Satélites russos fotografaram a base americana três vezes em sete dias. No quarto, vieram seis mísseis e 29 drones.
Imagine um avião que consegue enxergar tudo que acontece no céu num raio de 400 quilômetros ao redor dele. Ele vê caças inimigos, drones, mísseis e aviões aliados ao mesmo tempo — e coordena, em tempo real, toda a operação aérea de um país. É como se fosse o técnico de futebol que enxerga o campo inteiro enquanto os jogadores enxergam apenas o que está perto deles.
Os Estados Unidos têm apenas 16 desses aviões no mundo. No dia 27 de março de 2026, o Irã destruiu um deles. E, pelo que a inteligência ucraniana revelou nos dias seguintes, isso não foi sorte.
O que foi destruído e por que importa
O avião se chama E-3G Sentry, apelidado de AWACS — sigla em inglês para “sistema aerotransportado de alerta e controle”. É um Boeing 707 com um disco giratório enorme instalado no topo da fuselagem. Esse disco é um radar capaz de monitorar centenas de alvos ao mesmo tempo, desde o nível do chão até a estratosfera.
Mas o AWACS não é só um radar voador. Dentro dele, operadores militares coordenam tudo: quais caças vão interceptar um alvo, quando um avião-tanque vai abastecer outro avião em pleno voo, como comunicar informações para tropas em terra. Sem ele, os pilotos de caça operam “no escuro” — enxergando só o que está perto deles.
O avião destruído, de matrícula 81-0005, era a versão mais moderna do programa, avaliada em mais de meio bilhão de dólares. Segundo a Air & Space Forces Magazine, o grau de destruição provavelmente o torna irreparável. Fotos que circularam nas redes sociais mostram a fuselagem traseira completamente queimada e destroços espalhados pela pista.
Como o Irã atacou
De acordo com a Associated Press, o Irã usou seis mísseis balísticos — o tipo de míssil que viaja fora da atmosfera antes de cair sobre o alvo — e 29 drones armados no ataque à base Prince Sultan, localizada na Arábia Saudita, a cerca de 96 quilômetros da capital Riyadh. Pelo menos 15 militares americanos foram feridos, cinco deles gravemente.

Além do AWACS, o ataque destruiu completamente um KC-135 Stratotanker e danificou outros três. O KC-135 é o avião-tanque que reabastece caças e bombardeiros no ar durante as missões — sem ele, aviões de combate não conseguem operar em distâncias longas. Perder vários deles ao mesmo tempo é como cortar o combustível de uma frota inteira.
O Comando Central americano, o CENTCOM, responsável pelas operações militares dos EUA no Oriente Médio, não confirmou publicamente os detalhes do ataque.
Uma estratégia deliberada, não aleatória
O Irã não está atacando bases americanas de forma aleatória. Segundo Kelly Grieco, pesquisadora sênior do Stimson Center, instituto americano de análise de defesa, o país conduz o que especialistas chamam de “campanha assimétrica de contra-aviação“. Em linguagem simples: em vez de tentar derrubar caças americanos no ar — o que seria muito mais difícil —, o Irã ataca os sistemas que fazem toda a operação funcionar. Radares, aviões de controle, tanqueiros e bases.
É uma lógica eficiente. Destruir o avião que coordena a guerra aérea americana é mais valioso do que derrubar um caça. Nos últimos 30 dias, ataques iranianos já danificaram ou destruíram sistemas de radar e uma bateria THAAD — sistema de defesa antimíssil que intercepta foguetes em alta altitude — em bases dos EUA espalhadas por Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Jordânia e Kuwait.
O papel da Rússia
A parte mais grave da história foi revelada pelo presidente ucraniano Volodymyr Zelenski em uma entrevista à NBC News concedida no Qatar, no dia 28 de março.
Zelenski apresentou um resumo do seu briefing diário de inteligência — o relatório que os serviços secretos da Ucrânia entregam a ele todo dia. O documento indicava que satélites russos fotografaram a base Prince Sultan nos dias 20, 23 e 25 de março. Dois dias depois, o Irã atacou exatamente o local onde o AWACS estava estacionado.
Segundo o presidente ucraniano, esse padrão é familiar para quem acompanha o conflito na Ucrânia. “Se fazem imagens uma vez, estão se preparando. Se fazem uma segunda vez, é como uma simulação. Na terceira, o ataque acontece em um ou dois dias”, afirmou ele à NBC News. Zelenski disse ter “100% de certeza” de que a Rússia compartilha essas informações com o Irã para ajudar a atacar forças americanas.
A NBC News havia reportado no início de março, citando quatro fontes com conhecimento do assunto, que a Rússia já vinha fornecendo dados de localização de forças americanas ao Irã. O chanceler russo Sergei Lavrov negou as acusações. Zelenski não apresentou as imagens de satélite como prova, e a NBC News não conseguiu verificar a afirmação de forma independente. Mas a precisão do ataque — atingindo exatamente a área onde estavam o AWACS e os tanqueiros, e não a infraestrutura geral da base — é difícil de ignorar.
O que muda a partir de agora
Com 15 AWACS restantes e metade deles com problemas de manutenção devido ao envelhecimento da frota, cada perda adicional se torna mais grave do que a anterior. Não existe substituto pronto: o candidato natural seria o E-7 Wedgetail, um Boeing 737 australiano mais moderno que os EUA tentam adquirir, mas cuja entrega está prevista para anos à frente.

Por enquanto, os aviões que sobraram terão que cobrir mais área, voar mais horas e se desgastar mais rápido. Heather Penney, ex-pilota de F-16 e diretora do Mitchell Institute for Aerospace Studies, resumiu bem a situação ao Air & Space Forces Magazine: “Corremos riscos excessivos no campo do gerenciamento de batalha, tanto com os operadores quanto com os aviões.”
Se a Rússia de fato está fornecendo inteligência de satélite ao Irã — e os indícios apontam nessa direção —, os EUA não estão enfrentando apenas o arsenal iraniano. Estão enfrentando também os olhos de Moscou sobre o Golfo.
Fontes consultadas: Air & Space Forces Magazine, NBC News, The War Zone, Al Jazeera, The Jerusalem Post, Associated Press, Ukrainska Pravda, Stimson Center

