A Rússia proibiu suas próprias exportações de gasolina, derrubou o sistema bancário do país ao tentar bloquear um aplicativo de mensagens e, sem querer, ajudou a Ucrânia a construir uma indústria bilionária de drones de defesa. Em 2026, as maiores derrotas de Moscou não vieram do campo de batalha, vieram de dentro do próprio governo.
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O ano que seria decisivo
No início de 2026, Vladimir Putin prometeu ao mundo que este seria o ano da vitória definitiva. A Ucrânia, segundo ele, finalmente cederia. O Donbas, a região industrial no leste ucraniano que a Rússia tenta controlar desde 2014, cairia por completo. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky não teria escolha a não ser negociar nos termos de Moscou.
Mas os números contam outra história. Segundo análises baseadas em dados do Institute for the Study of War (ISW), em março de 2026, pela primeira vez em dois anos e meio, a Rússia não avançou mais do que recuou na linha de frente. Na prática, foi a Ucrânia que terminou o mês com mais território, retomando cerca de 9 km². No primeiro trimestre de 2026, o avanço russo caiu para cerca de 5 km por dia, contra 11 km no mesmo período de 2025, segundo monitores de guerra citados pela CNN.

No dia 1º de abril, o Ministério da Defesa Russo anunciou pela terceira vez que havia tomado por completo a região de Luhansk, no leste ucraniano. O problema? Segundo o ISW, a Rússia já controlava 99,84% da região. O “grande anúncio” se referia a uma fração mínima de território. Um porta-voz militar ucraniano chamou a declaração de “piada de 1º de abril”.
A proibição que custou bilhões
A primeira grande decisão que saiu pela culatra envolveu o petróleo, a principal fonte de receita que sustenta a máquina de guerra russa. A Ucrânia intensificou ataques com drones aos portos de exportação de Ust-Luga e Primorsk, no Mar Báltico, atingindo as instalações ao menos cinco vezes em dez dias, no final de março.

A resposta do governo russo foi drástica: proibir todas as exportações de gasolina, incluindo as feitas por produtores, até 31 de julho. Um dos maiores produtores de petróleo do mundo baniu suas próprias exportações de combustível. O governo justificou a medida como necessária para estabilizar o abastecimento interno durante o período de plantio, quando o consumo de combustível dentro do país aumenta. Mas o momento não poderia ser pior.
Cálculos da Reuters indicam que cerca de 40% da capacidade russa de exportação de petróleo pelo Báltico ficou fora de operação na última semana de março. As causas se somaram: portos danificados, problemas em oleodutos e dificuldades logísticas.
Com os preços globais do petróleo em alta, impulsionados em parte pelo bloqueio iraniano do Estreito de Ormuz (uma passagem marítima no Oriente Médio por onde circula boa parte do petróleo do mundo), a Rússia deveria estar lucrando. Em vez disso, o dinheiro ficou preso em portos destruídos.
Para piorar, duas regiões do extremo leste russo e a Crimeia anexada chegaram a introduzir cartões de racionamento para compra de gasolina, segundo o Moscow Times.
O bloqueio que derrubou o sistema bancário
A segunda decisão foi ainda mais improvável. Em fevereiro de 2026, o governo russo começou a restringir o acesso ao Telegram, o aplicativo de mensagens usado diariamente por cerca de 65 milhões de russos. A plataforma é usada para tudo: soldados coordenam operações, autoridades se comunicam, cidadãos fazem transações. Para substituí-lo, o Kremlin (como é chamado o governo central russo) passou a promover o Max, um aplicativo estatal controlado pela empresa russa VK, que compartilha dados com os serviços de segurança e já vem pré-instalado em todos os smartphones vendidos no país.

O problema surgiu quando o governo tentou bloquear também as ferramentas que os russos usavam para continuar acessando o Telegram. Essas ferramentas funcionam como túneis virtuais que disfarçam a origem da conexão. Ao tentar derrubá-las, o governo acidentalmente derrubou também os sistemas eletrônicos de pagamento do país.
Na sexta-feira, 3 de abril, o metrô de Moscou precisou liberar as catracas para os passageiros entrarem sem pagar. Um zoológico regional pediu que visitantes usassem dinheiro em espécie. Segundo a Reuters, Pavel Durov, fundador do Telegram, declarou que a tentativa de bloqueio provocou uma “falha bancária massiva” e que dinheiro em espécie se tornou brevemente o único meio de pagamento no país. O Sberbank, maior banco comercial russo, confirmou um problema técnico, mas não deu detalhes. Alguns veículos de mídia russa chegaram a apagar reportagens que conectavam a falha ao bloqueio de ferramentas de acesso.
O episódio gerou reações de dentro do próprio sistema de apoio ao governo. Soldados no campo de batalha classificaram o bloqueio como ameaça às comunicações militares. Blogueiros pró-guerra, normalmente as vozes mais leais ao Kremlin na internet, se voltaram publicamente contra a decisão.
A arma que criou uma indústria bilionária para a Ucrânia
A terceira decisão é, na verdade, uma consequência acumulada de anos. Desde o início da invasão em grande escala, a Rússia disparou dezenas de milhares de drones de fabricação iraniana (conhecidos como Shahed) contra a Ucrânia. O objetivo era destruir a infraestrutura e desgastar a população civil. Só no inverno de 2025-2026, segundo o presidente Zelensky, foram mais de 19 mil drones lançados contra o país.
Mas o efeito colateral foi algo que Moscou nunca calculou. Forçada a se defender, a Ucrânia desenvolveu drones interceptadores, feitos especificamente para destruir outros drones no ar, a um custo de apenas US$ 1.000 a US$ 3.000 por unidade. Para comparação, um míssil do sistema americano Patriot custa cerca de US$ 4 milhões por disparo.
Quando o Irã começou a atacar países do Golfo Pérsico (a região do Oriente Médio onde ficam alguns dos maiores produtores de petróleo do mundo) com os mesmos drones Shahed, usando-os contra Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar, esses países enfrentaram o mesmo problema que a Ucrânia já havia resolvido. Como derrubar drones baratos sem gastar uma fortuna em mísseis caríssimos?
A resposta veio de Kyiv. Zelensky assinou acordos de cooperação militar de 10 anos com Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes Unidos, com negociações em andamento também com Kuwait, Jordânia, Bahrein e Omã. Mais de 228 especialistas ucranianos em guerra de drones já operam na região, e os acordos incluem não apenas interceptadores, mas também sistemas de guerra eletrônica (tecnologia que interfere nos sinais de navegação dos drones inimigos), software e drones marítimos.
A arma que a Rússia usou para atacar cidades e infraestrutura civil ucraniana criou, sem querer, uma indústria de exportação para o país que ela tentou destruir.
Uma potência em guerra consigo mesma
Cada uma dessas três decisões fazia sentido isoladamente, pelo menos em teoria. Proibir exportações de gasolina para evitar desabastecimento interno. Bloquear o Telegram para controlar a informação. Usar drones baratos para desgastar o inimigo. Mas, na prática, cada uma produziu o efeito contrário.
Os dados reforçam o quadro. Em março de 2026, as perdas russas atingiram o recorde de mais de 35 mil soldados mortos ou feridos, segundo números ucranianos. O recrutamento ficou mais difícil: em algumas regiões, governadores passaram a exigir que empresas privadas indiquem funcionários para o serviço militar. E no campo diplomático, o Kremlin exigiu a retirada ucraniana do Donbas em dois meses, quando o próprio avanço russo levou anos e segue cada vez mais lento. Para alguns analistas, esse tipo de ultimato soa mais como sinal de pressão interna do que de confiança real.
Historicamente, grandes potências não costumam entrar em colapso porque são derrotadas por um inimigo externo. Elas entram em crise quando começam a se prejudicar por dentro, tentando se manter de pé. As três decisões que a Rússia tomou nos últimos meses podem não ter decidido a guerra sozinhas, mas levantam uma pergunta incômoda: será que o maior obstáculo para a vitória russa não é a Ucrânia, mas a própria Rússia?
