Um grupo de países europeus está desenhando, em reuniões informais dentro da OTAN, um plano de contingência para manter a defesa do continente funcionando mesmo se Donald Trump decidir retirar os Estados Unidos da aliança.

A ideia, apelidada internamente de “OTAN europeia”, usaria as estruturas que já existem mas com europeus ocupando os postos de comando hoje preenchidos por americanos. Alemanha, Reino Unido, França, Polônia, países nórdicos e o Canadá lideram o movimento, revelado pelo jornal Wall Street Journal em abril de 2026, segundo o Investing.com, depois que Trump ameaçou sair da aliança por causa da recusa europeia em apoiar sua guerra contra o Irã.

Por que a Europa chegou a esse ponto

Durante décadas, imaginar uma OTAN sem os Estados Unidos era tratado como ficção. Mas uma sequência de atritos mudou o cálculo das capitais europeias. O primeiro grande choque foi a ameaça de Trump de tomar a Groenlândia, território que pertence à Dinamarca, país fundador da aliança. A ideia de um presidente americano falando em anexar terras de um aliado foi vista como um ponto de ruptura simbólico.

O segundo estopim foi a guerra contra o Irã, em curso desde o início do ano. Segundo a Mix Vale, Reino Unido, França e Alemanha se recusaram a participar de uma coalizão liderada por Washington para reabrir o Estreito de Ormuz, rota estratégica do petróleo mundial. Trump reagiu chamando os aliados de “covardes” e rotulando a OTAN como um “tigre de papel”. A Espanha foi além: fechou seu espaço aéreo para voos militares americanos ligados à operação e bloqueou o uso das bases de Rota e Morón, o que levou à retirada de cerca de 15 aviões-tanque do território espanhol.

Foi nesse clima que, no início de abril, Trump ameaçou deixar a OTAN. Formalmente, uma saída exigiria aprovação do Congresso dos Estados Unidos, mas, como comandante em chefe, o presidente pode retirar tropas, realocar equipamentos e se recusar a defender aliados, o que na prática já equivaleria a abandonar a aliança.

A virada alemã que destravou tudo

O ponto de inflexão veio da Alemanha, historicamente o maior obstáculo a qualquer tentativa de autonomia europeia em defesa. Berlim sempre temeu que aumentar a liderança europeia dentro da OTAN desse a Washington um pretexto para reduzir seu envolvimento. Isso mudou com o chanceler Friedrich Merz.

Segundo o Jornal de Negócios, Merz reavaliou essa posição no final do ano passado, quando concluiu que Trump estava disposto a abandonar a Ucrânia e que a política externa americana não tinha mais valores claros guiando decisões dentro da aliança. O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, resumiu a nova postura de Berlim: a OTAN precisa se tornar mais europeia para continuar sendo transatlântica.

Com a Alemanha a bordo, a coalizão se ampliou rapidamente, incluindo Reino Unido, França, Polônia, países nórdicos e Canadá. Um dos nomes mais ativos é o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, que tem uma das forças armadas mais robustas da Europa e a maior fronteira com a Rússia entre os países da OTAN. Stubb defende que a transição aconteça de forma gerenciada e não como uma retirada americana brusca.

O que o plano prevê na prática

A ideia não é criar uma aliança paralela, mas ocupar com europeus as funções hoje comandadas por americanos dentro da própria OTAN. Isso envolve perguntas concretas: quem vai comandar a defesa aérea e antimíssil da aliança, quem vai gerenciar os corredores de reforço para a Polônia e os países bálticos, quem vai liderar os grandes exercícios regionais.

Em paralelo, houve um salto nos investimentos. Segundo a xpert.digital, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou na Conferência de Segurança de Munique um plano de mobilização de até 800 bilhões de euros para capacidades de defesa. Reino Unido e Alemanha também anunciaram um projeto conjunto de mísseis de cruzeiro furtivos e armas hipersônicas com alcance superior a 2 mil quilômetros.

O calcanhar de Aquiles europeu

Mesmo com todo esse movimento, a transição esbarra em três problemas sérios. O primeiro é estrutural: toda a arquitetura da OTAN foi construída em torno da liderança americana, e o cargo de Comandante Supremo das Forças Aliadas na Europa é sempre ocupado por um general dos Estados Unidos, que já deixaram claro não ter intenção de ceder esse posto.

O segundo é a lacuna de capacidades. Décadas de baixo investimento deixaram a Europa carente em áreas críticas como guerra antissubmarina, capacidades espaciais, reabastecimento aéreo em voo e mobilidade aérea. Fechar essas lacunas leva anos.

O terceiro, e mais delicado, é a questão nuclear. Nenhuma rearrumação de tropas substitui rapidamente os satélites e sistemas americanos de alerta de mísseis. Isso coloca França e Reino Unido, as duas únicas potências nucleares da Europa Ocidental, sob pressão enorme. Segundo o Observador, Emmanuel Macron e Merz anunciaram em março a criação de um grupo de coordenação nuclear de alto nível entre França e Alemanha, e Paris avança com uma “dissuasão avançada” envolvendo oito países europeus, incluindo Alemanha, Reino Unido, Polônia e Dinamarca.

Serviço militar obrigatório volta ao debate

Outra consequência prática é o retorno da discussão sobre recrutamento compulsório. A Alemanha aprovou no final de 2025 uma nova lei que, embora não reintroduza imediatamente o serviço obrigatório, deixa essa porta aberta. Segundo o Jornal de Notícias, a partir deste ano todos os jovens homens de 18 anos são obrigados a responder um questionário e passar por exame médico.

A Croácia reintroduziu a conscrição em janeiro de 2026, a Dinamarca passou a recrutar também mulheres, e dez países da União Europeia já têm serviço militar obrigatório, incluindo Finlândia, Estônia, Letônia e Lituânia. A Finlândia, que nunca abandonou o sistema, é vista como modelo: com 5,6 milhões de habitantes, consegue mobilizar cerca de 280 mil soldados e tem 900 mil reservistas.

O fim de uma era

O que está acontecendo é, na prática, uma reformulação da arquitetura de segurança europeia, montada ao longo de mais de 75 anos sob a premissa de que os Estados Unidos sempre estariam lá. A Europa está tentando construir em meses uma autonomia de defesa que deveria ter sido desenvolvida ao longo de décadas, enquanto a guerra na Ucrânia continua e a crise com o Irã desestabiliza a relação transatlântica.

O plano ainda tem muitos problemas para resolver e pode simplesmente não ser suficiente caso Washington retire o guarda-chuva nuclear de uma hora para outra. Mas o segredo em torno dessas conversas já acabou, e isso, por si só, marca uma virada histórica: pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, a Europa parou de esperar que a resposta sobre seu próprio futuro venha de Washington.