A Ucrânia não aposentou o canhão. Passou a usá-lo como arma de precisão guiada por drones: poucos tiros, de posições bem escondidas, com o drone achando o alvo e corrigindo a mira. É por isso que a artilharia segue no front mesmo quando 95% dos ataques já são feitos por drones, segundo um comandante ucraniano.
Resumo rápido:
- 95% dos ataques no front são feitos por drones, segundo o tenente-coronel Vitalii Korniienko, da 7ª Brigada de Artilharia da Guarda Nacional da Ucrânia
- Uma missão de artilharia usa no máximo cerca de 10 projéteis, contando os de ajuste de mira
- O obuseiro Bohdana rebocado volta a atirar em dois a três dias depois de ser atingido por drone
- Em junho, o ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, disse que uma munição nova para drones destruiu cerca de 250 peças de artilharia russas em duas noites
Por que a Ucrânia ainda precisa de canhões?
Porque o drone tem pontos cegos. Em entrevista publicada em setembro pela The War Zone, Korniienko disse que, no setor de Kupiansk, a guerra eletrônica bloqueia os drones antes de chegarem a certos alvos, e os drones de fibra óptica, que não sofrem bloqueio, são lentos e acabam abatidos. Nesses casos, a brigada chama a artilharia. Neblina, vento forte e neve também não impedem um canhão de atirar.
Há um segundo motivo. Os dois lados investem em defesa contra drones, e cada avanço nessa área tira eficiência do drone sem mudar nada para um projétil de artilharia. Quanto mais evolui a guerra de drones, mais o canhão vale.
Como o canhão sobrevive aos drones?
Escondendo-se e atirando pouco. Colocar vários canhões juntos a céu aberto virou convite à destruição, e cada disparo revela a posição. Na brigada de Korniienko, que une artilharia e drones, a missão típica usa até 10 projéteis, incluindo os de ajuste. Os drones fazem o trabalho de olhos da artilharia: encontram o alvo e dizem onde cada tiro caiu.
Um exemplo vem da 147ª Brigada de Artilharia, perto de Pokrovsk, descrito em abril pela Ukrainska Pravda. O capitão de 23 anos conhecido como John, chefe de estado-maior de um batalhão, acompanhou uma missão contra soldados russos que se esconderam num abrigo abandonado. O primeiro tiro caiu 70 metros antes, de propósito, para calibrar a mira. Em seguida veio um acerto direto, e mais dois tiros derrubaram parte do abrigo.
O canhão poderia disparar seis vezes por minuto, mas a equipe atira uma ou duas, corrigindo depois de cada uma. “Este canhão é como um fuzil de atirador de elite”, disse John. Entre o recebimento das coordenadas e o primeiro tiro passam cerca de seis minutos.
Por que o equipamento mais simples resiste melhor?
A arma de John é o Bohdana rebocado, o cano ucraniano de 155 mm montado sobre o reparo de um canhão soviético e puxado por caminhão. Não tem motor, tanque de combustível nem eletrônica, que são justamente o que um drone kamikaze destrói com mais facilidade. Contra o aço, o dano costuma ser menor. A Ukrainska Pravda conta que um desses canhões levou três ataques de drone na mira e voltou a atirar em dois dias. Segundo a reportagem, a maior parte dos estragos de drones e de artilharia inimiga se conserta em dois a três dias, no próprio local.

Korniienko também prefere o Bohdana, fabricado na Ucrânia, aos obuseiros M777 doados pelo Ocidente. Os reparos do canhão ucraniano levam um a dois dias, enquanto os M777 podem ficar meses parados à espera de peças, por causa de restrições de garantia.
O que mudou do lado russo?
O mesmo princípio vale para os canhões russos: um drone com munição comum costuma danificar a peça, mas não a inutiliza, e ela volta a atirar depois de consertada. A resposta ucraniana foi criar uma munição para drones feita para romper o cano. Segundo reportagem da Euromaidan Press, Fedorov afirmou em entrevista em junho que a operação Artashan destruiu cerca de 250 sistemas de artilharia russos em duas noites, e disse ter vídeo de todas as destruições. O número é do governo ucraniano e não foi confirmado de forma independente.
O resultado é uma inversão de papéis. Os drones russos que caçavam canhões ucranianos agora têm os próprios canhões como alvo, e a artilharia que despejava fogo sobre áreas inteiras deu lugar a uma arma de precisão: poucos tiros, bem escondida, guiada pelos mesmos drones que deveriam tê-la tornado obsoleta.
