Mapa do canal russo Rybar, com a situação até 23 de agosto, mostra Lyman em mãos ucranianas e as estradas que abastecem as tropas russas dentro da zona de combate.
O contra-ataque ucraniano ao norte de Lyman apertou o saliente que a Rússia levou mais de um ano para construir. O mapa mais recente do canal russo Rybar, com a situação até o fim de 23 de agosto, mostra a cidade em mãos ucranianas, setas de avanço subindo para o norte sobre Drobysheve, Novoselivka e Shandryholove, e as duas estradas que sustentam o abastecimento russo dentro da faixa de combate.
Rybar é um canal de mapeamento alinhado ao Ministério da Defesa russo, e é por isso que o desenho pesa: a mancha de controle russo entre o rio Nitrius e Yarova aparece estreitada dos dois lados, com o corredor que liga a ponta do saliente à retaguarda reduzido a poucos quilômetros de largura.
O avanço a noroeste da cidade já vinha sendo registrado por fontes independentes. Em 8 de agosto, um blogueiro militar russo admitiu que tropas ucranianas tinham entrado no norte de Shandryholove e controlavam o sul de Novoselivka, o centro de Drobysheve, o oeste de Lyman e o centro de Yampil. Uma semana depois, o avanço em torno de Novoselivka chegou a Derylove e pôs as posições russas em Yarova sob ameaça de flanco.

O Instituto para o Estudo da Guerra escreveu em 23 de agosto que as defesas ucranianas travaram as tentativas russas de avançar das direções de Lyman e Yampil rumo a Slaviansk. Dois dias antes, o mesmo instituto classificava como extremamente improvável que a Rússia conseguisse ganhos táticos ou operacionais relevantes nessa direção passando por Lyman.
Dois pontos do texto que circula junto com o mapa merecem correção. Lyman não foi libertada agora: a cidade foi retomada em 1º de outubro de 2022, depois de cerca de quatro meses de ocupação, e nunca mais caiu. Os russos chegaram à borda leste e passaram a infiltrar grupos pequenos, sem conseguir se firmar dentro. O rio Zherebets, apontado como próximo objetivo, também segue vários quilômetros à frente da linha atual.
Quem executa o contra-ataque é o 3º Corpo de Exército, que desde o fim de maio ataca atrás das pontas de lança russas em vez de enfrentá-las de frente. Nessa sequência vieram Nove, Katerynivka, a 16 quilômetros a nordeste de Lyman, mais Ridkodub e Karpivka, todas no lado leste do saliente. O analista Andrew Perpetua avaliou em junho que a Ucrânia tinha avançado ao norte de Lyman mais do que qualquer mapa mostrava na época.
Na própria cidade, quem segura a linha é a 53ª Brigada Mecanizada. O segundo-tenente Volodymyr Hirniak, da unidade, disse em 21 de agosto que os russos continuam mandando grupos pequenos de infantaria para atravessar as linhas ucranianas, que a logística deles não sustenta esses grupos e que os infiltrados terminam detectados e neutralizados.

O que está em jogo é a porta norte do Donbas. Lyman é o acesso natural a Slaviansk e Kramatorsk, o par de cidades que a Rússia persegue desde 2022 e que forma o núcleo da linha de fortalezas ucraniana. Em 4 de agosto, o porta-voz das Forças Conjuntas, Viktor Trehubov, resumiu o cálculo russo: tomar Lyman e montar base ali antes de descer para o sul. Enquanto o saliente estiver sob fogo dos dois lados, esse plano não avança.
A pressão russa não parou. Nos dias 22 e 23 de agosto, o Estado-Maior ucraniano relatou dezenove tentativas de assalto repelidas na direção de Lyman, em pontos como Drobysheve, Novoselivka, Novyi Myr e a própria Lyman. O teste seguinte é o corredor de abastecimento: se os drones e a artilharia ucranianos mantiverem as estradas C051020 e O0526 sob fogo, as unidades russas na ponta do saliente ficam com duas opções, recuar ou resistir em posições cada vez mais isoladas.