Poucas horas depois de Estados Unidos e Irã anunciarem um cessar-fogo de duas semanas para encerrar mais de cinco semanas de guerra, a Coreia do Norte disparou múltiplos mísseis balísticos de curto alcance em direção ao mar.
O momento não parece ser coincidência: Pyongyang tem um histórico de usar crises internacionais para demonstrar força, testar armamentos e enviar mensagens geopolíticas. Além disso, a Coreia do Norte é a principal fornecedora dos mísseis que o Irã usou contra bases americanas e cidades israelenses durante o conflito.
O que aconteceu nesta quarta-feira
Na manhã de 8 de abril de 2026, o Estado-Maior Conjunto da Coreia do Sul detectou o lançamento de vários mísseis balísticos de curto alcance a partir da região costeira de Wonsan, no leste da Coreia do Norte. Cada projétil percorreu cerca de 240 quilômetros antes de cair no Mar do Japão. Mais tarde no mesmo dia, um míssil adicional foi disparado, viajando mais de 700 quilômetros com uma trajetória irregular que, segundo analistas japoneses, pode dificultar a interceptação por sistemas de defesa antimíssil.
Foi o segundo dia consecutivo de lançamentos. Na terça-feira, um projétil disparado da região de Pyongyang desapareceu dos radares logo após a decolagem, o que indica uma provável falha. No total, esses foram o quarto, quinto e sexto testes balísticos norte-coreanos em 2026, segundo a Reuters.

Os disparos aconteceram poucas horas após o presidente Donald Trump anunciar um cessar-fogo bilateral com o Irã, mediado pelo Paquistão, que suspendeu os bombardeios americanos e israelenses contra o território iraniano.
A conexão entre Coreia do Norte e Irã que pouca gente conhece
O que torna esse momento ainda mais significativo é que a Coreia do Norte não é apenas uma espectadora do conflito no Oriente Médio. Segundo especialistas ouvidos pela Fox News, o programa de mísseis balísticos do Irã foi construído quase inteiramente com tecnologia norte-coreana.
Bruce Bechtol, professor de ciência política da Angelo State University e coautor do livro “Rogue Allies”, explicou que a Coreia do Norte vendeu cerca de 150 sistemas de mísseis No Dong ao Irã no final dos anos 1990. A partir deles, o Irã desenvolveu seus mísseis Shahab-3, Emad e Ghadr, que foram usados contra alvos israelenses e bases americanas durante a guerra. Até os mísseis Musudan, disparados pelo Irã contra a base conjunta EUA-Reino Unido em Diego Garcia (a cerca de 4.000 km do território iraniano), foram comprados da Coreia do Norte.
Segundo reportagem do Washington Times, a Coreia do Norte também ajudou o Irã a construir redes de túneis subterrâneos e instalações de testes de mísseis. A relação financeira é direta: o Irã paga em dinheiro e petróleo, gerando cerca de US$ 3 bilhões por ano para o regime de Kim Jong Un.
O que Pyongyang quer dizer com esses lançamentos
O momento dos disparos não é aleatório. Ainda em janeiro de 2026, Kim Jong Un supervisionou testes de mísseis hipersônicos e citou explicitamente a “crise geopolítica recente” como justificativa para reforçar a capacidade nuclear do país, segundo a Al Jazeera. Em março, após os ataques americanos e israelenses ao Irã, a Coreia do Norte disparou mais de 10 mísseis balísticos, conforme reportado pela Bloomberg.
Analistas interpretam os lançamentos como uma mensagem tripla. Primeiro, Pyongyang demonstra que possui mísseis prontos para uso a qualquer momento, complicando os planos de defesa dos Estados Unidos e da Coreia do Sul. Segundo, sinaliza ao mundo que não pretende abrir mão do seu arsenal nuclear, independentemente do que aconteça com o Irã. Terceiro, reforça que, se os EUA conseguirem destruir o programa de defesa iraniano, a Coreia do Norte precisa estar ainda mais preparada.
O site especializado 38 North publicou uma análise detalhada sobre as lições que a Coreia do Norte está tirando da guerra no Irã. Entre elas: a eficácia dos sistemas de defesa antimíssil americanos e a vulnerabilidade de mísseis móveis a ataques aéreos. A conclusão é que Pyongyang provavelmente vai acelerar o desenvolvimento de mísseis com trajetórias imprevisíveis e ogivas múltiplas.
Enquanto isso, nos EUA: pedidos de impeachment e 25ª Emenda
O cessar-fogo também não encerrou a turbulência dentro dos próprios Estados Unidos. Antes do acordo ser fechado, mais de 50 congressistas democratas pediram a remoção de Trump do cargo, segundo a NBC News. O estopim foi uma postagem do presidente na rede Truth Social em que ele disse que “uma civilização inteira morrerá esta noite”.
Os democratas citaram dois mecanismos constitucionais. O impeachment exige maioria simples na Câmara para acusar o presidente e dois terços do Senado para condená-lo e removê-lo. Já a 25ª Emenda, que nunca foi usada contra a vontade de um presidente, permite que o vice-presidente e a maioria do gabinete declarem o presidente incapaz de exercer suas funções. Se o presidente contestar, o Congresso decide com dois terços dos votos em ambas as casas, um critério ainda mais rigoroso que o do impeachment.
Na prática, como os republicanos controlam a Câmara e o Senado, nenhuma das duas opções tem chance real de avançar no momento. Mas o fato de mais de 70 parlamentares (contando declarações feitas até a noite de terça) terem levantado publicamente a possibilidade mostra o nível de tensão que a guerra com o Irã gerou na política americana, conforme reportou a Axios.
O tabuleiro ficou mais complicado
O cessar-fogo entre EUA e Irã trouxe alívio momentâneo, mas a ação da Coreia do Norte mostra que a instabilidade global vai além do Oriente Médio. Pyongyang observou atentamente a guerra no Irã, aprendeu lições militares com ela e está usando esse momento de atenção mundial dividida para avançar seu próprio programa de armas. Ao mesmo tempo, a crise política dentro dos Estados Unidos levanta dúvidas sobre a capacidade de Washington em lidar com múltiplas frentes de tensão ao mesmo tempo. O cessar-fogo pode ter pausado uma guerra, mas o xadrez geopolítico continua em movimento.
