A Ucrânia enfrenta a Rússia há mais de quatro anos, mas no início de abril de 2026, o presidente Volodymyr Zelensky afirmou que a situação na linha de frente é a melhor dos últimos 10 meses. Isso acontece porque a Rússia está perdendo soldados mais rápido do que consegue repor, perdeu acesso a ferramentas de comunicação essenciais como o Starlink e o Telegram, seus estoques de equipamento militar estão no limite, e a economia russa desacelerou fortemente. A Ucrânia soube explorar cada uma dessas vulnerabilidades, especialmente com drones e contra-ataques bem cronometrados.
No início de abril de 2026, em meio a uma guerra que já dura mais de quatro anos, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky fez uma declaração que chamou a atenção do mundo. Citando dados da inteligência ucraniana e do serviço de inteligência britânico MI6, ele disse que a posição da Ucrânia na linha de frente era a melhor em dez meses. Segundo Zelensky, a ofensiva que a Rússia planejava para março foi frustrada pelas forças armadas ucranianas, e Kiev, pela primeira vez em muitos meses, não identifica uma ameaça em larga escala vinda de Moscou.
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Mas como isso é possível? Como a Rússia, com vantagens numéricas em soldados e artilharia, e com o apoio da China e da Coreia do Norte, está perdendo o impulso? A resposta envolve uma convergência de crises que está corroendo a máquina de guerra russa por dentro.
A Rússia está ficando sem soldados
O problema mais básico e mais grave da Rússia é simples: ela está perdendo gente mais rápido do que consegue recrutar. Só nos três primeiros meses de 2026, as forças russas sofreram cerca de 90 mil baixas entre mortos e feridos. No mesmo período, segundo dados do próprio Kremlin, foram recrutados apenas 80 mil novos soldados.

Desde o início da invasão em fevereiro de 2022, as perdas russas já ultrapassam 1,3 milhão de baixas, segundo estimativas do Estado-Maior da Ucrânia. Fontes ocidentais, como o centro de estudos CSIS, apontam que as baixas russas superam as de qualquer grande potência em qualquer guerra desde a Segunda Guerra Mundial.
Para compensar, Putin assinou leis ampliando o alistamento e permitindo convocação durante todo o ano. Moscou também recruta estrangeiros da Índia, Paquistão, Nepal, Nigéria e Cuba, muitos deles enganados com promessas de empregos civis que se revelam contratos militares. Cerca de 11 mil soldados norte-coreanos também foram posicionados na região de Kursk para reforçar as linhas russas.
A estratégia russa de desgaste, baseada em assaltos frontais com pequenos grupos de infantaria, deu resultados no passado, mas agora está consumindo pessoal a uma taxa insustentável.
O golpe duplo: Starlink e Telegram
Em fevereiro de 2026, a Rússia sofreu um golpe tecnológico duplo que desestabilizou suas operações no campo de batalha.
As forças russas vinham usando ilegalmente milhares de terminais Starlink, o sistema de internet via satélite da SpaceX, contrabandeados por países terceiros. Esses terminais eram usados para comunicações, coordenação de drones e até acoplados a drones de ataque de longo alcance. Após a Ucrânia apresentar evidências desse uso, a SpaceX implementou um sistema de verificação que desativou todos os terminais não registrados. Segundo a CNN, o efeito no campo de batalha foi imediato, interrompendo operações russas em vários setores.
Blogueiros militares russos descreveram a situação como caótica. Um deles reconheceu que não havia alternativas disponíveis naquele momento. A Carnegie Endowment classificou os eventos como um golpe duplo, já que, quase simultaneamente, o regulador de internet russo começou a restringir o Telegram, o aplicativo de mensagens que funcionava como peça central da infraestrutura militar no campo de batalha. Unidades russas usavam o Telegram para enviar coordenadas, compartilhar vídeos de drones, coordenar defesas e até arrecadar fundos para equipamentos.
O Kremlin pressionou os militares a migrarem para uma plataforma estatal chamada Max, sem criptografia, o que gerou revolta entre os próprios apoiadores da guerra.
A Ucrânia contra-atacou com força
A Ucrânia soube explorar essa janela de oportunidade. Em meados de fevereiro, logo após o bloqueio do Starlink e as restrições ao Telegram, as forças ucranianas lançaram contra-ataques na região de Zaporíjia. Segundo o Wall Street Journal, a Ucrânia reconquistou cerca de 400 km² de território, o maior ganho territorial em mais de dois anos.
Fevereiro de 2026 foi o primeiro mês desde 2023 em que Kiev recuperou mais território do que perdeu. Segundo uma análise da AFP, o exército russo praticamente não registrou avanços territoriais durante todo o mês de março, algo sem precedentes em cerca de dois anos e meio.
Outro fator importante é a chamada “muralha de drones”. A Ucrânia construiu uma zona de destruição que se estende de 15 a 40 km a partir da linha de frente, onde drones FPV se tornaram a principal arma contra tanques e infantaria. Relatórios do Kremlin indicam que cerca de 80% dos ferimentos sofridos por soldados russos em combate são causados por esses drones. A produção ucraniana de drones deve ultrapassar 7 milhões de unidades em 2026, segundo estimativas do Observador.
A economia russa sob pressão
Por trás dos problemas militares, há uma crise econômica que está corroendo a capacidade da Rússia de sustentar o esforço de guerra. Após dois anos de crescimento impulsionado por gastos militares (mais de 4% em 2023 e 2024), a economia russa desacelerou bruscamente. O FMI projeta crescimento de apenas 0,8% para 2026, após 0,6% em 2025.
Os gastos com defesa e segurança consomem mais de 40% do orçamento federal russo, um nível comparável apenas à era soviética. O imposto sobre valor acrescentado foi elevado de 20% para 22%, e o ministro das finanças russo admitiu que a receita adicional vai inteiramente para financiar a guerra. O Fundo Nacional de Bem-estar, a reserva estratégica da Rússia, está sendo rapidamente consumido.
O Moscow Times aponta que, pela primeira vez desde a pandemia, a Rússia arrecadou menos do que o planejado em 2025. O desemprego está em mínimas históricas de cerca de 2%, o que parece positivo, mas na prática significa que não há trabalhadores disponíveis para a economia civil, porque a máquina de guerra absorveu toda a mão de obra.
Conclusão
A Rússia ainda controla cerca de 20% do território ucraniano e mantém vantagens numéricas em soldados e artilharia. Nada disso significa que a guerra está perto de acabar. Mas os dados mostram que o conflito entrou em uma nova fase, onde a vantagem não é de quem tem mais recursos, mas de quem se adapta mais rápido e aguenta por mais tempo. A convergência de crises que a Rússia enfrenta, das perdas humanas insustentáveis à desaceleração econômica, passando pela perda de ferramentas tecnológicas essenciais, sugere que, pelo menos neste momento, o relógio está correndo contra Moscou.


