Mais de 20 mil pessoas cruzaram a fronteira entre a Rússia e a Geórgia em um único dia, em 18 de agosto, pelo posto de Verkhny Lars, a única passagem terrestre entre os dois países. O número é da própria alfândega russa, que chamou o movimento de “fluxo turístico”. Nos dias 15 e 16 já tinham passado mais de 19 mil por dia, e a semana fechou com 113 mil travessias, segundo o vice-primeiro-ministro da Ossétia do Norte. A fila se formou em meio a rumores de uma nova mobilização logo depois das eleições parlamentares de setembro.

Resumo rápido:

  • Recorde de mais de 20 mil travessias em Verkhny Lars em 18 de agosto de 2026, segundo a alfândega russa.
  • Em 11 de agosto, Zelensky disse que a Rússia prepara mobilização de 300 mil a 500 mil homens após as eleições da Duma.
  • Empresas russas abriram mais de 2.600 vagas para especialistas em registro militar e mobilização.
Algo SINISTRO está acontecendo na Rússia… e os russos estão FUGINDO
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O que os números da fronteira mostram

A alfândega russa não separa quem sai de quem entra. O Ministério do Interior da Geórgia contou, em um período de 24 horas, pouco mais de 16 mil passagens, com 7.880 pessoas no sentido da Geórgia e 8.406 no sentido da Rússia, segundo levantamento do Meduza. Ou seja, o tráfego é nos dois sentidos, e agosto é alta temporada de turismo no Cáucaso. O que destoa é a escala: os números superam com folga os mesmos períodos dos anos anteriores, e quem estava na fila descreveu carros avançando cerca de 100 metros a cada duas horas do lado russo.

Em 21 de agosto, uma jornalista perguntou ao embaixador russo na ONU, Vasily Nebenzya, sobre os milhares de russos indo para a Geórgia. A resposta foi que a mobilização em massa “não está planejada nem esperada, pelo que eu sei”, seguida de um “vamos ver o que acontece depois das eleições”. Um mês antes, Dmitri Medvedev, vice-presidente do Conselho de Segurança, tinha chamado os rumores de “bobagem” e “provocação mentirosa”, dizendo que 200 mil pessoas assinaram contrato com o Ministério da Defesa no primeiro semestre.

De onde vem a data que os russos temem

Em 11 de agosto, depois de reunião com a inteligência militar, Volodymyr Zelensky afirmou que documentos internos russos apontam para uma mobilização de 300 mil a 500 mil homens logo após as eleições para a Duma, marcadas para setembro, poupando as grandes cidades para reduzir a reação da sociedade. Em 27 de agosto, a inteligência ucraniana subiu a estimativa: 600 mil pessoas, divididas entre este ano e o próximo.

A base legal já está pronta. Em novembro de 2025, Putin sancionou uma lei que permite enviar reservistas a zonas de combate sem declarar mobilização. Em 22 de julho de 2026, a Duma aprovou em um só dia, nas três leituras, a lei que libera contrato militar para condenados e réus por participação em quadrilha, crime organizado e contrabando de drogas.

O sinal mais concreto veio do mercado de trabalho. O site de empregos HeadHunter chegou a ter 2.606 vagas ativas para “registro militar”, abertas por órgãos públicos, estatais e empresas privadas, com cerca de 1.300 delas publicadas em uma única semana de agosto, segundo levantamento do site ucraniano NV. É a função de quem organiza a lista de convocáveis dentro de cada empresa.

Por que a Rússia precisa de mais homens

A conta não fecha. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), de Washington, estima que a Rússia perde de 30 mil a 34 mil homens por mês em 2026, entre mortos, feridos e desaparecidos, contra cerca de 27 mil recrutados por todas as vias. Em troca, o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) mediu o avanço russo em julho em 37,85 quilômetros quadrados, menos que a ilha de Manhattan.

Enquanto isso, a Ucrânia retoma terreno. Em 12 de agosto, Zelensky apresentou o balanço de uma operação iniciada em janeiro no sudeste do país: 745 quilômetros quadrados e 26 localidades recuperadas nas regiões de Dnipropetrovsk, Donetsk e Zaporíjia.

Sem voluntários suficientes, o recrutamento mudou de método. A Euronews documentou recrutadores trabalhando com a polícia: homens em idade de combate são parados na rua ou perto do trabalho “para checar documentos”, levados ao posto de alistamento e agredidos ou ameaçados com processos forjados até assinar. Em um caso na região de Penza, o homem foi chamado à delegacia sob o mesmo pretexto e encontrou os recrutadores à espera.

O que acontece depois das eleições?

Duas coisas se cruzam. A Bloomberg publicou em 26 de agosto, citando três pessoas próximas ao governo russo, que a Rússia se prepara para intensificar os ataques por considerar as negociações esgotadas, e que um número crescente de autoridades já admite que Putin poderia recorrer a uma arma nuclear tática como último recurso, sem sinal de preparativos nesse sentido. Na véspera, 25 de agosto, o diretor da CIA, John Ratcliffe, desembarcou em Moscou em visita não anunciada; segundo a CNBC, ele alertou a Rússia contra escalar a guerra para países europeus.

A mobilização de setembro de 2022 convocou 300 mil homens e provocou protestos em dezenas de cidades e uma fila de dezenas de quilômetros nessa mesma fronteira. A diferença agora é a ordem dos fatos: daquela vez a fuga começou depois do decreto. Desta vez, o decreto ainda não existe.