Uma ilha sem combustível, apagões que duram dias inteiros e um presidente americano falando em “tomar Cuba”. Entenda o que está acontecendo e por que importa.
No domingo à noite, 29 de março, o presidente Donald Trump voava de volta a Washington a bordo do Air Force One quando um repórter lhe perguntou sobre um navio-tanque russo que se aproximava de Cuba carregando 730 mil barris de petróleo. A resposta foi desconcertante: “Não me importo. Se um país quiser mandar petróleo para Cuba agora, não tenho problema, seja a Rússia ou não.” Dias antes, o próprio Tesouro americano havia publicado uma licença proibindo explicitamente Cuba de receber petróleo russo. Trump estava recuando?
Não exatamente. Na mesma fala, ele foi direto sobre o que pensa do futuro da ilha: “Cuba está acabada. Eles têm um regime ruim e uma liderança corrupta. Recebam ou não um barco de petróleo, isso não vai importar.”
Essa contradição aparente — apertar o cerco e ao mesmo tempo deixar um carregamento russo passar — diz muito sobre a lógica da estratégia americana em Cuba. E para entender o que está em jogo, é preciso olhar primeiro para o que está acontecendo dentro da ilha.
A máquina que parou
Em março de 2026, Cuba sofreu três apagões nacionais completos: nos dias 4, 16 e 21. Em cada um deles, todos os aproximadamente 10 milhões de habitantes ficaram sem eletricidade simultaneamente. O colapso funciona em cascata: basta uma usina falhar para arrastar o sistema inteiro, construído na era soviética e operado décadas além de sua vida útil.

Segundo a NPR, o professor William LeoGrande, da American University, disse que os técnicos que mantêm a rede elétrica funcionando são “mágicos”, dada a condição em que ela se encontra. Entre os apagões totais, os cubanos enfrentam cortes diários de até 20 horas. Hospitais cancelaram cirurgias, bombas de água pararam e quase 1 milhão de pessoas passaram a depender de caminhões-pipa para ter acesso à água potável. Segundo a Reuters, apenas 44 dos 106 caminhões de coleta de lixo de Havana conseguiram manter operação, e o lixo se acumula nas esquinas da capital.
Como o torniquete foi apertado
O estrangulamento energético de Cuba tem uma data de início precisa. Em janeiro de 2026, forças americanas conduziram uma operação militar em Caracas e capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro. A Venezuela era o principal fornecedor de petróleo de Cuba — os embarques simplesmente pararam.
No dia 29 de janeiro, Trump assinou a Ordem Executiva 14380, declarando Cuba uma “ameaça extraordinária” à segurança nacional americana e autorizando tarifas contra qualquer país que fornecesse petróleo à ilha. O México, segundo maior fornecedor, anunciou a suspensão dos envios em seguida.
O resultado foi imediato. Cuba produz internamente apenas 40% do combustível que precisa. O vice-ministro de Energia cubano confirmou publicamente que a ilha ficou três meses sem receber diesel, gasolina, combustível de aviação ou gás liquefeito do exterior. Segundo o Time, é a primeira vez desde a crise dos mísseis de 1962 que os EUA conseguem impor um bloqueio energético desta eficácia sobre a ilha.
O que Washington quer de fato
A pressão não é apenas econômica. Segundo o New York Times, a administração Trump quer especificamente a saída do presidente cubano Miguel Díaz-Canel — não necessariamente o colapso imediato do sistema, mas a troca da liderança por um governo mais alinhado a Washington. O modelo é o que ocorreu na Venezuela: Maduro capturado, novo governo empossado.
Marco Rubio, secretário de Estado e filho de imigrantes cubanos, defende há décadas uma mudança de regime em Havana e é peça central nessa estratégia. Paralelamente, segundo a CNN, o Departamento de Justiça explora a possibilidade de processar criminalmente membros do regime por envolvimento com tráfico de drogas — a mesma estratégia usada para pavimentar juridicamente a operação contra Maduro.
Pressionado, o governo cubano surpreendeu. Em 13 de março, Díaz-Canel confirmou publicamente, pela primeira vez, que negociações com Washington estavam acontecendo. Como gesto inicial, Cuba anunciou a liberação de 51 presos políticos. Mas o vice-chanceler cubano foi direto ao dizer à NBC que “a natureza do regime, sua estrutura e seus membros não fazem parte da negociação”. Havana aceita conversar. Não aceita discutir o fim do sistema.
A virada do petróleo russo
É nesse ponto que entra o Anatoly Kolodkin — petroleiro russo sancionado pelos EUA, pela União Europeia e pelo Reino Unido desde a guerra na Ucrânia. O navio partiu do porto russo de Primorsk em 8 de março carregando 730 mil barris de petróleo bruto e chegou ao porto cubano de Matanzas na segunda-feira, 30 de março.

Segundo a NPR, especialistas estimam que o carregamento poderá ser convertido em cerca de 180 mil barris de diesel — suficiente para cobrir a demanda energética de Cuba por nove ou dez dias. O Kremlin descreveu o envio como “assistência humanitária” e afirmou que o fornecimento havia sido discutido previamente com Washington.
Trump, ao deixar o navio passar, contradisse formalmente uma proibição do próprio Tesouro publicada dez dias antes. A leitura mais plausível é que a Casa Branca calculou que dez dias de alívio não mudam a equação estrutural — mas evitam que a crise humanitária se acelere rápido demais, gerando exatamente o que Trump diz querer evitar: um colapso desordenado e uma onda migratória em direção à Flórida.
Vai colapsar ou não vai?
A economia cubana deve encolher mais de 7% em 2026. Cerca de 20% da população já emigrou nos últimos anos — médicos, engenheiros, profissionais que fazem falta nos serviços essenciais. Protestos começaram a aparecer nas ruas, algo raro num país onde a repressão política é sistemática.
Mas o regime já mostrou que sabe resistir. Engenheiros estão instalando painéis solares em ritmo acelerado. E um colapso súbito criaria exatamente o que ninguém quer administrar: caos social e uma onda de refugiados a 145 quilômetros da Flórida.
A estratégia americana não é derrubar Cuba de qualquer jeito — é pressionar o suficiente para forçar uma negociação controlada. O que falta é que os dois lados concordem sobre o que essa negociação significa.
O Anatoly Kolodkin atracou em Matanzas na manhã de 30 de março. Seu petróleo dura cerca de dez dias. O problema que ele tenta aliviar não tem prazo para acabar.
Fontes consultadas: NPR, CNN, Reuters, The New York Times, NBC News, CBS News, CNBC, Euronews, Time
