Pentágono solicita verba suplementar de US$ 200 bilhões ao Congresso para bancar operações contra o Irã, enquanto o estreito de Ormuz permanece fechado e o preço do petróleo dispara pelo mundo

Em 21 dias de conflito, os Estados Unidos já gastaram mais de US$ 12 bilhões na guerra contra o Irã — e o Pentágono quer muito mais. Na quinta-feira, 19 de março, o secretário de Defesa Pete Hegseth confirmou que o departamento enviou ao governo uma solicitação de verba suplementar superior a US$ 200 bilhões para financiar o esforço de guerra. A cifra equivale a quase um quarto do orçamento anual de defesa americano, aprovado em US$ 840 bilhões para o ano fiscal de 2026. E, segundo o próprio Hegseth, o número “pode mudar”.


O Pedido e a Frase que Resumiu Tudo

Questionado sobre o montante durante uma coletiva de imprensa no Pentágono, Hegseth não confirmou o valor diretamente, mas disse: “Custa dinheiro matar os bandidos. Estamos voltando ao Congresso para garantir que estamos devidamente financiados para o que foi feito e para o que talvez tenhamos que fazer no futuro. Que nossas munições estejam reabastecidas — e não apenas reabastecidas, mas acima disso.”

O Washington Post foi o primeiro a divulgar o pedido, citando um alto funcionário da administração. A solicitação foi enviada pelo Pentágono à Casa Branca na quarta-feira, 18 de março, mas ainda não havia chegado formalmente ao Congresso até a manhã de quinta-feira.

O presidente Donald Trump defendeu o gasto: “Estamos pedindo por muitas razões, além do que estamos discutindo no Irã. Este é um mundo muito volátil. Queremos ter grandes quantidades de munição. É um preço pequeno a pagar para garantir que nos mantenhamos em ótima forma.”


Uma Guerra que Já Custou US$ 12 Bilhões em Três Semanas

A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã começou em 28 de fevereiro de 2026, com bombardeios conjuntos sobre o território iraniano que resultaram na morte do líder supremo Ali Khamenei e de outros altos funcionários em Teerã.

Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, afirmou no domingo que o conflito havia custado US$ 12 bilhões até aquele momento. O Pentágono, por sua vez, informou que os primeiros seis dias de guerra custaram US$ 11,3 bilhões — e esse valor é considerado subestimado, pois não inclui o custo do deslocamento de tropas e equipamentos para a região.

Segundo análise do CSIS (Center for Strategic and International Studies), apenas as primeiras 100 horas do conflito custaram US$ 3,7 bilhões, o equivalente a cerca de US$ 900 milhões por dia na fase inicial. Desde então, estimativas de múltiplas fontes apontam que a campanha custa mais de US$ 1 bilhão por dia. Os Estados Unidos já atingiram mais de 7.000 alvos em todo o Irã.

Os US$ 200 bilhões pedidos ao Congresso devem cobrir as operações em andamento, a reposição de munições de precisão e uma reserva para eventuais escaladas futuras.


Por Que a Guerra É Tão Cara?

A conta elevada tem explicações concretas. Segundo o CSIS e análises do Bellingcat, mais de 160 mísseis de cruzeiro Tomahawk foram disparados apenas nas primeiras 100 horas do conflito, com o objetivo de destruir os sistemas de defesa aérea e os centros de comando iranianos — abrindo caminho para os ataques aéreos subsequentes. Cada Tomahawk custa entre US$ 1,4 milhão e US$ 3,5 milhões, dependendo da versão.

Destróier USS Barry lança um míssil de cruzeiro Tomahawk. Foto: Marinha dos EUA (domínio público)
Destróier USS Barry lança um míssil de cruzeiro Tomahawk. Foto: Marinha dos EUA (domínio público)

À medida que as defesas iranianas foram sendo degradadas, as forças americanas passaram a usar munições guiadas mais baratas, como as bombas JDAM, reduzindo o ritmo de gastos diários.

Além das operações ofensivas, a defesa contra os contra-ataques iranianos também pesa na conta. Desde o início do conflito, o Irã lançou centenas de mísseis balísticos e milhares de drones contra bases americanas e aliadas na região. Segundo o FPRI (Foreign Policy Research Institute), apenas nas primeiras 96 horas, as baterias Patriot dos EUA e de seus aliados no Golfo dispararam 943 rodadas interceptoras — o equivalente a 18 meses de produção da linha de fabricação da Lockheed Martin.

O consumo acelerado de munições cria um problema estratégico de longo prazo: cada míssil gasto no Golfo Pérsico é um míssil a menos disponível para eventuais crises em outros teatros de operação, como uma possível tensão no Pacífico. Analistas apontam que a produção anual americana de Tomahawks não repõe nem de perto o que já foi consumido no conflito.

As Perdas de Equipamentos

O conflito registrou também perdas de aeronaves. Três caças F-15E Strike Eagles americanos foram destruídos em 2 de março, em um incidente de fogo amigo: as defesas antiaéreas do Kuwait abateram as aeronaves por engano, durante um momento de alta intensidade no campo de batalha, com ataques simultâneos de mísseis e drones iranianos. Todos os seis pilotos ejetaram com segurança e foram recuperados em boas condições. Cada F-15E custa cerca de US$ 103 milhões, totalizando US$ 309 milhões só nessas três perdas.

F-15E destruído por "fogo amigo" pelo Kuwait. Foto: Reprodução/Redes Sociais.
F-15E destruído por “fogo amigo” pelo Kuwait. Foto: Reprodução/Redes Sociais.

O Congresso Resiste

O pedido de US$ 200 bilhões chegou a legisladores de ambos os partidos com ceticismo. O Congresso não autorizou formalmente a guerra, e o valor solicitado representa aproximadamente 20% de todo o orçamento do Pentágono para o ano.

Gabe Murphy, analista de política do grupo Taxpayers for Common Sense, questionou: “Os contribuintes não receberam nenhuma clareza da administração sobre os objetivos ou os custos desta guerra. Agora, o secretário Hegseth quer US$ 200 bilhões para uma guerra que o Congresso nunca autorizou?”

A senadora republicana Lisa Murkowski, integrante do Comitê de Dotações, advertiu que o Congresso não assinará um cheque em branco: “O mundo está sentindo o impacto desta guerra. O Congresso tem um papel aqui, e a administração terá que nos guiar — seja nos US$ 200 bilhões ou em alguma outra versão do suplemento.”

Os democratas tendem a rejeitar o pedido. Como saída, os republicanos estudam usar o processo de reconciliação orçamentária, que dispensa o apoio democrata no Senado — mas exige quase unanimidade na maioria estreita que o partido detém na Câmara.

O representante Chip Roy (republicano do Texas) resumiu o dilema: “O povo americano não quer se envolver em uma guerra de longo prazo. US$ 200 bilhões é muito dinheiro. Precisamos saber antes de poder assinar um cheque em branco.”


O Estreito de Ormuz Fechado e o Choque Energético Global

A parte da conta que não aparece nos relatórios do Pentágono — mas que todo consumidor do planeta está sentindo — é o impacto energético do conflito.

Desde o início da guerra, o Irã efetivamente fechou o estreito de Ormuz para o tráfego marítimo. O estreito é por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo negociado globalmente. Com o bloqueio, o tráfego de petroleiros na região despencou mais de 70%, com mais de 150 navios ancorados fora do estreito aguardando a reabertura.

O resultado foi imediato nos mercados: o petróleo tipo Brent ultrapassou a marca de US$ 100 por barril pela primeira vez em quatro anos em 8 de março, chegando ao pico de US$ 126 por barril. Nos Estados Unidos, o consumidor já paga cerca de 80 centavos de dólar a mais por galão de gasolina desde o início do conflito.

A Agência Internacional de Energia (AIE) convocou seus 32 países-membros a uma ação coordenada e liberou 400 milhões de barris de petróleo das reservas estratégicas emergenciais para tentar estabilizar os preços. A AIE classificou o fechamento do estreito como a maior perturbação no fornecimento de energia desde a crise do petróleo dos anos 1970.


Qatar Paga a Conta da Escalada Israelense

Na quarta-feira, 18 de março, Israel atacou o campo de gás de South Pars, na costa do Irã — o maior reservatório de gás natural do mundo, compartilhado com o Qatar. Em retaliação, o Irã lançou mísseis contra a infraestrutura energética de vários países do Golfo.

O alvo mais devastador foi o complexo de Ras Laffan, no Qatar — a maior instalação de produção de gás natural liquefeito (GNL) do planeta, responsável por cerca de 20% de toda a oferta mundial do produto.

Imagem ilustrativa. Fonte: Wikimedia Commons (domínio público).
Imagem ilustrativa. Fonte: Wikimedia Commons (domínio público).

O CEO da QatarEnergy, Saad al-Kaabi, confirmou que o ataque destruiu dois trens de liquefação e uma das plantas de conversão de gás em líquidos. Com isso, 17% de toda a capacidade exportadora de GNL do Qatar foi eliminada — o equivalente a 12,8 milhões de toneladas por ano fora do mercado global. O reparo das instalações levará de três a cinco anos. A perda anual em receitas é estimada em US$ 20 bilhões.

A QatarEnergy declarou força maior sobre toda a sua produção de GNL, suspendendo temporariamente entregas a países como Itália, Bélgica, Coreia do Sul e China.

Em resposta, o Qatar expulsou os adidos militares e de segurança da embaixada iraniana no país.

Além do Qatar, a mesma onda de ataques iranianos atingiu refinarias na Arábia Saudita, instalações nos Emirados Árabes Unidos e o porto de Yanbu, principal alternativa saudita de exportação de petróleo após o bloqueio do estreito de Ormuz.


Uma Guerra Sem Prazo

Hegseth, que havia sugerido anteriormente que o conflito poderia durar de quatro a seis semanas, recusou-se na quinta-feira a fornecer uma nova estimativa. “Será a critério do presidente, em última instância, onde diremos: ‘Alcançamos o que precisávamos em nome do povo americano para garantir nossa segurança’. Portanto, não há prazo definido para isso. Mas estamos muito no caminho certo.”

Trump, por sua vez, afirmou que os Estados Unidos não enviarão tropas terrestres ao Irã.

O debate nos EUA ocorre em meio a uma dívida nacional que ultrapassou a marca histórica de US$ 39 trilhões, segundo o Departamento do Tesouro — e em plena crise do custo de vida para o consumidor americano.

Cada míssil iraniano que atinge uma refinaria no Qatar ou na Arábia Saudita repercute no preço da gasolina em São Paulo, no custo do gás na Europa e no preço dos fertilizantes na Ásia. É, sem exagero, a maior perturbação energética global desde a crise de 1973 — e ainda não há sinal claro de quando terminará.


Fontes: The Washington Post, CNBC, Al Jazeera, ABC News, The Hill, Time, The Intercept, Reason, The National News, Fox Business, CNN, Wikipedia (2026 Iran War / 2026 Strait of Hormuz crisis), Times of Israel, NPR, Bloomberg, Christian Science Monitor, CSIS, FPRI, Bellingcat, The War Zone, 19FortyFive