Um drone com 800 gramas de explosivo que não detonou no aeroporto de Leipzig, em 4 de agosto, virou o ponto de partida da resposta mais dura que a Alemanha deu à Rússia desde o início da guerra na Ucrânia. Em pouco mais de duas semanas, o governo alemão acusou formalmente a Rússia pelo ataque, fechou o último consulado russo no país, decidiu tirar mísseis Patriot do estoque do próprio Exército para mandar à Ucrânia e ordenou a transferência compulsória de soldados para a base de Rūdninkai, na Lituânia, a cerca de 30 km da fronteira com a Bielorrússia.
Resumo rápido:
- 4 de agosto: drone com 800 g de explosivo atinge a asa de um Antonov An-124 ucraniano em Leipzig e não detona
- 1º de setembro: Alemanha responsabiliza a Rússia, fecha o consulado de Bonn e eleva o nível de ameaça para “alto”
- 8 de setembro: ministro da Defesa anuncia interceptadores PAC-2 do estoque da Bundeswehr para a Ucrânia antes do inverno
- 14 de setembro: Ministério da Defesa confirma envio compulsório de até mil militares para a Lituânia
O que aconteceu em Leipzig
O aeroporto de Leipzig/Halle, no leste alemão, é base dos cargueiros da ucraniana Antonov Airlines desde 2022 e um dos pontos de passagem de material militar enviado à Ucrânia. Na noite de 4 de agosto, um quadricóptero do tamanho de um forno de micro-ondas, carregado com 800 gramas de explosivo militar, voou contra um An-124 estacionado e bateu na asa, perto do tanque de combustível. O mecanismo de detonação falhou e o drone caiu na pista, onde foi desativado por um robô da polícia, segundo a Euronews.
Na sequência, um segundo drone colidiu com um Boeing 757 cargueiro que havia abortado o pouso e subia a cerca de 400 metros. O piloto declarou emergência e pousou em Hannover com o nariz da aeronave danificado. Dez dias depois, um terceiro drone foi encontrado num campo ao lado do aeroporto, com vestígios de explosivo.
Um detalhe técnico chamou a atenção dos investigadores: o primeiro drone era controlado pela rede de telefonia celular, com chip e roteador embarcados. Para o sistema antidrone do aeroporto, o aparelho parecia um telefone comum, e o operador podia estar em qualquer lugar do mundo.
A acusação e a resposta de Putin
Em 1º de setembro, o ministro do Interior, Alexander Dobrindt, e o ministro das Relações Exteriores, Johann Wadephul, disseram em coletiva que a investigação policial, o padrão do ataque e dados de inteligência apontam para pessoas agindo “em nome de entidades estatais russas”. Reportagem conjunta da Süddeutsche Zeitung, NDR e WDR, citada pela finlandesa Yle, identificou dois suspeitos: um homem nascido na Rússia com passaporte da Letônia, que teria coordenado a operação, e um bielorrusso com passaporte russo, cujo DNA foi encontrado no drone e numa antena presa a uma árvore perto do aeroporto. Os dois deixaram a Alemanha antes de serem presos.
Quem respondeu do lado russo não foi um porta-voz. Foi o próprio Vladimir Putin, que acusou a Alemanha de ter plantado provas, sem apresentar nenhuma, conforme registrou a CNN.
Consulado fechado, nível de ameaça elevado
A primeira medida alemã foi fechar o consulado-geral russo de Bonn até 18 de setembro. Era o último consulado russo no país: os de Frankfurt, Hamburgo, Leipzig e Munique já haviam sido fechados no fim de 2023, lembra o United24 Media. Também foi encerrado o acordo que mantinha a Casa Russa de Berlim, e as regras de entrada para cidadãos russos ficaram mais rígidas.
A Rússia retaliou fechando o consulado alemão de São Petersburgo, segundo a PBS, e mandando encerrar todas as unidades do Instituto Goethe no país, conforme a Al Jazeera. Na prática, a Rússia perdeu sua última representação consular na Alemanha e, em troca, fechou escolas de idioma.
Dobrindt elevou ainda o nível de ameaça do país de “geral” para “alto”, ampliou a unidade antidrone da Polícia Federal com novas bases e agentes e propôs aos vizinhos do mar Báltico uma força de reação rápida contra sabotagem, informa o portal oficial deutschland.de.
Patriot do próprio estoque
O passo que mais interessa à Ucrânia veio em 8 de setembro, na reunião do grupo de contato de Ramstein. O ministro da Defesa, Boris Pistorius, anunciou que a Alemanha vai entregar interceptadores PAC-2 para os sistemas Patriot retirados do estoque da própria Bundeswehr, com chegada prevista antes do inverno, quando a Rússia costuma intensificar os ataques à rede elétrica ucraniana. Pistorius cobrou os aliados: “na dúvida, decidam a favor da Ucrânia”. Segundo a Ukrainska Pravda, a Alemanha foi o único país da reunião a ceder interceptadores do estoque nacional. A quantidade não foi divulgada.
A revista Der Spiegel foi além. Em reportagem de 4 de setembro, resumida pela agência UNN, a publicação afirmou que o governo de Friedrich Merz estuda ajudar a Ucrânia a levantar coordenadas de alvos em território russo, além de aprofundar a cooperação entre os serviços de inteligência dos dois países. A medida ainda está em avaliação. Entregar armamento o governo alemão já faz há anos; participar da seleção de alvos seria um patamar novo.
Dentro do partido de Merz, há quem ache pouco. O deputado Roderich Kiesewetter, da CDU, disse à emissora ntv que a Alemanha ainda mantém “uma certa romantização” na relação com a Rússia, que fechar consulado é medida simbólica e que o passo correto seria enviar à Ucrânia os mísseis de cruzeiro Taurus, com mais de 500 km de alcance. Merz continua contra o Taurus.
Soldados vão à Lituânia por ordem
A notícia mais recente é a que mexe com a estrutura da Bundeswehr. Em 14 de setembro, o Ministério da Defesa confirmou que os primeiros militares receberão ordem de transferência para a Lituânia a partir do fim de setembro, segundo a Euronews. Até mil pessoas podem ser afetadas, e o ministério calcula que as designações compulsórias fiquem na casa das centenas.
O destino é a 45ª Brigada Blindada, com base em Rūdninkai, a cerca de 30 km da fronteira com a Bielorrússia, aliada de Putin. A unidade reúne o Batalhão Blindado 203, com tanques Leopard 2, e o Batalhão de Granadeiros 122, com blindados Puma, e deve chegar a 4.800 militares até o fim de 2027. É a primeira tropa de combate alemã estacionada de forma permanente fora do país desde a Segunda Guerra Mundial. Cerca de 80% das vagas foram preenchidas com voluntários; faltam especialistas, e por isso veio a ordem.
Por que a Alemanha reagiu agora?
Porque o padrão anterior era engolir. Desde 1945, o país evita parecer uma potência que briga, e a cada sabotagem russa na Europa a resposta demorava meses, quando vinha. O analista Nico Lange resumiu ao EUobserver: na Alemanha, “todo mundo vive com medo de que Putin fique bravo”. Desta vez a investigação levou quatro semanas, a acusação foi pública e cada medida seguinte foi maior que a anterior.
O risco de Merz é interno. No dia 14 de setembro, em Rovaniemi, na Finlândia, ele disse que a Europa vive semanas que podem ser decisivas e que não recuará “um centímetro”, conforme o Kyiv Post. A fala veio depois de a AfD, partido de extrema direita e favorável à Rússia, chegar perto de 44% na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, com a ajuda à Ucrânia entre as principais queixas de seus eleitores. Se a aposta do chanceler perder dentro de casa, a escada trava.
O calendário imediato está marcado: o consulado de Bonn fecha em 18 de setembro, as primeiras ordens de transferência para a Lituânia saem no fim do mês e os interceptadores Patriot devem chegar à Ucrânia antes do frio.
