Teerã repete há anos que consegue destruir qualquer navio americano no Golfo Pérsico. O arsenal existe — mas a distância entre ter o míssil e acertar o alvo é maior do que parece.
Sempre que as tensões entre Estados Unidos e Irã sobem de tom, uma ameaça volta à tona: o regime iraniano avisa que, em caso de ataque, os porta-aviões americanos serão engajados e afundados. Em 2026, com dois porta-aviões americanos operando na região — o USS Gerald R. Ford e o USS Abraham Lincoln —, a promessa voltou com força total.

Mas o que o Irã realmente consegue fazer? E o que protege essas embarcações gigantescas de um ataque?
O tamanho do que está em jogo
Antes de falar sobre mísseis, vale entender o que é um porta-aviões nuclear moderno.
O USS Gerald R. Ford pesa cerca de 100 mil toneladas. Para ter uma ideia: é o equivalente ao peso de aproximadamente 700 aviões comerciais cheios. Tem 333 metros de comprimento — quase quatro campos de futebol enfileirados. Carrega em torno de 70 aeronaves a bordo e uma tripulação de mais de 4 mil pessoas. É, essencialmente, uma cidade flutuante com pista de pouso.
Afundar algo assim não é simples. Exigiria dezenas de impactos diretos abaixo da linha d’água, ao longo de todo o casco — que é dividido em centenas de compartimentos separados, justamente para evitar que um único furo afunde o navio inteiro.
O que o Irã tem
O Irã não está blefando quando diz que possui mísseis antinavio. Tem, sim — e alguns são tecnicamente avançados.
A base do arsenal são os mísseis de cruzeiro das famílias Nur e Gadir. Pense neles como mísseis teleguiados que voam rente ao mar, abaixo do alcance dos radares, para dificultar a detecção. Têm alcance de 200 a 300 km e podem ser lançados da costa, de barcos rápidos ou de aviões. Se disparados aos dezenas ao mesmo tempo, podem sobrecarregar as defesas de um navio menor.

O problema? Os porta-aviões americanos raramente se aproximam a menos de 600 km da costa iraniana. Esses mísseis simplesmente não chegam lá.
O sistema que muda o debate é o Zolfaghar Basir — um míssil balístico antinavio anunciado pelo Irã em 2020, com alcance declarado de mais de 700 km. Diferente dos mísseis de cruzeiro, que se aproximam voando horizontalmente, ele sobe alto e depois cai quase em linha reta, em velocidade que pode chegar a cinco vezes a do som. Isso é importante porque um objeto caindo em alta velocidade de cima para baixo é muito mais difícil de interceptar do que algo vindo na horizontal.
No papel, é a arma mais perigosa que o Irã tem contra um porta-aviões americano.
O problema que ninguém no mundo resolveu
Aqui está o ponto que muda tudo.
Acertar uma cidade com um míssil balístico é difícil, mas tecnicamente está resolvido. Acertar um navio em movimento no meio do oceano com um míssil balístico é um problema completamente diferente — e que nenhum país do mundo demonstrou conseguir fazer em combate real. Nem os Estados Unidos. Nem a Rússia. Nem a China.
O motivo é simples de entender: o míssil precisa localizar um alvo que se move, que muda de direção e que está no meio da imensidão do oceano. Na fase final do voo, quando está caindo a velocidade hipersônica, ele precisa corrigir a trajetória em frações de segundo. É como tentar acertar um carro em movimento, jogando uma pedra de um avião.
O Zolfaghar Basir nunca foi testado em combate contra um alvo naval real. Segundo o Iran Watch, organização especializada no monitoramento do arsenal iraniano, sua eficácia real permanece não comprovada.

As camadas de defesa que um míssil precisaria atravessar
Um porta-aviões americano nunca navega sozinho. Ele opera no centro do que a Marinha chama de Carrier Strike Group — um conjunto de navios de guerra, submarinos e aeronaves que formam uma bolha de proteção ao redor do porta-aviões.
A primeira camada são os caças embarcados, que patrulham centenas de quilômetros ao redor do grupo. Eles podem destruir lançadores iranianos ainda em terra, antes mesmo do disparo.
A segunda são os destróieres da classe Arleigh Burke — navios de guerra equipados com o Sistema Aegis, uma plataforma de computadores e radares que rastreia dezenas de alvos ao mesmo tempo e dispara mísseis interceptadores automaticamente. Cada destróier carrega entre 90 e 96 mísseis antiaéreos. Uma formação típica reúne mais de 250 interceptadores disponíveis só na escolta de superfície.
A terceira são os sistemas de defesa de ponto: o Phalanx CIWS, um canhão automático que dispara 4.500 projéteis por minuto contra qualquer alvo que sobreviva às camadas anteriores. É a última chance antes do impacto.
Além de tudo isso, o próprio porta-aviões se move a mais de 55 km/h — velocidade de rodovia — e realiza manobras bruscas projetadas especificamente para desviar de mísseis em rota de colisão.
Para um míssil iraniano chegar ao casco, precisaria passar por tudo isso. Ao mesmo tempo.
O que o Irã consegue fazer de verdade
Isso não significa que o arsenal iraniano é inofensivo.
Os mísseis de cruzeiro em enxame representam risco real para embarcações menores da escolta. Minas navais no Estreito de Ormuz — o corredor por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial — podem paralisar o tráfego da região sem disparar um único míssil. E drones baratos, lançados em grande quantidade, forçam a formação a gastar interceptadores caríssimos: um único míssil SM-2 da defesa americana custa entre 2 e 3 milhões de dólares. Um drone iraniano, muito menos.
A estratégia real do Irã não é afundar um porta-aviões. É tornar qualquer operação naval na região cara, complicada e arriscada o suficiente para fazer os Estados Unidos pensarem duas vezes. Isso é diferente — e, dentro das capacidades iranianas reais, muito mais plausível.
Afundar o Gerald R. Ford está além do que o Irã consegue provar que pode fazer. Tornar o Golfo Pérsico um lugar perigoso e imprevisível, por outro lado, já é uma realidade.
Fontes consultadas: Iran Watch, Army Recognition, Congressional Research Service, USNI News, 19FortyFive
