O governo dos Estados Unidos tenta rachar o regime de Cuba por dentro. Em vez de apostar só em navios de guerra, procura entre os próprios dirigentes cubanos alguém com poder para fechar um acordo e fazer os outros cumprirem. A CIA está no centro da busca e, na semana passada, pediu publicamente que cubanos colaborem com a agência em segredo.
Resumo rápido:
- 23 e 24 de outubro: o secretário de Estado Marco Rubio e o general Francis Donovan, comandante do Comando Sul, pediram que cubanos procurem a CIA com discrição
- Em agosto, a CIA criou uma força-tarefa só para Cuba, segundo o New York Times
- Em 2025, Venezuela e México forneceram mais de 80% do petróleo importado pela ilha, e as entregas pararam em 2026
- O Pentágono estudou opções militares, mas não há decisão de atacar
O que a CIA está fazendo em Cuba?
Na sexta-feira, 23 de outubro, Rubio disse nas redes sociais que cubanos descontentes devem buscar contato discreto com a CIA. A agência publicou um vídeo em espanhol com instruções, entre elas usar uma conexão protegida, navegador privado e e-mail descartável, segundo a Asharq Al-Awsat. No sábado, 24, Donovan reforçou a mensagem no X: “agora é a hora” de agir pela mudança, escreveu o general, de acordo com o Task & Purpose.
O apelo público é a parte visível de um trabalho mais antigo. Em agosto, o New York Times revelou que a CIA montou em segredo uma força-tarefa para a ilha, que contrata oficiais para recrutar e conduzir espiões, analistas e especialistas em ciberoperações. O objetivo descrito é abrir divisões na elite política cubana e favorecer dirigentes mais pragmáticos no lugar dos linha-dura.

Por que a Venezuela serve de modelo?
Em 3 de janeiro de 2026, forças americanas capturaram Nicolás Maduro. A presidência interina ficou com Delcy Rodríguez, que já era peça do governo venezuelano. Segundo o Jakarta Post, ela permitiu que os Estados Unidos intermediassem vendas de petróleo do país, incentivou investimento estrangeiro e libertou presos políticos. Os americanos passaram a negociar com alguém que já sabia como a máquina funcionava, sem precisar entregar o poder à oposição.
A lógica é que um acordo só funciona se quem assina consegue fazer polícia, militares e demais dirigentes obedecerem. Em Cuba, achar essa pessoa é bem mais difícil.
Por que é mais difícil em Cuba?
O Partido Comunista controla as decisões políticas, e as Forças Armadas e os serviços de segurança fazem parte dessa estrutura há décadas. Trocar o presidente Miguel Díaz-Canel, portanto, não muda quem de fato manda. Além disso, os militares têm negócios: a GAESA, conglomerado controlado pelas Forças Armadas e alvo de restrições financeiras americanas, segundo a CBS News, administra hotéis e outros empreendimentos, entre eles uma torre hoteleira de 42 andares em Havana.
Isso muda o cálculo de cada oficial. Negociar pode aliviar a crise, mas também pode custar o cargo, a influência e o acesso a negócios lucrativos. Mesmo quem reconhece que o país precisa mudar tem motivo para resistir a um acordo que ameace tudo o que controla. Quem negociar teria de oferecer alguma perspectiva a esses dirigentes, ou o acordo existiria só no papel.
Como a falta de combustível entra nessa pressão?
Segundo os dados da S&P Global, Cuba importou 13,7 milhões de barris de petróleo em 2025, e a Venezuela respondeu por 61% do total e o México por 25%. As compras venezuelanas pararam depois da queda de Maduro, e o México suspendeu os envios depois que os Estados Unidos anunciaram um processo para impor tarifas a quem abastece a ilha. Sem combustível e com usinas antigas, os apagões se agravaram: para o dia 26 de outubro, a empresa elétrica estatal previa um déficit de quase 1.900 megawatts no horário de pico, perto de dois terços da demanda.
É essa pressão econômica que o governo americano espera converter em concessões políticas.
Os Estados Unidos podem invadir Cuba?
A opção militar existe no papel. Em julho, a CBS News informou que planejadores do Pentágono examinaram alternativas, entre elas um assalto aéreo do Exército com milhares de soldados da 101ª Divisão Aerotransportada. Autoridades ouvidas pela rede disseram que os briefings não indicam decisão de agir, e que os recursos militares estão concentrados na guerra com o Irã.
Mesmo uma operação bem-sucedida deixaria a pergunta sobre quem assumiria o país depois. Navios e aviões derrotam forças militares, mas não garantem que uma nova liderança seja aceita pelas instituições. A CBS também registrou que Rubio defende uma transição negociada, processo que, segundo a reportagem, está travado. Nada disso indica que um entendimento esteja próximo.
O que falta para o plano funcionar?
Falta o interlocutor. Os Estados Unidos já mostraram que sabem pressionar Cuba, com sanções, falta de combustível e ameaças. Transformar essa pressão em mudança política duradoura exige encontrar, dentro do governo cubano, alguém com poder e disposição para assinar um acordo e fazê-lo valer. Até agora, nenhuma reportagem confirma que essa pessoa tenha aparecido.

