Putin, o ministro Robertas Kaunas respondeu: “Não temos medo, porque lembramos da nossa história. Estamos em nossa casa e vamos proteger a nossa casa.”
