Em abril de 2026, Moscou abriu uma frente que não estava no script da guerra na Ucrânia. E escolheu para isso exatamente o momento em que a aliança ocidental está mais dividida desde a Guerra Fria.

O governo russo acusou formalmente os países bálticos e a Finlândia de abrirem seu espaço aéreo para os drones ucranianos que estão incendiando as principais refinarias e terminais de petróleo do país. A advertência, feita por porta-vozes oficiais do Kremlin, veio acompanhada de ameaça explícita de retaliação. O problema é que a acusação não se sustenta nos fatos, e o verdadeiro alvo do ultimato pode não ser a OTAN do Báltico, mas sim Donald Trump.

O ataque que tirou US$ 1 bilhão do Kremlin em uma única semana

Entre 22 e 31 de março, a Ucrânia realizou pelo menos cinco ataques com drones contra o porto de Ust-Luga, na região russa de Leningrado. O terminal vizinho de Primorsk foi atingido na mesma onda. Juntos, esses dois portos escoam cerca de 40% de todo o petróleo exportado pela Rússia por via marítima.

O resultado foi devastador. Segundo dados compilados pela Bloomberg, as exportações pelo Báltico caíram para cerca de um terço do volume da semana anterior, o menor nível desde o início da invasão em 2022. O prejuízo estimado para o Kremlin passou de US$ 1 bilhão em apenas sete dias.

Refinaria de petróleo após incêndio (domínio público – CSB) – https://commons.wikimedia.org/?curid=53395901
Imagem ilustrativa. Fonte: Wikimedia Commons (domínio público).

Só em Primorsk, de acordo com relatos da indústria, US$ 200 milhões em petróleo foram destruídos. A Reuters classificou o episódio como a mais grave interrupção no fornecimento de petróleo da história russa moderna.

E aqui começa a história real do ultimato.

A ameaça que Moscou começou a repetir em cadeia

No dia 31 de março, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, lançou o primeiro alerta público. Ela afirmou que os países bálticos haviam sido “devidamente advertidos” e que teriam que lidar com uma resposta caso não escutassem, conforme registrado pela Euronews.

Duas semanas depois, em 13 de abril, Nikolai Patrushev reforçou o recado. Patrushev é assistente presidencial e uma das figuras mais duras do círculo íntimo de Putin. Em entrevista ao Rossiyskaya Gazeta, ele argumentou que uma rota de mais de 1.400 quilômetros só seria possível com o consentimento dos governos dos países sobrevoados.

A mensagem foi clara. Para o Kremlin, abrir o espaço aéreo a drones ucranianos equivale a participação direta nos ataques, o que tecnicamente justificaria uma resposta militar. Mas há um detalhe que os russos preferem não discutir em voz alta.

O problema da acusação: os drones nunca passaram por lá

Uma análise detalhada de redes de monitoramento aéreo da Ucrânia, da Belarus e do noroeste da Rússia, publicada pelo Kyiv Post, identificou a rota real usada pelos drones ucranianos. Eles voam por um corredor entre 20 e 50 quilômetros a leste da Belarus e, ao saírem do território ucraniano, não entram em espaço aéreo da OTAN nem sequer passam próximos dele.

Estônia, Letônia e Lituânia rejeitaram publicamente as acusações. O coronel Ants Kiviselg, chefe da inteligência militar estoniana, revelou que seu país, na verdade, orienta a Ucrânia a escolher corredores de ataque que mantenham os drones longe do espaço aéreo da aliança.

A Letônia, em nota oficial do Ministério da Defesa, classificou a alegação russa como totalmente infundada e exigiu retratação imediata. Para analistas citados pelo Kyiv Post, a narrativa russa serve a um objetivo interno específico: evitar que a opinião pública russa perceba a Ucrânia como adversário militar sério e que cobre Moscou pela incapacidade de defender seu próprio território.

Mas existe um segundo motivo, muito mais estratégico, para o timing do ultimato.

Por que agora: a fratura aberta na OTAN após o Irã

Em 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos iniciaram, em conjunto com Israel, a chamada Operação Epic Fury contra o Irã. O objetivo era reabrir o Estreito de Ormuz, fechado por Teerã após a primeira salva de ataques. O problema é que a guerra causou uma ruptura sem precedentes dentro da aliança atlântica.

Itália, Espanha e França negaram bases ou restringiram espaço aéreo para aviões americanos envolvidos na operação, segundo reportagem do The Hill. Reino Unido, Alemanha e Holanda ofereceram apoio limitado, mas recusaram entrar na guerra.

A reação de Washington foi explosiva. O presidente Trump, em entrevista ao Telegraph, chamou a OTAN de tigre de papel e disse que sua visão sobre a aliança estava “além da reconsideração”. O secretário de Estado, Marco Rubio, declarou que os EUA precisarão reavaliar se a aliança ainda faz sentido quando termina funcionando como rua de mão única.

Por lei aprovada em 2023, Trump não pode retirar os EUA da OTAN sem o voto de dois terços do Senado. Mas, como notou análise da CNN, existem formas menos dramáticas de enfraquecer a aliança, como retirar tropas americanas de países específicos ou fechar bases. É nesse vácuo que o Kremlin está se movendo.

O que Putin ganha testando o Artigo 5

A tese defendida por analistas em think tanks como o Belfer Center é que Moscou não precisa invadir o Báltico em larga escala para vencer. Basta provar que o Artigo 5, cláusula de defesa mútua da OTAN, não responderia caso um aliado fosse atacado.

Uma ação limitada serviria. Pode ser sabotagem de cabos submarinos no Báltico, uma incursão aérea “acidental”, um ciberataque pesado contra infraestrutura energética ou até uma ação cinética pontual contra um alvo militar isolado. A narrativa dos drones ucranianos oferece a justificativa pronta.

O cálculo do Kremlin é preciso. Se a aliança hesitar em invocar o Artigo 5, a garantia de segurança no flanco leste desaba, mesmo com os EUA formalmente dentro da OTAN. E qualquer crise aguda no Báltico forçaria a Europa a redirecionar sistemas de defesa aérea, retirando recursos que hoje são enviados à Ucrânia.

É uma equação com dois prêmios simultâneos. Testar a solidez ocidental por um custo baixo e aliviar a pressão sobre suas próprias refinarias em chamas.

O que observar nas próximas semanas

A acusação russa sobre o uso do espaço aéreo dos bálticos não é uma queixa diplomática. É uma peça montada com antecedência para legitimar algo que ainda não aconteceu. E o Kremlin só precisa que esse algo aconteça uma vez.

O destino do ultimato depende menos dos países bálticos do que da Casa Branca. Se Trump deixar claro que uma provocação russa no flanco leste será tratada como ataque à OTAN, o movimento perde sentido. Se hesitar, como hesitou diante dos aliados durante a guerra do Irã, a janela de oportunidade que o Kremlin identificou pode se fechar com um tiro, não com uma declaração. E ninguém na Europa parece ter certeza de qual das duas reações virá primeiro.