Em 38 dias, a guerra dos EUA e Israel contra o Irã destruiu submarinos, navios e bases iranianas. Mas o Estreito de Ormuz continua parcialmente fechado — e quem está prometendo abri-lo de vez não são os Estados Unidos. É a Ucrânia.
A Ucrânia, um país sem marinha de guerra digna do nome em 2022, fechou em março de 2026 três acordos militares de dez anos com Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar. O presidente Volodymyr Zelensky chama o pacote de “Acordo de Drone”. E o produto principal é exatamente o tipo de arma que o Irã passou os últimos meses tentando bloquear no Golfo Pérsico: drones navais e interceptadores aéreos baratos, testados em combate contra a Rússia.
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A lógica do negócio é simples — e dolorosa para o Irã. Um drone Shahed iraniano, do tipo que tem sido lançado contra alvos no Golfo desde o início da Operação Fúria Épica em 28 de fevereiro, custa entre US$ 80 mil e US$ 130 mil. O interceptor ucraniano que derruba esse mesmo Shahed custa cerca de US$ 10 mil. O cálculo é confirmado pelo próprio Zelensky em entrevista à CNN em abril e foi apresentado como o argumento central da venda às monarquias do Golfo.
Por que o Golfo está comprando da Ucrânia
Até hoje, países do Golfo derrubavam drones e mísseis iranianos com sistemas Patriot e THAAD — escudos antiaéreos americanos que estão entre os mais avançados do mundo. O problema é matemático: cada míssil interceptor desses custa milhões de dólares. Usar uma arma de US$ 4 milhões para abater um drone de US$ 100 mil é, segundo o próprio Zelensky, “ilógico” — ainda mais quando o Irã consegue lançar dezenas por noite.

A Ucrânia passou três anos e meio enfrentando exatamente o mesmo problema com os Shaheds russos, que são clones dos iranianos. Aprendeu a derrubá-los em massa, com drones interceptadores próprios, sistemas de guerra eletrônica e software de coordenação. É essa experiência — testada em combate, não em laboratório — que está sendo licenciada para o Golfo.
Os acordos preveem mais que venda de hardware. Incluem coprodução local em fábricas que devem ser construídas tanto na Ucrânia quanto nos países parceiros, transferência de software, treinamento e contribuições financeiras anuais fixas. Em troca, a Ucrânia recebe combustível, dinheiro e — segundo Zelensky — pode obter mísseis Patriot que os árabes hoje usam contra o Irã, mas que os ucranianos precisam para defender suas cidades dos ataques russos.
Não foi um acidente: a Ucrânia produziu entre 2,5 milhões e 4 milhões de drones em 2025 e quer chegar a 7 milhões em 2026, segundo o Council on Foreign Relations, um dos principais think tanks americanos de política externa. A capacidade interna ultrapassou em muito o que o orçamento de defesa local consegue absorver. Desde 2022, a Ucrânia se autoproibia de exportar armas — toda a produção tinha que ir para a frente de combate. Em setembro de 2025, o governo ucraniano derrubou essa proibição, abrindo a porta para os contratos comerciais que agora estão sendo formalizados.
O Magura V7, o “drone porta-aviões” que abateu caças russos
A peça mais comentada do pacote é o Magura V7, drone naval ucraniano de cerca de oito metros de comprimento. Suas especificações públicas são impressionantes: velocidade de cruzeiro de 23 nós (43 km/h), máxima de 39 nós (72 km/h), autonomia de 48 horas — ou até sete dias com gerador auxiliar — e alcance de aproximadamente 1.480 quilômetros. Carrega até 650 quilos de carga útil, que pode ser explosivos, metralhadoras ou, na configuração mais inovadora, dois mísseis AIM-9 Sidewinder, armas ar-ar de fabricação americana usadas em caças desde os anos 1950.

Foi um Magura V7 armado com Sidewinders que, em 2 de maio de 2025, abateu dois caças russos Su-30 sobre o Mar Negro. Foi a primeira vez na história que um drone naval derrubou aviões de caça tripulados. Cada Su-30 vale aproximadamente US$ 50 milhões; cada Magura, uma fração disso.
Zelensky confirmou em coletiva no fim de março que tanto o Magura V7 quanto o drone Sea Baby — outra família ucraniana, usada para missões de impacto explosivo contra navios — estão incluídos nos pacotes vendidos ao Golfo. Em entrevista a jornalistas via WhatsApp ao retornar de sua turnê pelo Oriente Médio, o presidente ucraniano disse que os drones podem inclusive participar diretamente de operações de escolta de comboios mercantes na região, embora tenha ressaltado que “isso é uma questão tratada pelos Estados Unidos”.
Mais de 200 ucranianos já operam no Oriente Médio
Antes mesmo dos acordos formais serem assinados, especialistas ucranianos já estavam no terreno. Em 18 de março, Zelensky confirmou a presença de 201 técnicos antidrones ucranianos espalhados por Arábia Saudita, Emirados, Catar, Kuwait e Jordânia. O número subiu desde então, segundo fontes ucranianas e a imprensa do Golfo.
O trabalho desses operadores é direto: ajudar a derrubar drones Shahed em tempo real e treinar contrapartes locais. O reconhecimento veio até de Londres — o primeiro-ministro britânico Keir Starmer mencionou a contribuição ucraniana em pronunciamento sobre a defesa de bases aliadas no Golfo.
Outros 11 países, segundo Zelensky, já fizeram pedidos formais para acessar a tecnologia. A maioria está no Oriente Médio e no Golfo, mas há também pedidos vindo do Cáucaso.
Por que o Estreito de Ormuz é o ponto-chave
Pelo Estreito de Ormuz passa cerca de 20% de todo o petróleo marítimo do mundo e uma parcela enorme do gás natural liquefeito que abastece Europa e Ásia. Catar, Bahrein, Iraque, Kuwait e o próprio Irã dependem dele para exportar quase toda sua produção de petróleo. Arábia Saudita e Emirados têm rotas alternativas, mas limitadas.
Desde 4 de março, quando o Irã declarou o estreito “fechado” em retaliação à Operação Fúria Épica, a passagem virou zona de combate. Tanques de guerra navais, ataques com drones, mísseis e minas marítimas paralisaram boa parte do tráfego mercante. O preço do barril de petróleo Brent — que serve de referência para o mercado mundial — passou de US$ 120 em março, e a estatal QatarEnergy suspendeu oficialmente os contratos de exportação alegando situação fora do seu controle. O preço da gasolina nos Estados Unidos subiu mais de US$ 1 por galão. O Federal Reserve de Dallas, banco central regional dos EUA, estima que o impacto pode tirar quase 3% do crescimento da economia mundial no segundo trimestre de 2026.
O cessar-fogo anunciado em 8 de abril não resolveu o gargalo. Os EUA mantêm bloqueio aos portos iranianos e o Irã continua impondo restrições à navegação. Mesmo com 19 navios mercantes voltando a transitar pelo estreito em 25 de abril, segundo a Windward — consultoria marítima que monitora o tráfego global —, o volume está bem abaixo do que era antes da guerra.
O que ainda não está claro
A narrativa de que os drones ucranianos vão “abrir o Estreito de Ormuz” precisa de algumas ressalvas. Primeiro, a marinha iraniana foi em grande parte destruída durante a Operação Fúria Épica — 150 navios iranianos de 16 classes foram afundados pelos EUA, incluindo praticamente todos os submarinos, segundo dados oficiais da Casa Branca. O alvo natural dos drones navais ucranianos contra a Rússia, portanto, hoje é um inimigo bem menor no Golfo.
Segundo, a desobstrução do estreito é hoje um projeto liderado pelos Estados Unidos, não pela Ucrânia. Os drones ucranianos ajudam na defesa antidrone — derrubando os Shaheds que ainda saem do território iraniano — mais do que numa operação ofensiva direta no estreito.
Terceiro, parte da narrativa pública vem do próprio Zelensky em momento de promoção comercial do “Acordo de Drone”. A imprensa americana e britânica tem sido mais cautelosa quanto ao protagonismo ucraniano no teatro do Golfo.
O que é fato: a Ucrânia, sem ter saído da própria guerra, virou um dos maiores exportadores de tecnologia militar do mundo em menos de quatro anos. E o produto que está vendendo — interceptores baratos contra drones baratos — pode ser o tipo de arma que vai redefinir como países do Oriente Médio se defendem nos próximos dez anos.
Para o Irã, isolado, com a marinha destruída e a indústria de mísseis em ruínas, é mais um problema. Para o Golfo, é uma alternativa rara: defesa de ponta sem depender exclusivamente dos Estados Unidos.

