Dois grandes navios de assalto anfíbio americanos convergem para a região do Golfo Pérsico com milhares de fuzileiros navais a bordo, ampliando o poder militar dos EUA durante o conflito com o Irã.
O que aconteceu
O Pentágono confirmou o envio de um segundo grupo de assalto anfíbio para o Oriente Médio. O USS Boxer (LHD-4) deixou San Diego, na Califórnia, no dia 18 de março de 2026 — cerca de três semanas antes do prazo previsto —, levando consigo o Grupo Anfíbio Boxer e a 11ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais (MEU, na sigla em inglês), com aproximadamente 2.500 fuzileiros a bordo.
O movimento ocorre em paralelo ao deslocamento do USS Tripoli (LHA-7), que partiu de Sasebo, no Japão, em 11 de março e cruzou o Estreito de Malaca, próximo a Singapura, no dia 17 de março, transportando a 31ª MEU — força de resposta rápida baseada em Okinawa, com cerca de 2.200 fuzileiros navais.
Somadas as duas unidades, os EUA estão movendo aproximadamente 4.700 fuzileiros navais para a região, além de milhares de marinheiros. Isso se soma aos dois grupos de ataque de porta-aviões que já atuam no teatro de operações: o USS Abraham Lincoln, no Mar da Arábia, e o USS Gerald R. Ford, no Mar Vermelho.

Os navios
USS Boxer (LHD-4)
O USS Boxer é um navio de assalto anfíbio da classe Wasp, comissionado em 11 de fevereiro de 1995. Com 253 metros de comprimento e deslocamento de 40.500 toneladas à plena carga, é propulsionado por duas caldeiras a vapor conectadas a turbinas que entregam 70.000 cavalos de potência, permitindo velocidades superiores a 22 nós e autonomia de cerca de 10.000 milhas náuticas.
O grande diferencial da classe Wasp é a combinação de capacidade aérea e anfíbia em um único casco. O navio conta com noves pontos de pouso para helicópteros e pode operar aeronaves como o tiltrotor MV-22B Osprey, o helicóptero pesado CH-53 e os caças F-35B.

Mas o que mais distingue o Boxer é sua doca de popa inundável: com 81 metros de comprimento por 15 de largura, ela pode acomodar até três hovercraft de desembarque do tipo LCAC, capazes de transportar até 70 toneladas de carga a mais de 40 nós. Em alternativa, pode carregar 12 lanchas mecanizadas ou 40 veículos de assalto anfíbio. No convés de veículos, cabem outros 21 blindados anfíbios.
O navio também possui um hospital completo, com seis salas de cirurgia e capacidade para até 600 leitos em situação de emergência.
O Boxer zarpou acompanhado pelo USS Portland (LPD-27), navio de transporte anfíbio da classe San Antonio, e pelo USS Comstock (LSD-45), navio doca de desembarque — formando juntos todo o suporte necessário para uma operação anfíbia completa: transporte de tropas, desembarque por mar e por ar, e apoio logístico.
USS Tripoli (LHA-7)
O USS Tripoli é um navio da classe América, variante Flight Zero, com foco em aviação. Com 257 metros de comprimento e 45.000 toneladas de deslocamento, é comparável em porte ao porta-aviões nuclear francês Charles de Gaulle.

Ao contrário do Boxer, o Tripoli não possui doca alagável — o que significa que ele não dispõe de hovercraft, lanchas de desembarque nem veículos anfíbios saindo pela popa. Essa foi uma escolha deliberada da Marinha americana: o espaço que seria da doca foi convertido em hangar ampliado, com maior capacidade de manutenção, armazenamento de peças e combustível de aviação.
O resultado é que o Tripoli opera na prática como um porta-aviões leve, com esquadrões de F-35B (caças furtivos de pouso vertical) e MV-22B Osprey embarcados. Segundo o USNI News, o navio partiu com o esquadrão VMFA-121 “Green Knights”, equipado com cerca de 20 caças F-35B.
O problema do Estreito de Ormuz
O Estreito de Ormuz, porta de entrada para o Golfo Pérsico, está efetivamente fechado desde o início das hostilidades. Segundo dados citados pelo World Socialist Web Site, o tráfego de navios pelo estreito caiu de cerca de 125 embarcações por dia para aproximadamente cinco. Mais de 1.100 navios, sendo um quarto deles petroleiros, estão parados no Golfo sem conseguir passar.
Isso levanta uma questão estratégica central: se o estreito está bloqueado, como esses navios de assalto anfíbio atuariam contra alvos iranianos no Golfo Pérsico?
A capacidade aerotransportada como solução
A resposta está no MV-22B Osprey, aeronave tiltrotor que combina a decolagem vertical de um helicóptero com a velocidade e o alcance de um turbopropulsor. O Osprey voa a aproximadamente 520 km/h e tem raio de combate superior a 830 km sem reabastecimento aéreo, transportando até 24 fuzileiros totalmente equipados por voo.

Com esse alcance, os navios de assalto anfíbio não precisariam estar dentro do Golfo Pérsico para projetar força contra alvos na região. Posicionados no Golfo de Omã ou no Mar da Arábia — sob a proteção do USS Abraham Lincoln e fora do alcance das principais defesas iranianas no estreito —, eles poderiam lançar operações aéreas contra as ilhas iranianas no Estreito de Ormuz, como as ilhas Qeshm, Ormuz e Larak.
A ilha de Kharg, por onde o Irã exporta a maior parte do seu petróleo, fica a pouco mais de 400 km do Estreito de Ormuz, dentro do Golfo. Mas ilhas posicionadas no próprio estreito estariam ao alcance operacional de navios posicionados no Golfo de Omã — com apoio de reabastecedores aéreos, se necessário.
O conceito EABO
Esse tipo de operação — tomada e defesa de terreno marítimo estratégico — é exatamente o que o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA vem treinando nos últimos anos sob o conceito de EABO (Expeditionary Advanced Base Operations, ou Operações de Base Avançada Expedicionária).
O EABO prevê a inserção de pequenas unidades de fuzileiros, geralmente por via aérea, em posições estratégicas, onde instalam sensores, sistemas de mísseis antinavio e antiaéreos, e pontos avançados de reabastecimento. O objetivo é transformar essas posições em plataformas de controle de vastos espaços marítimos.
O conceito foi desenvolvido originalmente pensando no Pacífico e na China, mas analistas avaliam que ele se encaixa diretamente no contexto do Golfo Pérsico.
A combinação estratégica
A presença simultânea do Boxer e do Tripoli oferece ao comando americano duas capacidades complementares.
O Tripoli — sem doca alagável, mas com seus F-35B e Ospreys — funciona como um porta-aviões leve, fornecendo cobertura aérea e projeção de força aerotransportada. O Boxer — com doca alagável, LCAC, veículos anfíbios e carga pesada — é o navio que, uma vez que o estreito for aberto ou contornado, poderá realizar o desembarque convencional com equipamentos pesados para consolidar posições.
A combinação oferece ao comando múltiplas opções de ação, tanto antes quanto depois de uma eventual reabertura do Estreito de Ormuz.
Segundo o Wall Street Journal, a tomada da Ilha de Kharg e uma operação terrestre ao longo do Estreito de Ormuz estão sendo consideradas pela administração Trump. O presidente americano declarou publicamente que não está com “medo” de enviar tropas ao Irã.
Contexto do conflito
O conflito entre EUA, Israel e Irã — chamado pelos militares americanos de Operação Epic Fury — está em curso desde o final de fevereiro de 2026. Segundo o World Socialist Web Site, mais de 7.000 alvos foram atingidos até o momento, e mais de 100 embarcações navais iranianas foram destruídas. O preço do barril de petróleo subiu cerca de 45% desde o início das hostilidades.
Aproximadamente 50.000 militares americanos já estão no Oriente Médio. Com a chegada do Boxer e do Tripoli, esse número cresce ainda mais — e o espectro de uma operação terrestre de grande porte se torna cada vez mais discutido publicamente nos EUA.
Fontes: USNI News, CNN, The Wall Street Journal, The Jerusalem Post, Al Arabiya, Wikipedia (USS Boxer / USS Tripoli), World Socialist Web Site, Fox 5 San Diego, Defence Talks, The Week India