Cinco hospitais de Irkutsk, na Sibéria, entraram em quarentena de três semanas depois da morte de uma técnica de laboratório de 28 anos do Instituto Antipeste de Irkutsk, em 1º de outubro. A imprensa independente russa diz que ela contraiu peste ao quebrar um tubo de ensaio com a bactéria. A agência sanitária federal da Rússia nega o acidente e fala em “pneumonia de causa desconhecida”.

Resumo rápido:

  • Técnica do Instituto Antipeste de Irkutsk morreu em 1º de outubro de 2026, dois dias depois de ser internada com pneumonia grave
  • 197 contatos sob observação; Hospitais Clínicos nº 1, nº 3 e nº 10, o Hospital Infantil Ivano-Matreninskaya e uma maternidade em quarentena
  • Diagnóstico de peste e acidente de laboratório não têm confirmação oficial
Mapa da Rússia com a região de Irkutsk destacada em vermelho, no sul da Sibéria, perto da Mongólia e do Lago Baikal
A região de Irkutsk (em vermelho) fica no sul da Sibéria, perto da fronteira com a Mongólia e do Lago Baikal. Mapa: Stasyan117 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O que se sabe sobre a morte

A paciente foi identificada pelo veículo independente Lyudi Baikala como Darya Shipilova. Segundo o Moscow Times, ela deu entrada no hospital distrital de Shelekhov, cidade vizinha a Irkutsk, na terça-feira, 29 de setembro, foi intubada e morreu na quinta. À equipe médica, contou ter quebrado um tubo com bactérias vivas enquanto coletava amostras para teste. Mais de cem dos quase 200 contatos foram internados em isolamento.

O governador da região de Irkutsk, Igor Kobzev, falou em “suspeita de caso de doença infecciosa particularmente perigosa” e fechou a internação do hospital de Shelekhov. Em 2 de outubro, disse que os contatos não tinham sintomas e que os exames haviam dado negativo.

A versão federal é outra. A Rospotrebnadzor, agência de vigilância sanitária da Rússia e órgão ao qual o próprio instituto é subordinado, diagnosticou “pneumonia de etiologia desconhecida”, afirmou que não houve acidente com microrganismos patogênicos e que nenhum agente ligado ao trabalho da técnica foi encontrado no corpo, segundo o Meduza e a Al Jazeera. O chefe da república vizinha da Buriátia, Alexei Tsydenov, chegou a escrever que a mulher “morreu de peste” e depois editou a publicação para “pode ter morrido de peste”. Uma terceira versão, que circula na imprensa russa, diz que ela teria pegado a doença numa viagem à Tailândia.

O caso correu o mundo com um post da jornalista americana Annie Jacobsen no X, visto mais de 4,9 milhões de vezes, que trata como fato duas coisas que ninguém confirmou: que houve acidente num laboratório de nível de biossegurança 3 (BSL-3) e que o surto “se expande”. Até agora há uma morte relatada. Quarentena em hospital indica que pessoas expostas passaram por ele, não que haja novos doentes. A autora também atribui a lista de doenças sujeitas a quarentena nos Estados Unidos à Ordem Executiva 14047, que na verdade só acrescentou o sarampo, em 2021.

Sinais de que a resposta foi além do normal

Em 3 de outubro, a fábrica de alumínio de Shelekhov passou a exigir máscara dos funcionários, e autoridades de Baikalsk pediram que a população evitasse viajar para a cidade. Até 4 de outubro, os Hospitais Clínicos Municipais nº 1, nº 3 e nº 10 de Irkutsk, o Hospital Infantil Ivano-Matreninskaya e pelo menos uma maternidade tinham imposto quarentenas de três semanas. Moradores relataram ao Meduza que agentes do FSB, o serviço de segurança russo, passaram a escoltar ambulâncias, o que não foi confirmado.

O Instituto Antipeste de Irkutsk faz parte da rede soviética criada para vigiar os focos naturais de peste que ainda existem na Sibéria e na fronteira com a Mongólia, e trabalha com culturas vivas de Yersinia pestis, a bactéria da doença.

Por que isso importa?

A forma pneumônica da peste, que atinge os pulmões, é a única que passa de pessoa para pessoa, por gotículas respiratórias, e segundo a Organização Mundial da Saúde pode matar se não for tratada logo. Antibióticos comuns resolvem quando dados cedo, e é por isso que isolar e medicar os contatos costuma bastar para cortar a transmissão.

Bactérias da peste, em formato de bastão, vistas em microscópio eletrônico em preto e branco
A bactéria Yersinia pestis, que causa a peste, vista em microscópio eletrônico. Imagem: NIAID / Wikimedia Commons (domínio público)

O problema é a confiança na versão oficial. Em 1979, um vazamento de antraz de uma instalação militar em Sverdlovsk matou dezenas de pessoas, e o governo soviético atribuiu as mortes a carne contaminada até 1992. Fechar cinco hospitais e isolar quase 200 pessoas não combina com o “quadro estável” que a Rospotrebnadzor descreve. O Departamento de Estado dos Estados Unidos disse que acompanha o caso com o CDC e pediu que a Rússia “compartilhe informações precisas de forma rápida e aberta”.

O que vem agora?

A incubação da peste pneumônica é curta, de um a três dias. Se a técnica tivesse transmitido a doença, os primeiros casos entre os contatos já deveriam ter aparecido. Se as quarentenas terminarem, por volta de 25 de outubro, sem novos doentes, o episódio provavelmente se encerra, mesmo que a causa da morte nunca seja esclarecida em público.