O vídeo dura menos de um minuto. Um soldado russo, com o rosto coberto, fala direto para a câmera. Ele se identifica apenas pelo codinome de combate. Está em serviço, em algum ponto do front contra a Ucrânia. E faz um pedido quase desesperado às autoridades em Moscou.
“O Telegram é o nosso único canal de comunicação. Não tirem isso de nós.”
Outro soldado, do esquadrão antidrone Albatros, diz que sem o aplicativo a tropa perde a capacidade de reagir aos ataques de drones ucranianos. Um terceiro completa: “Como vamos lutar? Com pombos-correio?”
Esses vídeos circulam há semanas em canais militares pró-Kremlin. Não são feitos por opositores. São feitos por soldados que apoiam a guerra de Putin — e que agora se viram contra a mais radical decisão do líder russo desde o início da invasão da Ucrânia: o desligamento sistemático da internet dentro da própria Rússia.
E não é figura de linguagem. Cidades inteiras estão ficando dias, e às vezes semanas, sem conexão.
Um país inteiro sendo desconectado
Desde o começo de 2026, Moscou, São Petersburgo e dezenas de outras cidades russas vêm sofrendo apagões de internet móvel que duram horas, dias ou semanas seguidas. O WhatsApp foi bloqueado em fevereiro. O Telegram, o aplicativo mais usado do país, com mais de 90 milhões de usuários, começou a ser estrangulado em 10 de fevereiro e ficou praticamente inacessível em meados de março — antes mesmo do prazo oficial de bloqueio total, marcado para 1º de abril.
Em meados de abril, segundo dados de monitoramento, a disponibilidade do Telegram para usuários sem VPN despencou para apenas 5%.
Facebook e Instagram já estavam fora desde 2022. Signal e Discord caíram em 2024 e 2025. Snapchat e FaceTime entraram na lista no fim de 2025. O YouTube vem sendo lentificado a ponto de quase não funcionar. As VPNs, que eram o último escape, estão sendo caçadas: o Roskomnadzor, regulador estatal das telecomunicações, forçou a Apple a remover dezenas delas da App Store russa, e desde 1º de abril iPhones russos perderam até a função de pagar via Apple ID — uma manobra para impedir que russos paguem assinaturas de VPNs estrangeiras.
A Rússia se tornou, em 2025, o país que mais cortou internet no mundo, com folga. Foram mais de 37 mil horas de apagões, mais que o triplo do segundo colocado, com prejuízo estimado em quase 12 bilhões de dólares para a economia russa. Em apenas cinco dias de apagão, só Moscou perdeu cerca de 5 bilhões de rublos, segundo o jornal Kommersant.
E na quinta-feira, 23 de abril, o próprio Vladimir Putin foi à televisão estatal explicar.
“É para o seu próprio bem”
Foi a primeira vez que Putin tocou pessoalmente no assunto. Em uma reunião de governo transmitida pela TV, ele defendeu os apagões como medida necessária contra ataques terroristas — termo que o Kremlin usa para se referir aos ataques de drones ucranianos contra refinarias, depósitos de combustível e infraestrutura militar dentro da Rússia.
Putin admitiu que cidadãos em grandes cidades estão sofrendo. Disse que “lamenta”. Mas argumentou que avisar com antecedência sobre os apagões seria perigoso, porque “os criminosos também ouvem e veem tudo, e ajustariam seu comportamento”.
A justificativa oficial é que drones ucranianos usam redes 4G para navegar até alvos dentro da Rússia. Há um problema: a maioria dos drones de longo alcance ucranianos opera com navegação inercial e visão computacional, sem depender de internet móvel. Especialistas militares apontam que cortar o sinal nas cidades não derruba esses drones — apenas cega a população civil.
Mesmo o governador de Belgorod, região fronteiriça que vive sob constante ataque, foi à TV admitir o absurdo. Vyacheslav Gladkov, que apoia Putin, disse com todas as letras que a falta de internet móvel está custando vidas, porque pessoas não conseguem receber alertas de ataque aéreo. Mortes e feridos em Belgorod quase triplicaram no início de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025.
O substituto que tira foto da sua cara a cada cinco minutos
A estratégia do Kremlin não é só bloquear. É forçar todo russo a migrar para um único aplicativo, controlado pelo Estado: o Max.
O Max é um app de mensagens lançado pela VK, gigante russa de tecnologia cujo CEO é Vladimir Kiriyenko, filho de Sergey Kiriyenko, vice-chefe de gabinete de Putin. Desde setembro de 2025, ele vem pré-instalado em todos os celulares vendidos na Rússia. É integrado a serviços públicos, escolares e bancários.

E é, segundo análises técnicas independentes publicadas no GitHub e por organizações como a RKS Global, um instrumento de espionagem em escala industrial.
O aplicativo ativa a câmera do celular a cada cinco a dez minutos e tira fotos. Grava o som ambiente. Coleta a lista de contatos, biometria, histórico de localização e até captura textos que o usuário digitou mas decidiu não enviar. Não tem criptografia ponta a ponta. Funciona em nível de root no Android, o que torna sua remoção difícil. E há indícios de que detecta se o usuário está usando uma VPN — informação preciosa para o FSB, herdeiro da KGB.
Pavel Durov, o russo que criou o Telegram e fundou a VK antes de ser expulso do país em 2014, foi direto: a Rússia está forçando seus cidadãos a usar “um aplicativo controlado pelo Estado, projetado para vigilância e censura política”.
A reação foi tão forte que oficiais russos de alto escalão estariam mantendo aparelhos separados só para o Max — porque não confiam no app que o próprio governo distribui.
O racha que ninguém esperava
A revolta não veio dos opositores históricos. Veio de dentro do regime.
Os blogueiros militares pró-guerra, conhecidos como “Z-bloggers”, são uma das principais bases de apoio de Putin. O canal Two Majors, um dos mais influentes, declarou que para os grupos antidrone no front o Telegram é o único canal de comunicação operacional. O comentarista Dmitry Olshansky, conservador e apoiador da invasão, escreveu: “Devoram redes sociais e mensageiros, livros e filmes, jornalistas e músicos; devoram tudo o que veem pela frente.”
Sergei Mironov, deputado e aliado fiel de Putin, chamou as autoridades de “idiotas”. O partido New People, que é da “oposição de sistema” — leal ao Kremlin, mas crítico —, lançou petição contra o bloqueio. Subiu para o segundo lugar nas pesquisas.
E pela primeira vez desde o início da guerra, a aprovação de Putin nas pesquisas oficiais caiu sete semanas seguidas. Está em 65,6%, o nível mais baixo desde fevereiro de 2022. Em sondagens de pergunta aberta, em que o entrevistado responde sem ver opções, a confiança em Putin desabou para 29,5% — contra 71% que eram registrados em 2015. O partido Rússia Unida, do Kremlin, está com 27,3% das intenções de voto, a cinco meses das eleições legislativas de setembro.
A campanha contra a internet livre é tão impopular que cientistas políticos russos vêm comparando o cenário a um precedente perigoso: a campanha antiálcool de Mikhail Gorbachev, na Perestroika, que mexeu em algo enraizado na vida cotidiana e acelerou o fim do regime.
Um Nepal russo?
Em setembro de 2025, no Nepal, uma tentativa de bloquear a internet provocou protestos massivos e levou à queda do governo. Analistas do Jamestown Foundation alertam que o Kremlin pode estar caminhando para o mesmo terreno.
O ideólogo Alexander Dugin, intelectual próximo ao círculo nacionalista de Putin, chegou a propor publicamente o desligamento total da internet russa durante o verão, para “purificar” o ambiente informacional do país. Não foi adotado. Mas mostra o quanto a linha-dura está ousada.
O cálculo do Kremlin parece ser este: o custo econômico é gigante, o custo político é alto, mas o risco de manter os russos conectados ao mundo é maior ainda. O FSB venceu a disputa interna. O porta-voz Dmitry Peskov chegou a sugerir um acordo com Pavel Durov. Putin, ex-agente da KGB, escolheu o lado dos serviços de segurança.
Aos seus cidadãos, ele oferece a justificativa de sempre: é para o seu próprio bem.
