A Ucrânia atacou com drones, no sábado, 25 de julho, navios de carga sob sanções que fazem a ligação militar entre o Irã e a Rússia pelo Mar Cáspio. O governo iraniano confirmou a explosão a bordo de uma de suas embarcações, com um marinheiro morto e outro ferido, classificou a ação como ato hostil e criminoso e prometeu resposta. Desde então, canais de propaganda alinhados ao governo iraniano passaram a lembrar que todo o território ucraniano está dentro do alcance dos mísseis balísticos do país.
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O que a Ucrânia diz ter atingido
O Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) e a inteligência militar (HUR) assumiram a operação. Segundo o SBU, os alvos eram cargueiros sob sanções internacionais usados para transportar material militar entre os dois países. Volodymyr Zelensky afirmou que as forças ucranianas obtiveram resultados muito bons com ataques de longo alcance nas águas do Cáspio e citou tanto os navios de carga quanto um navio de guerra russo.
Dois nomes apareceram nos relatos. O Port Olya 2, cargueiro da empresa russa sancionada MG-Flot, e o Begey, que segundo o SBU levava munição, projéteis de artilharia, coletes balísticos e capacetes vindos do Irã. O Begey desligava o sistema de identificação automática durante as travessias e fazia escala regular no porto iraniano de Amirabad, um dos pontos que a Ucrânia identifica como parte da cadeia logística dos drones Shahed. No mesmo dia, o SBU afirma ter destruído no Cáspio um radar 92N6E, um sistema antiaéreo Tor-M2 e uma lancha lança-mísseis do Projeto 12418 Molniya, além de atingir a plataforma de petróleo Filanovsky.
O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, disse que o ataque não pode ficar sem resposta e acusou a Ucrânia de ter agido a mando de Israel para arrastar a Europa para a guerra. Nenhuma prova foi apresentada publicamente para sustentar a acusação. O encarregado de negócios ucraniano em território iraniano foi convocado para receber um protesto formal.
Por que o Cáspio
Até aqui a Ucrânia atacava o produto da parceria, os drones Shahed que caem sobre Kiev e Odessa. Agora atacou a rota. O Cáspio era o trecho que os dois países tratavam como retaguarda segura: mar fechado, longe da linha de frente, sem passagem pelo espaço aéreo ou pelas águas de nenhum terceiro país. Do território controlado pela Ucrânia até o meio do Cáspio são mais de 1.500 quilômetros, e a operação aconteceu no mesmo dia em que a Ucrânia atingiu a refinaria de Tiumen, a cerca de 2.000 quilômetros da fronteira.
A ameaça balística e a conta do alcance
A retaliação prometida apareceu primeiro na forma de um mapa. Um canal de Telegram alinhado ao Irã publicou uma imagem afirmando que a Ucrânia inteira está no raio de ação dos mísseis iranianos, com destaque para o Khorramshahr-4. Esse míssil tem alcance de cerca de 2.000 quilômetros e ogiva de 1.500 quilos, com precisão que a agência Fars, ligada à Guarda Revolucionária, estima em torno de 30 metros. Nenhuma autoridade iraniana fez a ameaça em nome do governo até agora. A posição oficial se limita a dizer que o país se reserva o direito de tomar a ação apropriada.
A conta fecha só em parte. De Teerã até Kiev são cerca de 2.350 quilômetros em linha reta, acima do alcance anunciado do Khorramshahr-4. A partir do noroeste iraniano, na altura de Tabriz, a distância cai para perto de 1.900 quilômetros e a capital ucraniana entra no raio. A ameaça depende de onde o lançador estiver.
Do lado ucraniano, a resposta que circula nas redes é o FP-5 Flamingo. O míssil de cruzeiro da Fire Point é anunciado com 3.000 quilômetros de alcance, ogiva de 1.150 quilos e velocidade de cerca de 900 km/h, e foi apresentado ao público internacional na feira Eurosatory, em junho. No papel, o Irã está dentro do envelope, e uma trajetória sobre a Rússia e o Cáspio chegaria lá sem cruzar o espaço aéreo de nenhum outro país.
A prática ainda não confirmou o número. Os ataques documentados com o Flamingo sustentam algo em torno de 1.500 quilômetros, e até junho de 2026 não havia registro público do míssil acertando alvo na distância máxima anunciada. Uma análise publicada em maio contou 23 lançamentos conhecidos e apenas dois acertos diretos confirmados, o que indica que a Ucrânia precisa disparar vários mísseis para colocar um no alvo. Em 4 de julho, a defesa aérea russa abateu cinco Flamingos em uma única noite, com apoio de um avião radar A-50U. O primeiro alvo profundo confirmado do míssil foi a fábrica de Votkinsk, em fevereiro, a cerca de 1.300 quilômetros da fronteira.
O que vem
O Irã prometeu resposta sem dizer qual, e o histórico recente aponta para o caminho mais barato: mais componentes e mais mísseis para a Rússia usar contra cidades ucranianas, em vez de um ataque assinado pelo próprio Irã. O ataque no Cáspio deixou claro, porém, que a Ucrânia já não trata o corredor como território intocável, e o custo dessa rota subiu para os dois lados.