Um incêndio na lavanderia tirou o USS Gerald R. Ford do Mar Vermelho. Mas a história que levou até esse momento começou meses antes — e é muito mais perturbadora do que a Marinha admite.
No dia 12 de março de 2026, um incêndio começou na lavanderia do USS Gerald R. Ford enquanto o navio operava no Mar Vermelho. Levou mais de 30 horas para ser controlado. Mais de 600 marinheiros perderam seus beliches. Cerca de 200 foram tratados por inalação de fumaça. Um precisou ser evacuado de helicóptero.
A Marinha dos EUA publicou uma nota dizendo que tudo estava bem.
Essa contradição — entre o que estava acontecendo a bordo e o que era comunicado oficialmente — é o ponto de partida para entender uma crise que vai muito além de um incêndio na lavanderia.
Primeiro: o que a Marinha disse
O Comando Central dos EUA foi rápido. Publicou uma nota no mesmo dia afirmando que o fogo não tinha relação com o combate, que o sistema de propulsão estava intacto e que o navio permanecia “totalmente operacional”. Dois marinheiros com ferimentos leves, ambos retornando ao serviço no mesmo dia.
Tecnicamente, nenhuma dessas afirmações era uma mentira. O sistema de propulsão realmente não foi afetado. O navio continuava se movendo.
Mas o que a nota não dizia era que centenas de tripulantes estavam dormindo no chão. Que os serviços de lavanderia haviam colapsado. Que a Marinha precisaria requisitar quase mil colchões de um porta-aviões que ainda está em construção — o USS John F. Kennedy, em Newport News — e enviá-los de urgência ao Ford. Que seriam distribuídas cerca de 2.000 peças de roupa porque a maioria da tripulação não tinha como lavar o que vestia.
Quando esses detalhes vieram a público, ficou claro que “totalmente operacional” era uma descrição do motor. Não das pessoas dentro do navio.
Segundo: a investigação que ninguém esperava
Dias depois do incêndio, múltiplas fontes da imprensa americana e europeia confirmaram algo que transformou o episódio em outro nível de problema: a Marinha dos EUA abriu uma investigação formal para determinar se o fogo foi deliberadamente provocado por membros da própria tripulação.
Oito investigadores chegaram a Souda Bay, na ilha grega de Creta — para onde o Ford foi enviado para reparos — com a missão de ouvir oficiais e tripulantes que possam ter informações sobre o incidente.
A teoria central: marinheiros exaustos e sem perspectiva de retorno para casa teriam ateado fogo à lavanderia para forçar o encerramento do destacamento.
Até o momento, nenhuma conclusão foi anunciada. A causa oficial permanece sob investigação. E é possível que nunca saibamos a resposta definitiva — investigações desse tipo em navios militares são classificadas, e os resultados raramente se tornam públicos.
Mas o fato de essa hipótese ser investigada formalmente já diz muito. Para entender por quê, é preciso voltar ao começo.
Terceiro: a viagem que nunca terminou
O USS Gerald R. Ford saiu de Norfolk, na Virgínia, em 24 de junho de 2025. A missão era um destacamento rotineiro no Mediterrâneo — cerca de sete meses no mar, dentro do padrão normal para um grupo de ataque de porta-aviões. O navio fez exercícios com a OTAN, visitou a Noruega, operou no Atlântico e no Mar do Norte. Tudo conforme o planejado.

Em outubro de 2025, o secretário de Defesa Pete Hegseth ordenou o redirecionamento do Ford para o Caribe, como parte da escalada militar americana contra a Venezuela. O navio cruzou o Atlântico de volta. Chegou ao Caribe em novembro. Participou das operações que culminaram com a captura de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro de 2026, em Caracas.
Na segunda semana de fevereiro, a tripulação recebeu a notícia: voltariam para casa no início de março. O alívio, segundo relatos de familiares que conversaram com a imprensa, foi enorme.
Menos de 12 horas depois, a ordem foi revertida.
O Ford foi redirecionado pela terceira vez — de volta ao Mediterrâneo, depois ao Mar Vermelho, para participar da Operação Epic Fury, o nome dado às operações militares dos EUA contra o Irã. A Marinha confirmou que o navio só retornaria para casa, na melhor das hipóteses, em maio de 2026.
Onze meses de destacamento. O mais longo de um porta-aviões americano desde a Guerra do Vietnã.
O vice-chefe de Operações Navais, almirante James Kilby, comunicou ao Congresso que o Ford está próximo de superar o recorde pós-Vietnã de 294 dias do USS Abraham Lincoln, de 2020. Se continuar no mar até o início de maio, se aproximará do recorde absoluto de todos os tempos: os 332 dias do USS Midway, durante o conflito no Vietnã.
Quarto: os banheiros
Existe um detalhe que pode parecer menor mas que talvez seja o mais revelador de tudo: os banheiros do Ford estão quebrados há meses.
O navio usa um sistema de esgoto a vácuo chamado VCHT, adaptado da indústria de cruzeiros. Funciona bem em navios de lazer que ficam poucas semanas no mar. Em uma embarcação com quase 4.500 pessoas operando por meses a fio, o sistema se mostrou sistematicamente inadequado. Documentos obtidos pela NPR via Lei de Liberdade de Informação mostram 42 chamados de manutenção relacionados ao sistema de esgoto desde 2023 — sendo 32 só em 2025.
Marinheiros relataram esperas de 45 minutos ou mais para encontrar um banheiro funcionando.
Um relatório de 2020 já alertava que o sistema era subdimensionado para o uso real do navio. Nada foi resolvido. O Ford foi ao mar assim mesmo — por meses, depois por mais meses, depois por mais alguns meses.
Quando o incêndio derrubou os serviços de lavanderia, o navio já tinha um problema crônico de higiene. A combinação dos dois eventos — a nave maior da história da humanidade, com banheiros que não funcionam e roupas que não podem ser lavadas — é a imagem mais honesta do estado em que a tripulação se encontrava no dia 12 de março.
Quinto: isso já aconteceu antes
A hipótese de que tripulantes possam ter provocado o incêndio não é uma teoria conspiratória. É uma leitura respaldada pela própria história da Marinha americana.
Durante a Guerra do Vietnã, a Marinha dos EUA enfrentou uma onda documentada de motins, sabotagens e insubordinação. O movimento “Stop Our Ships” envolveu milhares de marinheiros que se recusaram a embarcar, assinaram petições contra a guerra e, em casos extremos, danificaram os próprios navios. Em 1972, peças metálicas foram encontradas dentro do mecanismo de redução principal do porta-aviões USS Ranger — sabotagem que tirou o navio de operação por meses.
Em julho de 2020, um incêndio destruiu o navio de assalto anfíbio USS Bonhomme Richard, ancorado em San Diego. A Marinha acusou um marinheiro de incêndio criminoso. O julgamento militar terminou com absolvição em 2022. O fogo destruiu a embarcação, avaliada em US$ 1,2 bilhão. A causa real nunca foi definitivamente esclarecida.
O padrão é claro: quando uma tripulação é pressionada além do limite por tempo suficiente, o risco de atos desesperados deixa de ser hipotético.
O que tudo isso significa
O USS Gerald R. Ford é o navio de guerra mais avançado do mundo. Catapultas eletromagnéticas. Reatores nucleares de última geração. Custo de construção acima de US$ 13 bilhões. Capacidade de operar mais aeronaves do que qualquer porta-aviões anterior.
Nada disso faz diferença se as pessoas dentro do navio não conseguem dormir, não conseguem usar um banheiro e não sabem quando — ou se — vão voltar para casa.
O chefe de Operações Navais, almirante Daryl Caudle, havia alertado publicamente, em janeiro de 2026, que não queria ver o Ford com o destacamento estendido novamente — citando o impacto sobre a tripulação e o desgaste do navio. O aviso foi ignorado.
O incêndio na lavanderia pode ter sido um acidente. Pode ter sido uma falha elétrica num navio operado por pessoas exaustas que cortam caminho porque não têm outra saída. Pode ter sido algo pior.
O que a investigação vai dizer, se algum dia disser, ainda não sabemos.
O que já sabemos é que uma tripulação foi empurrada meses além do que qualquer contrato, promessa ou padrão militar estabelece como razoável. E que quando isso acontece, navios pegam fogo.
Fontes consultadas: Navy Times, USNI News, NPR, International Business Times (UK), 19FortyFive, Washington Times, Tovima (Grécia), IBTimes UK