O cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, anunciado em 7 de abril de 2026, trouxe uma novidade sem precedentes: Irã e Omã planejam cobrar taxas de trânsito de embarcações que passarem pelo Estreito de Ormuz durante a trégua de duas semanas. A medida transforma uma das rotas marítimas mais importantes do mundo, por onde circulam cerca de 20% de todo o petróleo consumido no planeta, em uma espécie de pedágio. Isso nunca aconteceu antes.
O Estreito de Ormuz é uma via internacional navegável e os países nunca pagaram pedágios para cruzá-lo. Para o Brasil, que depende do preço internacional do petróleo para definir o custo dos combustíveis, a mudança pode ter efeitos diretos no bolso dos consumidores.
O que é o Estreito de Ormuz e por que ele importa
O Estreito de Ormuz é um canal natural de cerca de 30 quilômetros de largura que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico. Ele fica entre o Irã e Omã, e é a principal porta de saída do petróleo e do gás produzidos por países como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait e Qatar. Cerca de 17 milhões a 21 milhões de barris de petróleo passam por ali todos os dias, o que o torna o ponto mais estratégico do comércio global de energia.

Quando a guerra entre EUA, Israel e Irã começou, no final de fevereiro de 2026, o Irã fechou o estreito e ameaçou atacar qualquer embarcação que tentasse a travessia. Isso causou uma disparada imediata nos preços dos combustíveis no mercado internacional. O petróleo tipo Brent, referência mundial, chegou a encostar nos US$ 120 por barril, o maior patamar em quatro anos.
Desde então, apenas cerca de 5% do volume de tráfego marítimo que existia antes da guerra conseguiu passar pelo estreito, segundo a CNN Brasil. Alguns países, como Índia e Paquistão, negociaram acordos individuais com o Irã para conseguir retirar seus navios. Segundo relatos, o Irã chegou a cobrar até US$ 2 milhões por embarcação para permitir a passagem.
Como funciona o pedágio do cessar-fogo
Com o cessar-fogo mediado pelo Paquistão, o Irã aceitou reabrir o estreito de forma controlada. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que a passagem será permitida com supervisão militar iraniana. Os recursos arrecadados com a cobrança devem ser destinados à reconstrução do Irã, que sofreu danos significativos durante o conflito.
A decisão é inédita do ponto de vista do direito internacional. O Estreito de Ormuz é uma via marítima internacional protegida pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), que geralmente proíbe a cobrança de pedágios para simples passagem. Porém, há um detalhe importante: Estados Unidos, Israel e Irã não são signatários dessa convenção, o que torna a situação jurídica ainda mais complexa.
O Irã também está avançando internamente para formalizar essa cobrança. Um projeto de lei em tramitação no parlamento iraniano prevê maior controle sobre o estreito, incluindo regulamentos de pedágio, segundo análise publicada pelo Responsible Statecraft. A ideia é criar um sistema parecido com o que existe no Canal de Suez, no Egito, ou no Canal do Panamá, onde embarcações pagam taxas para transitar.
O que isso significa para o preço do petróleo
Mesmo com o cessar-fogo, o mercado de petróleo segue tenso. A cobrança de taxas adiciona um custo novo a uma rota que sempre foi gratuita, e a reabertura do estreito ainda é parcial e incerta. A Hapag-Lloyd, uma das maiores empresas de navegação do mundo, afirmou que pode levar pelo menos seis semanas para normalizar sua rede, com cerca de mil navios ainda retidos no Golfo.
Os preços do petróleo subiram para perto de US$ 120 por barril durante a crise, e analistas apontam que a normalização não será rápida. Uma especialista da Universidade da Western Australia destacou que armadores, seguradoras e tripulações precisam acreditar que o risco foi realmente reduzido, e não apenas suspenso temporariamente.
A própria OPEP+ aprovou um aumento simbólico de produção, mas o acréscimo de 206 mil barris por dia representa menos de 2% do volume interrompido pelo fechamento do estreito.
Como o Brasil é afetado
O Brasil é um grande produtor e exportador de petróleo, mas isso não o protege totalmente dos efeitos dessa crise. O preço do petróleo é definido no mercado internacional, então quando o barril sobe lá fora, sobe aqui também.
No Brasil, o ponto mais sensível é o diesel. Cerca de 65% das cargas no país são transportadas por caminhões, então quando o diesel sobe, sobe o frete, sobem os alimentos e começa a aparecer pressão na inflação, como destacou o economista Tiago Velloso ao Poder360.
Com a elevação do preço do petróleo, já existe uma defasagem de cerca de 15% a 16% nos preços da gasolina e do diesel em relação à paridade internacional, segundo a CNN Brasil. Isso significa que a Petrobras está segurando os preços abaixo do que o mercado internacional indicaria, mas essa estratégia tem limites.
Por outro lado, o Brasil também se beneficia. Com o petróleo mais caro, o país pode arrecadar entre R$ 10 bilhões e R$ 15 bilhões adicionais em royalties, dividendos da Petrobras e impostos. Além disso, com o pré-sal, a Petrobras tem baixo custo de produção e escala crescente, o que a torna competitiva em um cenário de preços elevados. Compradores asiáticos, como China e Índia, tendem a buscar fornecedores fora da zona de conflito, e o petróleo brasileiro se torna uma alternativa atraente.
Uma trégua, mas não uma solução
O cessar-fogo dura apenas duas semanas, e as questões centrais do conflito permanecem sem solução. Até o momento, não há avanços em temas como o programa nuclear do Irã, o desenvolvimento de mísseis balísticos e a atuação de grupos aliados no Oriente Médio. O Irã condiciona o fim do conflito a exigências que os EUA consideram inaceitáveis, como a retirada de forças americanas e o levantamento de sanções.
O pedágio em Ormuz pode parecer apenas um detalhe do acordo, mas revela algo maior: o Irã está usando o controle do estreito como sua principal moeda de negociação no pós-guerra. Analistas sugerem que a receita gerada pela cobrança de taxas pode até superar os ganhos iranianos com exportações de petróleo. Se isso se consolidar, o mundo estará diante de uma nova realidade no comércio global de energia, com impactos que vão do posto de combustível no Brasil até as fábricas na China.