O maior arsenal de mísseis do Oriente Médio foi construído ao longo de quatro décadas para garantir que nenhum inimigo atacasse o Irã sem pagar um preço inaceitável. Quando esse arsenal foi colocado à prova em fevereiro de 2026, a estratégia fracassou.

Em menos de um mês, a capacidade de lançamento iraniana caiu mais de 90%, fábricas foram destruídas e centenas de lançadores foram neutralizados. A causa, porém, não foi apenas poder de fogo americano e israelense — foi que os Estados Unidos e Israel passaram décadas mapeando cada túnel, cada lançador e cada instalação secreta antes de qualquer disparo.

Confira a análise em vídeo no canal Realidade Militar


A aposta de um regime inteiro

O programa de mísseis do Irã nasceu de uma ferida. Durante a guerra contra o Iraque, nos anos 1980, o país sofreu bombardeios devastadores e percebeu que jamais conseguiria competir no ar. Décadas de sanções internacionais bloqueavam o acesso a aviões de guerra modernos. Então o regime tomou uma decisão que moldaria as quatro décadas seguintes: se não podíamos ter a melhor força aérea, construiríamos a maior força de mísseis do mundo.

E foi exatamente o que fizeram.

No auge do programa, o Irã chegou a ter cerca de 3.000 mísseis balísticos. Após perder centenas durante a chamada Guerra dos Doze Dias, em junho de 2025, o regime reconstruiu rapidamente seu estoque e chegou a aproximadamente 2.500 mísseis no início de 2026, segundo avaliação do Escritório do Diretor de Inteligência Nacional dos EUA. Somado a isso, entre 410 e 440 veículos lançadores espalhados pelo país e fábricas capazes de produzir centenas de novos mísseis por mês.

Alguns desses mísseis impressionavam. O Kheibar Shekan, cujo nome significa “Quebra-Fortalezas”, alcançava alvos a 1.450 quilômetros de distância e era transportado em cima de veículos de aparência comum, quase impossíveis de distinguir de caminhões civis em imagens de satélite. O Khorramshahr 4 carregava uma cabeça explosiva de até 1,8 tonelada. O Fattah era descrito pelo regime como hipersônico, capaz de fazer manobras no instante final do voo para dificultar a interceptação.

Míssil Kheibar Shekan sendo exibido no desfile das Forças Armadas durante o início da Semana da Defesa Sagrada. Foto: M. Sade
Míssil Kheibar Shekan sendo exibido no desfile das Forças Armadas durante o início da Semana da Defesa Sagrada. Foto: M. Sadegh Nikgostar.

Era, de longe, o maior arsenal de mísseis do Oriente Médio.


O problema que o Irã não viu

Para proteger tudo isso, o Irã construiu o que ficou conhecido como as “cidades de mísseis”: enormes bases militares subterrâneas, escavadas dentro de montanhas no interior do país. Túneis com até dez metros de altura, altos o suficiente para um prédio de três andares passar por dentro. Trilhos internos para mover os mísseis. Plataformas de lançamento. E tudo isso enterrado a centenas de metros de profundidade em rocha sólida.

Era uma engenharia impressionante. Bilhões de dólares investidos. Décadas de trabalho.

Mas havia um problema fatal: os mísseis estavam seguros lá dentro, mas para disparar, precisavam sair. E no momento em que saíam dos túneis, ficavam expostos. O que o Irã não sabia é que, enquanto construía suas cidades de mísseis, Estados Unidos e Israel já estavam mapeando cada uma delas. Cada entrada de túnel. Cada lançador. Cada localização.

O Irã passou quarenta anos construindo a arma perfeita. E, sem perceber, construiu o alvo perfeito.


A operação que mudou tudo

Em 28 de fevereiro de 2026, quando os Estados Unidos e Israel deram início à chamada Operação Fúria Épica, não foi uma operação de descoberta. Foi uma operação de execução.

Ela começou com quatro bombardeiros B-2 Spirit decolando da base de Whiteman, no estado do Missouri, no centro dos Estados Unidos. Não do Oriente Médio. Não de uma base avançada na Europa. Do Missouri, a quase dez mil quilômetros do Irã. Segundo o Comando Central americano (CENTCOM), os aviões partiram com bombas guiadas de 900 quilos e atacaram instalações iranianas de mísseis balísticos.

Chefes de manutenção da Força Aérea dos Estados Unidos realizam verificações pré-voo em um bombardeiro furtivo B-2 Spirit dur
Chefes de manutenção da Força Aérea dos Estados Unidos realizam verificações pré-voo em um bombardeiro furtivo B-2 Spirit durante a Operação Epic Fury, em 17 de março de 2026. (Foto: Força Aérea dos EUA)

O B-2 é invisível para radares e voa em altitudes que a maioria dos caças não alcança. Cada um custa mais de 1 bilhão de dólares. Esses quatro aviões voaram por horas sobre o Atlântico, cruzaram o Mediterrâneo, entraram no espaço aéreo do Oriente Médio, lançaram suas bombas sobre o Irã e viraram para voltar para casa. Havia uma tempestade no Missouri — então pousaram na base de Dyess, no Texas.

Um entusiasta de aviação que rastreava voos militares filmou os quatro B-2 pousando um atrás do outro e postou nas redes sociais. O vídeo viralizou. Nenhuma conferência de imprensa. Nenhuma declaração oficial. Apenas quatro dos aviões mais letais do mundo pousando num aeroporto americano como se voltassem de uma viagem qualquer.

Mas os B-2 foram só o começo.


Três frentes ao mesmo tempo

A destruição sistemática do arsenal iraniano aconteceu em três frentes simultâneas.

A primeira foi eliminar as defesas aéreas iranianas, ou seja, todos os sistemas que o Irã usava para derrubar aviões inimigos. De acordo com a ACLED, organização especializada em conflitos armados, a campanha inicial atingiu cerca de 200 sistemas de defesa aérea, estabelecendo controle efetivo do espaço aéreo iraniano em menos de 24 horas. Ataques de hackers derrubaram a internet do Irã para menos de 4% da capacidade normal em 60 horas.

A segunda frente foi a caça aos lançadores de mísseis. Drones israelenses com câmeras infravermelhas, radar de alta resolução e sensores especializados patrulharam o céu iraniano sem parar, processando informações em tempo real com ajuda de inteligência artificial. Quando um lançador saía de um túnel, já estava sendo observado. Drones de ataque americanos do tipo MQ-9 Reaper destruíam os alvos marcados. A cadeia do alvo ao disparo durava minutos, às vezes segundos.

Quando as entradas dos túneis eram bombardeadas, o Irã mandava tratores para tentar reabrir. O CENTCOM divulgou vídeos mostrando esses tratores sendo destruídos assim que apareciam. Para as instalações mais profundas, os americanos usaram bombas de 13 toneladas, lançando várias no mesmo ponto uma atrás da outra para aprofundar o buraco a cada impacto.

Segundo análise do Washington Post, quatro das principais fábricas de mísseis iranianas e pelo menos 29 bases de lançamento foram atingidas nas primeiras quatro semanas da ofensiva.

A terceira frente foi destruir a capacidade de produção. Não apenas os mísseis existentes, mas as fábricas que os fabricavam. No mar, o CENTCOM confirmou que mais de 155 embarcações iranianas foram danificadas ou destruídas ao longo do conflito.


O que os números mostram

Os resultados foram visíveis nos dados de lançamento. No primeiro dia, o Irã disparou centenas de mísseis e drones. Segundo o Pentágono, no décimo dia de guerra os ataques com mísseis balísticos tinham caído mais de 90% em relação ao início do conflito. O mesmo ocorreu com os drones de ataque.

Mas seria um erro dizer que o arsenal iraniano foi destruído por completo. Segundo avaliação de inteligência americana reportada pela CNN, o Irã ainda mantinha uma quantidade significativa de mísseis e parte de seus lançadores operacionais. Boa parte deles estava enterrada em túneis e cavernas, o que dificultava tanto o uso quanto a destruição. O Irã passou a depender de lançadores móveis, mais difíceis de rastrear, e continuou disparando mísseis contra Israel e países do Golfo, ainda que em volumes muito menores.

A estratégia não foi zerada. Foi quebrada.


Por que a aposta falhou

O Irã não perdeu porque faltaram mísseis. Não perdeu porque faltou dinheiro ou tecnologia. A estratégia falhou porque foi construída sobre uma premissa que se revelou falsa: a de que os segredos do programa estavam guardados.

Cada túnel foi mapeado. Cada rotina, monitorada. Cada localização, registrada. Quando a guerra começou, os Estados Unidos e Israel não estavam descobrindo o Irã. Estavam executando um plano que já existia há muito tempo.

Na era em que vivemos, não é o tamanho do arsenal que decide quem vence. É quem conhece melhor o inimigo. O Irã apostou no concreto e na profundidade. Os Estados Unidos e Israel apostaram na informação e na inteligência.

E em menos de um mês, ficou claro qual das duas apostas tinha mais valor.