Aliados recusam enviar navios ao Estreito de Ormuz; tensão acende debate sobre saída dos EUA da aliança e expõe o peso militar que Washington perderia
O presidente Donald Trump exigiu, no fim de semana de 15 e 16 de março de 2026, que países aliados e outras nações enviassem navios de guerra ao Estreito de Ormuz para forçar sua reabertura. A via marítima está efetivamente fechada pelo Irã desde o início de março, em resposta aos ataques aéreos dos Estados Unidos e de Israel, lançados em 28 de fevereiro de 2026.
Em publicação no Truth Social, Trump chamou nominalmente China, França, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido a enviarem embarcações. Ao falar com jornalistas a bordo do Air Force One, no domingo, foi ainda mais direto: “Estou exigindo que esses países venham proteger seu próprio território, porque é seu território.” Em entrevista ao Financial Times, no mesmo período, foi além e advertiu que o futuro da OTAN seria “muito ruim” caso os membros da aliança se recusassem a agir.

A resposta dos aliados foi uma sequência de recusas.
“Essa Guerra Não É Nossa”
O ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, resumiu o sentimento dominante na Europa. “Essa guerra não é nossa, nós não a começamos”, declarou a jornalistas na segunda-feira, 17 de março.
O Reino Unido, na voz do primeiro-ministro Keir Starmer, sinalizou disposição para ajudar a reabrir o estreito, mas deixou claro que qualquer missão não seria da OTAN e que o país não seria “arrastado para a guerra mais ampla”. Japão e Austrália informaram não ter planos de enviar navios. A Espanha foi mais categórica: a ministra da Defesa, Margarita Robles, afirmou que o país “jamais aceitará medidas paliativas” para manter o estreito aberto, defendendo o fim imediato do conflito.
A alta representante de política externa da União Europeia, Kaja Kallas, enquadrou o pedido como algo que “está fora da área de atuação da OTAN”, em referência ao Artigo 6 do Tratado do Atlântico Norte, que limita as obrigações de defesa mútua à região ao norte do Trópico de Câncer.
Trump Contra-Ataca: “Via de Mão Única”
Diante das recusas, Trump reagiu no Truth Social com um tom que misturou mágoa e ameaça. Disse que não estava surpreso, “pois sempre considerou a OTAN uma via de mão única”, em que os Estados Unidos gastam centenas de bilhões de dólares por ano protegendo os mesmos países que se recusam a ajudá-los em momentos de necessidade. “Nós vamos nos lembrar”, escreveu.
No dia seguinte, mudou de posição e declarou que os EUA não precisam mais da ajuda de ninguém.
O episódio reacendeu uma questão que circula em Washington desde o primeiro mandato de Trump: ele pode, de fato, retirar os Estados Unidos da OTAN?
A Lei Que Tenta Impedir — e Suas Brechas
Em dezembro de 2023, o Congresso americano aprovou a Seção 1250A da Lei de Autorização de Defesa Nacional para o Ano Fiscal de 2024 (NDAA 2024). O texto proíbe explicitamente o presidente de suspender, denunciar ou retirar os Estados Unidos do Tratado do Atlântico Norte sem a aprovação de dois terços do Senado ou de legislação específica aprovada pelo Congresso.
A barreira legal existe, mas sua solidez é contestada.
Em 2020, o Departamento de Justiça publicou um parecer afirmando que o presidente tem autoridade exclusiva sobre a rescisão de tratados e que o Congresso não pode interferir nesse poder. O entendimento foi firmado no contexto da retirada dos EUA do Tratado de Céus Abertos, mas o argumento é mais amplo.
No primeiro mandato, Trump retirou os Estados Unidos unilateralmente de cinco tratados aprovados pelo Senado, incluindo o Tratado INF de Forças Nucleares de Alcance Intermediário.
Do ponto de vista do próprio tratado, o Artigo 13 da OTAN permite que qualquer membro se retire após notificação com um período de espera de um ano.
Se Trump ignorasse a Seção 1250A e notificasse formalmente a saída, provavelmente daria início a uma batalha judicial. Mas quem processaria o presidente? Com o Senado sob controle republicano, o apoio político para esse tipo de ação é duvidoso. E a Suprema Corte, que em decisões recentes ampliou os poderes presidenciais, poderia validar a ação. Especialistas descrevem o cenário como juridicamente nebuloso.
A Terceira Via: Esvaziar Sem Sair
Existe ainda uma terceira possibilidade, talvez a mais provável. Trump não precisaria sair formalmente da OTAN para esvaziar a aliança. Bastaria retirar forças, reduzir financiamento, ignorar o Artigo 5 na prática e transformar a participação americana em uma casca vazia.
Esse caminho tem precedente histórico. Em 1966, o presidente Charles de Gaulle retirou a França da estrutura militar integrada da OTAN sem jamais ter saído do tratado. O resultado foi uma correria que beirou o caos: bases inteiras foram realocadas, quartéis movidos, e toda uma infraestrutura construída ao longo de duas décadas teve de ser desmontada e reconstruída em outros países.
E isso era apenas a França.
O Que Está em Jogo: 84 Mil Soldados e 49 Bases
Para entender o impacto real de uma saída ou enfraquecimento da presença americana na OTAN, é preciso olhar para os números.
No início de 2025, os Estados Unidos mantinham cerca de 84.000 militares na área de responsabilidade do Comando Europeu (EUCOM). Essa presença inclui 31 bases permanentes e mais 18 instalações com acesso militar em países europeus — não bases simbólicas, mas a espinha dorsal logística que permite aos EUA projetar poder militar até o Oriente Médio, a África e a Ásia Central.
Base de Ramstein, Alemanha É a maior base aérea americana fora do território continental dos Estados Unidos e a sede do Comando das Forças Aéreas dos EUA na Europa e na África (USAFE-AFAFRICA), além do Comando Aéreo Aliado da OTAN. Mais de 16.000 militares, civis e contratados trabalham ali. Ramstein é o principal hub de mobilidade aérea, evacuação médica e comando e controle em toda a Europa. Quando um soldado americano é ferido em zona de combate no Oriente Médio, é para Ramstein que ele é evacuado.

Base das Lajes, Açores (Portugal) Localizada na Ilha Terceira, no arquipélago português dos Açores, fica no meio do caminho entre a América do Norte e a Europa. É um ponto de reabastecimento estratégico para aeronaves que cruzam o Atlântico.
Itália O país cede três bases altamente estratégicas: Nápoles, Sigonella (na Sicília) e Aviano.
Reino Unido As bases de Lakenheath e Mildenhall abrigam esquadrões de caças e o principal hub de transporte aéreo e reabastecimento em voo dos EUA na Europa.
O Preço de Perder Essas Bases
Se os aliados, em resposta a uma saída americana, revogassem os acordos de uso dessas instalações, as consequências para as operações militares dos EUA — como aquelas que o país conduz atualmente contra o Irã — seriam imediatas e severas.
Colapso da ponte aérea transatlântica. A distância entre a costa leste dos Estados Unidos e o Golfo Pérsico é de cerca de 11.000 km. Um caça como o F-15E tem raio de combate de aproximadamente 1.300 km. Mesmo com reabastecimento em voo, mover aeronaves de combate para o teatro de operações exige escalas — e as Lajes, nos Açores, são o trampolim natural no meio do Atlântico. Sem essa base, as rotas de transferência ficam dramaticamente mais longas, mais caras e mais arriscadas.
Evacuação médica comprometida. Ramstein, na Alemanha, é o coração do sistema de evacuação das Forças Armadas americanas. A alternativa seria transferir tudo para bases no Golfo — justamente as que estão sendo atacadas pelo Irã neste momento.
Ruptura no comando e controle. Ramstein abriga infraestrutura de comunicações que sincroniza operações aéreas entre dezenas de países aliados. Perder esse nó afeta diretamente a coordenação de toda a campanha.
Reabastecimento em voo inviabilizado. Operações aéreas prolongadas a milhares de quilômetros de distância dependem de aviões-tanque que, por sua vez, precisam de bases para pousar, reabastecer e receber manutenção. Sem a rede europeia, a Força Aérea americana teria de operar a partir do território continental ou de um número muito reduzido de instalações no Golfo, sob ameaça iraniana direta.
Mais do Que um Favor à Europa
Os 84.000 militares americanos na Europa, as 31 bases permanentes, os hubs logísticos, os centros médicos e os postos de comando não são um favor aos europeus. São a infraestrutura que permite aos Estados Unidos projetarem poder militar em qualquer parte do globo com rapidez e eficiência.
Desmontar tudo isso não enfraquece apenas a Europa. Enfraquece, e muito, os próprios Estados Unidos.
Fontes consultadas: NPR, The War Zone, NBC News, Fortune, Al Jazeera, CNBC, Washington Times, Council on Foreign Relations, Center for European Policy Analysis (CEPA), Lawfare, American Enterprise Institute (AEI), Wikipedia (Ramstein Air Base)