O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, cumpriu a ameaça de levar a guerra às gangues do Haiti: mandou mais de 2.000 soldados ao país, e o chefe da 400 Mawozo, uma das gangues mais poderosas, escreveu à ONU pedindo diálogo. Wilson Joseph, conhecido como Lanmò Sanjou, diz que a gangue levantou a bandeira branca e que os quatro técnicos salvadorenhos sumidos estão mortos, mas não apresentou prova.

Resumo rápido:

  • 18 de outubro: quatro técnicos da Força Aérea de El Salvador somem após emboscada perto de Porto Príncipe
  • El Salvador enviou mais de 2.000 soldados ao Haiti
  • 1º de novembro: o chefe da 400 Mawozo escreve à ONU pedindo diálogo e diz que os quatro estão mortos, sem provas
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Como começou: um blindado queimado e quatro homens sumidos

Em 18 de outubro, um veículo blindado voltava para o acampamento da força antigangues apoiada pela ONU quando foi atingido por explosivos e pegou fogo, segundo a Reuters. Os quatro ocupantes, todos da Força Aérea de El Salvador, saíram do veículo, mas o contato com eles se perdeu. Nenhum grupo assumiu o ataque.

Dias depois, Bukele ameaçou acabar com as gangues haitianas e repetir lá as medidas usadas em El Salvador, caso os soldados não fossem libertados. Em 28 de outubro, a chancelaria salvadorenha confirmou o envio de mais de 2.000 soldados. O governo de El Salvador acredita que os técnicos estão vivos, e o governo do Haiti diz que foram sequestrados.

Forças especiais salvadorenhas em treino com boinas verdes dos EUA em Ilopango, março de 2026 (foto de arquivo, fora do Haiti
Forças especiais salvadorenhas em treino com boinas verdes dos EUA em Ilopango, março de 2026 (foto de arquivo, fora do Haiti). Foto: Exército dos EUA / Wikimedia Commons (domínio público)

O que o chefe da gangue disse à ONU e à imprensa

Em 1º de novembro, Joseph escreveu ao secretário-geral da ONU pedindo o envio de uma delegação para mediar um diálogo. À Associated Press, confirmou a carta e afirmou que a gangue “levantou oficialmente a bandeira branca” desde 20 de agosto. Disse ainda que o ataque aconteceu em território da gangue rival Chen Mechan e que os quatro técnicos morreram. Não mostrou prova nenhuma.

A ONU manteve distância. O porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, afirmou em 2 de novembro que receber a carta não significa reconhecer quem a assina, e que a maior parte dos militares salvadorenhos no Haiti não faz parte da força apoiada pela ONU. Joseph também culpou os políticos haitianos por armar as gangues e agora chamar tropas estrangeiras para destruí-las.

Vista aérea de Porto Príncipe, capital do Haiti, onde as gangues dominam a maior parte das ruas (foto de 2008). Foto: Marinha
Vista aérea de Porto Príncipe, capital do Haiti, onde as gangues dominam a maior parte das ruas (foto de 2008). Foto: Marinha dos EUA / Wikimedia Commons (domínio público)

As gangues controlam boa parte de Porto Príncipe, cobram pedágio nas estradas e fazem sequestros. De janeiro a meados de setembro, a ONU contou mais de 5.700 mortos ou feridos no país, segundo a mesma reportagem da AP.

O sequestro saiu pela culatra?

Os fatos apontam nessa direção. Quatro homens sumiram, e em duas semanas o Haiti recebeu mais de 2.000 soldados salvadorenhos, e a maior parte deles está fora da força apoiada pela ONU. Se o sequestro buscava afastar os estrangeiros, o efeito foi o contrário, e o chefe de uma das gangues passou a pedir conversa.

O quadro continua incerto. Os quatro técnicos seguem sem paradeiro confirmado, e Bukele disse que corpos entregues pelo Haiti não são dos desaparecidos. Resgatar os homens, se estiverem vivos, depende de achar quem os levou em áreas onde as gangues se misturam à população. Operações grandes também podem unir gangues rivais contra um inimigo comum. O objetivo declarado de Bukele é trazer os técnicos de volta, não pacificar o Haiti inteiro.