A Ucrânia recebeu em abril de 2026 obuseiros M110 de 203 mm, armas americanas da Guerra Fria originalmente projetadas para disparar ogivas nucleares contra o Exército Soviético. Sessenta dessas peças de artilharia vieram da Grécia, via República Tcheca, em um acordo de quase 200 milhões de euros. Agora, mais de sessenta anos depois de serem criadas, essas armas estão no campo de batalha disparando contra a Rússia, o mesmo adversário para o qual foram projetadas. E chegam em um momento em que os estoques militares russos estão diminuindo rapidamente.

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Uma arma da Guerra Fria que voltou dos mortos

O M110 é o maior obuseiro autopropulsado que os Estados Unidos já colocaram em serviço. Trata-se de um canhão de 203 mm montado sobre esteiras, como um tanque, capaz de disparar projéteis de mais de 90 quilos a distâncias que variam entre 17 e 30 quilômetros, dependendo do tipo de munição utilizada. Ele entrou em operação em 1963 e foi usado em conflitos como a Guerra do Vietnã e a Guerra do Golfo.

Artilheiros holandeses com um obuseiro M110 em posição de tiro, em 1972.
Artilheiros holandeses com um obuseiro M110 em posição de tiro, em 1972.

Mas a sua verdadeira razão de existir durante a Guerra Fria não eram os explosivos convencionais. Os Estados Unidos produziram cerca de 2.000 projéteis nucleares chamados W-33, feitos especificamente para esse obuseiro. Na sua versão mais potente, um único disparo podia liberar uma explosão de até 40 quilotons, segundo a Wikipedia, quase três vezes a potência da bomba de Hiroshima, que teve cerca de 15 quilotons. As demais variantes tinham entre 5 e 10 quilotons. A função era clara: se a União Soviética avançasse sobre a Europa Ocidental, o M110 seria a resposta nuclear tática americana.

Quando a Guerra Fria terminou, os Estados Unidos aposentaram o M110 e desativaram todos os projéteis nucleares associados a ele até 1992. Mas a história desse obuseiro estava longe de acabar.

Dos canos de artilharia às bombas mais devastadoras do mundo

Quando os americanos tiraram os M110 de serviço nos anos 1990, eles não descartaram tudo. Os engenheiros militares reaproveitaram os canos do obuseiro para criar algo completamente diferente: a GBU-28, uma bomba guiada por laser de quase 2,3 toneladas, conhecida como “destruidora de bunkers”.

Caça F-15E do 492º Esquadrão de Caça, da 48ª Ala, lançando uma bomba GBU-28.
Caça F-15E do 492º Esquadrão de Caça, da 48ª Ala, lançando uma bomba GBU-28.

O desenvolvimento foi uma corrida contra o tempo. Durante a Guerra do Golfo em 1991, os Estados Unidos descobriram que suas bombas convencionais não conseguiam atingir os centros de comando subterrâneos que Saddam Hussein havia construído no Iraque. Em poucas semanas, engenheiros no Arsenal de Watervliet, em Nova York, cortaram os canos de obuseiros M110 desativados, transformaram essas peças em carcaças de bomba e as encheram de explosivos.

A GBU-28 é capaz de penetrar cerca de 30 metros de terra ou 6 metros de concreto armado antes de detonar. Apenas duas foram lançadas na Guerra do Golfo. Depois disso, Israel adquiriu unidades dessa bomba, e ela continua em serviço até hoje. Os mesmos canos que foram projetados para disparar ogivas nucleares contra os soviéticos acabaram virando a carcaça de uma das bombas aéreas mais letais já produzidas.

Como 60 obuseiros saíram da Grécia e chegaram à Ucrânia

A Grécia mantinha cerca de 145 obuseiros M110A2 nos seus depósitos desde os anos 1980. À medida que o país modernizou seu arsenal para o padrão da OTAN, essas armas foram ficando obsoletas.

Em outubro de 2025, o governo grego aprovou a venda de 60 dessas peças de artilharia para a Ucrânia, junto com 150 mil projéteis de vários tipos (explosivos convencionais, de alcance estendido e munições de fragmentação) e milhares de foguetes Zuni. O pacote total foi avaliado em cerca de 199 milhões de euros, conforme reportado pela Ukrainska Pravda. Cada obuseiro custou aproximadamente 520 mil euros, uma fração do custo de um tanque moderno, que pode chegar a 10 milhões de euros.

A transferência foi intermediada pela República Tcheca, dentro de um programa conhecido como Iniciativa Tcheca. Esse pequeno país do centro da Europa montou nos últimos anos uma das maiores redes de fornecimento de munição para a Ucrânia. Segundo a Modern Diplomacy, citando o presidente tcheco Petr Pavel, a iniciativa já entregou cerca de 4,4 milhões de munições de grosso calibre à Ucrânia, com financiamento de países como Alemanha, Dinamarca e Holanda.

O acordo grego não foi sem controvérsia. A oposição protestou, argumentando que muitas dessas armas estavam nas ilhas do Mar Egeu, próximas à Turquia, com quem a Grécia tem tensões históricas. Mesmo assim, a cúpula militar grega classificou os M110 como “equipamento militarmente não necessário” e o negócio seguiu em frente.

Por que essa arma antiga faz tanta diferença agora

Em abril de 2026, a 52ª Brigada de Artilharia ucraniana confirmou que os M110 já estão em operação nos setores de Kramatorsk e Kharkiv, no leste da Ucrânia. Eles operam ao lado dos obuseiros ucranianos Bohdana e dos lançadores múltiplos Vampire, conforme informou o Defense Express. Cada sistema cumpre um papel diferente: o Bohdana faz ataques de precisão, o Vampire satura áreas com foguetes, e o M110 entrega o impacto pesado com seus projéteis de 90 quilos.

O momento dessa chegada é significativo por causa do que está acontecendo do lado russo. Desde o início da invasão em fevereiro de 2022, a Ucrânia contabilizou a destruição de quase 40 mil sistemas de artilharia russos, segundo dados do Estado-Maior ucraniano. Uma análise OSINT do pesquisador Jompy, baseada em imagens de satélite e reportada pelo Militarnyi, aponta que restam apenas cerca de 39% das peças de artilharia que a Rússia tinha armazenadas antes da guerra.

A situação de pessoal também está se deteriorando. Segundo a Al Jazeera, março de 2026 registrou o maior número de baixas russas em um único mês desde o início da guerra: 35.351 soldados mortos ou feridos. A Ucrânia afirma que drones foram responsáveis por 96% dessas baixas. No primeiro trimestre de 2026, segundo o presidente ucraniano Zelensky, a Rússia perdeu mais de 90 mil soldados enquanto recrutou cerca de 80 mil. Ou seja, as perdas estão superando a reposição.

Nesse contexto, cada nova peça de artilharia pesada que chega à Ucrânia tem um impacto multiplicado. O M110 não precisa ser moderno. Precisa entregar destruição em volume, de forma consistente, e sessenta obuseiros com 150 mil projéteis fazem exatamente isso.

O caminho está aberto para mais armas

A Grécia ainda pode enviar cerca de 85 obuseiros M110 adicionais. Mas o potencial vai além. Segundo a Wikipedia, a Turquia está aposentando 219 unidades do M110A2. A Jordânia opera 120, o Paquistão tem 140, e Marrocos e Taiwan somam mais de 130 entre os dois. São centenas de obuseiros espalhados pelo mundo, sem função ativa, parados em depósitos.

A Iniciativa Tcheca já provou que existe um caminho logístico viável para levar esse tipo de equipamento até a linha de frente ucraniana. O financiamento internacional existe. A questão, segundo analistas, é a vontade política dos países envolvidos.

O retorno inesperado

Os Estados Unidos construíram o M110 para o cenário mais extremo da Guerra Fria. Sessenta anos depois, essa arma não está disparando ogivas nucleares e não precisa. Os projéteis convencionais de 90 quilos já estão fazendo seu trabalho contra posições russas no leste da Ucrânia.

A guerra na Ucrânia reescreveu o destino de uma arma que o mundo inteiro considerou obsoleta. O que a Grécia classificou como sucata militar e o que a OTAN descartou como ultrapassado acabou se tornando uma peça relevante em um conflito que já consumiu mais de um milhão de baixas russas. Nessa guerra, a arma que está mudando o jogo não é a mais moderna nem a mais cara. É a que ninguém esperava ver de volta.