Desde março de 2026, Israel conduz a maior ofensiva militar no Líbano em duas décadas.
A operação envolve bombardeios aéreos massivos, ocupação terrestre do sul do país e o objetivo declarado de criar uma zona de segurança ao longo da fronteira. A razão central é o fracasso da missão de paz da ONU, a UNIFIL, que em quase 50 anos não conseguiu impedir o Hezbollah de se rearmar e fortalecer sua presença na região. Com a UNIFIL programada para encerrar suas operações em dezembro de 2026, Israel decidiu agir por conta própria.
Como a guerra recomeçou
Para entender o que acontece no Líbano, é preciso voltar ao dia 28 de fevereiro de 2026. Naquela data, Estados Unidos e Israel lançaram uma operação militar conjunta contra o Irã. O Hezbollah, principal aliado iraniano no Líbano, respondeu dias depois. Em 2 de março, o grupo iniciou uma série de ataques com foguetes contra cidades no norte de Israel, rompendo o cessar-fogo que estava em vigor desde novembro de 2024.
A reação israelense foi imediata e pesada. A Força Aérea atacou centros de comunicação do Hezbollah, incluindo emissoras ligadas ao grupo. Centenas de localidades no sul do Líbano foram bombardeadas, junto com bairros de Beirute conhecidos como redutos da organização. Israel também emitiu ordens de evacuação para toda a população ao sul do rio Litani e começou a movimentar tropas para a fronteira.
No dia 16 de março, as Forças de Defesa de Israel iniciaram operações terrestres, descritas inicialmente como “limitadas e direcionadas”. Mas o escopo cresceu rapidamente. O ministro da Defesa declarou que Israel ocuparia toda a faixa ao sul do rio Litani, uma área de aproximadamente 25 a 30 quilômetros de profundidade, correspondendo a cerca de 8% do território libanês.
O ponto mais dramático da campanha aconteceu em 8 de abril, numa operação que Israel chamou de “Escuridão Eterna”. Em apenas dez minutos, a Força Aérea israelense atingiu mais de 100 alvos em todo o Líbano, incluindo centros de comando e instalações militares do Hezbollah em Beirute, no Vale do Bekaa e no sul do país. Segundo a Agência Brasil, foi o dia mais letal de todo o conflito, com mais de 250 mortos.

Segundo as autoridades libanesas, desde o início da ofensiva em março, mais de 2 mil pessoas morreram e cerca de 1 milhão foram deslocadas no Líbano.
Por que a ONU não conseguiu evitar isso
A UNIFIL, a Força Interina das Nações Unidas no Líbano, existe desde 1978. Foi criada após uma invasão israelense em resposta a ataques de grupos palestinos. Suas tarefas originais eram confirmar a retirada de Israel, restaurar a paz e ajudar o governo libanês a recuperar o controle do sul.
Em 2006, após outra guerra entre Israel e Hezbollah, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 1701. O mandato da UNIFIL foi ampliado e a força passou de cerca de 2 mil para até 15 mil efetivos. A resolução exigia que o Hezbollah se desarmasse e se retirasse para o norte do rio Litani. Também determinava que o governo libanês fosse a única autoridade armada naquela região.
Nada disso aconteceu de fato. Ao longo de quase duas décadas, o Hezbollah construiu postos de observação ao longo da fronteira, estocou foguetes em infraestrutura civil e cavou túneis sob território israelense. De acordo com a Britannica, o grupo acumulou entre 120 mil e 200 mil foguetes e mísseis, tornando-se o grupo armado não estatal mais poderoso do mundo. E a UNIFIL, limitada pelo seu mandato, apenas observou, documentou e reportou as violações, sem poder de fato impedir o fortalecimento do grupo.
Em agosto de 2025, o Conselho de Segurança votou por unanimidade para renovar a missão da UNIFIL pela última vez, com operações encerrando em 31 de dezembro de 2026 e uma retirada gradual ao longo de 2027. Segundo a ONU News, a decisão encerra uma presença de quase 50 anos. O embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, classificou a UNIFIL como um “fracasso retumbante” que permitiu ao Hezbollah se tornar uma ameaça regional perigosa.
O cessar-fogo que não funcionou
O cessar-fogo de novembro de 2024, mediado por Estados Unidos e França, deveria ter evitado essa nova escalada. O acordo previa que o Hezbollah retiraria seus combatentes e armamentos para o norte do rio Litani, enquanto o exército libanês assumiria o controle da região.
Em janeiro de 2026, o exército libanês chegou a anunciar que havia completado a primeira fase do desarmamento. Mas a realidade era diferente. Segundo reportagens da Foreign Policy, Israel contestou as alegações libanesas, afirmando que o Hezbollah estava se rearmando mais rápido do que se desarmava. Fontes israelenses e árabes apontaram que o grupo usava o porto de Beirute e rotas de contrabando pela fronteira com a Síria para adquirir mísseis, foguetes e armamento antitanque.

Quando os ataques americanos e israelenses contra o Irã aconteceram em fevereiro de 2026, o Hezbollah usou isso como justificativa para romper o cessar-fogo e retomar os ataques. A frágil paz desmoronou em questão de dias.
Negociações históricas, mas futuro incerto
Em meio à escalada militar, um movimento diplomático chamou atenção. No dia 14 de abril, embaixadores de Israel e do Líbano se encontraram em Washington para as primeiras conversas diretas entre os dois países em mais de 30 anos. Os dois países não possuem relações diplomáticas e estão tecnicamente em guerra desde 1948.
O encontro foi mediado pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, que classificou o momento como uma “oportunidade histórica”. Segundo o Departamento de Estado, as duas partes concordaram em iniciar negociações diretas em data e local a serem definidos.
As posições, porém, seguem distantes. Israel descartou discutir um cessar-fogo e insiste no desarmamento total do Hezbollah. O Líbano, por sua vez, exige a retirada imediata das tropas israelenses do seu território. E o Hezbollah, que não participou do encontro, rejeitou qualquer acordo. O líder do grupo, Naim Qassem, pediu o cancelamento das negociações e afirmou que o Hezbollah nunca vai se desarmar.
O exército libanês, com cerca de 85 mil efetivos, ainda teme que forçar o desarmamento do Hezbollah possa fraturar o país e provocar conflitos internos entre os diferentes grupos políticos e religiosos que compõem a sociedade libanesa.
Uma guerra que a diplomacia não impediu
O caso do Líbano expõe uma realidade incômoda sobre operações de paz internacionais: elas funcionam quando todas as partes desejam a paz. Quando uma delas ignora sistematicamente as resoluções e continua se armando, a presença de capacetes azuis não resolve o problema.
A Resolução 1701 foi desenhada para criar um arranjo em que ninguém precisaria recorrer à força. Mas o acordo falhou porque nenhuma das partes, especialmente o Hezbollah, cumpriu o que havia sido acordado. Quase 50 anos de presença da ONU no sul do Líbano não produziram uma paz duradoura. As negociações em Washington representam uma fagulha de esperança, mas enquanto o Hezbollah se recusar a desarmar e Israel mantiver sua ofensiva, o caminho para a estabilidade permanece distante.

