Depois de destruir mais de 90 alvos militares em Kharg em março de 2026, os Estados Unidos estudam ir além dos bombardeios — e as forças preparadas para essa operação já têm histórico comprovado em missões similares.
Em 13 de março de 2026, o Comando Central dos Estados Unidos anunciou que havia destruído mais de 90 instalações militares na Ilha de Kharg, no Golfo Pérsico — e deliberadamente poupado toda a infraestrutura petrolífera. A escolha não foi casual. Trump avisou publicamente: a infraestrutura seria o próximo alvo caso o Irã não reabrisse o Estreito de Ormuz, pelo qual passa 20% de todo o petróleo e gás natural do mundo. Uma semana depois, quatro fontes com conhecimento do tema confirmaram ao Axios que a Casa Branca avalia formalmente a ocupação da ilha com tropas americanas.
Confira a análise em vídeo no canal Realidade Militar
O debate existe porque Kharg não é um alvo qualquer. É a torneira financeira de um regime inteiro.
Cerca de 90% de todo o petróleo bruto exportado pelo Irã passa por aquela faixa de coral de 8 quilômetros localizada a 25 km da costa iraniana. Os longos píeres da ilha estendem-se por águas profundas o suficiente para receber superpetroleiros — raridade em uma costa predominantemente rasa — e conectam-se por dutos submarinos aos maiores campos petrolíferos do país. Capacidade de armazenamento: 30 milhões de barris. Capacidade de carregamento: até 7 milhões de barris por dia. A quase totalidade dessas exportações tem um único destino: a China. Sem Kharg, o Irã não paga o exército, não financia o programa nuclear e não sustenta a máquina burocrática do Estado.
O que os bombardeios de março ainda não resolveram
Os ataques de março desarmaram a ilha. Bunkers de mísseis foram destruídos, a base naval demolida, o aeroporto inutilizado. Mas bombardear e ocupar são operações completamente distintas — e é nessa diferença que o debate estratégico americano se concentra.
Segundo um funcionário da administração Trump citado pelo Axios, a lógica é clara: “Precisamos de cerca de um mês para enfraquecer os iranianos com mais ataques, tomar a ilha e então usá-la como alavanca nas negociações.” A Agência Central de Inteligência já classificava Kharg, em documento desclassificado de 1984, como “a mais vital de todas as instalações do sistema petrolífero iraniano”. Quarenta anos depois, essa avaliação continua precisa.
O problema é que o Irã sabe disso. Relatórios de inteligência americanos divulgados pela CNN indicam que Teerã já deslocou sistemas antiaéreos portáteis — os chamados MANPADs, mísseis terra-ar de ombro que atingem aeronaves a baixa altitude — para a ilha, além de instalar armadilhas e reforçar o efetivo militar local em antecipação a uma possível operação de tomada.
Quem entraria primeiro — e como
O planejamento para uma operação de captura não começa com batalhões. Começa com equipes pequenas que chegam antes de qualquer helicóptero aparecer no horizonte.
O método é o salto HALO — do inglês High Altitude, Low Opening, altitude alta com abertura baixa. Operadores saltam de aeronaves a 9.000 metros, em queda livre a quase 200 km/h, com temperatura de -50°C no ponto de saída. O paraquedas só abre a 600 metros do solo — tarde demais para qualquer radar rastrear a descida. Com óculos de visão noturna e GPS no pulso, esses operadores chegam silenciosamente, antes de qualquer sinal visível de operação. Missão: confirmar posições inimigas remanescentes, marcar zonas de pouso com sinalizadores infravermelhos e neutralizar os últimos focos de resistência.
Só então decolam os Night Stalkers — o 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais, os pilotos que executaram a captura de Nicolás Maduro na Operação Resolução Absoluta, em 3 de janeiro de 2026. Padrão operacional: chegada ao objetivo com margem de erro de 30 segundos. Seus helicópteros MH-60M Black Hawk, na configuração de ataque, carregam metralhadoras rotativas, canhão de 30 mm e até 16 mísseis Hellfire — o míssil antiblindado padrão das forças especiais americanas, com custo unitário de cerca de US$ 150 mil. Os MH-47 Chinook — helicópteros de transporte pesado capazes de carregar 33 soldados ou 11 toneladas de carga — chegam atrás, com as equipes de assalto.

Na Venezuela, os helicópteros voaram a 30 metros acima da água para evitar radares, percorrendo mais de uma hora no escuro. Durante a extração de Maduro em Fort Tiuna, Caracas, uma aeronave foi atingida por fogo inimigo. O piloto Eric Slover levou quatro balas na perna e no quadril, não soltou o manche e trouxe toda a equipe de volta. Zero americanos mortos. Trump condecorou Slover com a Medalha de Honra durante o discurso sobre o Estado da União.
O verdadeiro problema começa depois da tomada
Kharg não é um prédio em Caracas. É uma ilha a 25 quilômetros de uma das maiores concentrações de artilharia, foguetes, mísseis e drones do Oriente Médio.
A história oferece uma referência próxima. Em abril de 2003, no Iraque, 154 Rangers e operadores da Delta Force capturaram a barragem de Haditha — infraestrutura crítica que precisava ser mantida intacta — e receberam ordem de segurá-la por 25 horas. Ficaram cinco dias, enfrentando forças iraquianas muito superiores em número. Em 36 horas, mais de 350 projéteis de artilharia pesada de 155 mm caíram ao redor deles. Em dado momento, os Rangers ficaram sem munição e tiveram que solicitar apoio aéreo para destruir uma posição inimiga a menos de 200 metros de onde estavam. Resistiram.

Em Kharg, a escala seria maior. Analistas militares estimam que uma ocupação sustentável exigiria pelo menos 5.000 soldados, com sistemas de defesa aérea, radares de contrabateria, artilharia própria e logística contínua por via marítima — já que a pista do aeroporto foi destruída nos bombardeios de março. O Pentágono já ordenou o deslocamento de dois grupos de forças expedicionárias da Marinha e cerca de 3.000 soldados da 82ª Divisão Aerotransportada para o Oriente Médio. Os planejadores americanos sabem, ainda, que o maior risco imediato dentro da ilha não seria o fogo iraniano: seria encontrar cargas de demolição instaladas pela Guarda Revolucionária Iraniana para destruir a infraestrutura petrolífera caso a ilha caísse.
A equação que vai além da capacidade militar
Existe uma camada do debate que raramente aparece nas análises táticas.
Mesmo que os Estados Unidos capturem Kharg com sucesso e mantenham a infraestrutura intacta, o Irã controla o fluxo de petróleo que chega à ilha pelos dutos do continente. Tomar o terminal sem controlar a produção é como confiscar uma torneira sem ter acesso ao cano. Teerã já demonstrou essa resiliência durante a guerra com o Iraque nos anos 1980, quando, com a ilha bombardeada repetidamente entre 1984 e 1988, o regime criou rotas alternativas e continuou exportando — porque ainda tinha compradores.
É por isso que qualquer operação em Kharg precisaria de um componente paralelo: pressão sobre a China para que pare de comprar o petróleo iraniano. Com Pequim absorvendo quase a totalidade das exportações da ilha, fechar ou abrir o duto não resolve nada para Teerã se não houver compradores. Pressão militar na ilha, pressão diplomática sobre quem compra — as duas alavancas precisariam funcionar ao mesmo tempo.
Toda administração americana desde Jimmy Carter olhou para Kharg e escolheu não cruzar essa linha. O ataque de março de 2026 foi o primeiro passo além dessa fronteira. O segundo passo — colocar soldados no solo — ainda não foi dado. Mas dois grupos de assalto anfíbio e uma divisão aerotransportada estão a caminho da região. E a ilha continua lá, com petroleiros atracados e petróleo fluindo, esperando que alguém decida o que fazer com ela.
Fontes consultadas:
Axios, CNN, CNN, CNBC, Al Jazeera, Poder360, BBC, Military Times, Britannica, Christian Science Monitor
