A França respondeu às ameaças nucleares de Vladimir Putin espalhando a sua dissuasão pela Europa. Dez países já participam da iniciativa francesa, que prevê caças Rafale com armas nucleares operando a partir de bases aliadas, e o motivo é mais prático do que político: bases espalhadas são muito mais difíceis de destruir num primeiro ataque.

Resumo rápido:

  • 6 de outubro: a França testou o míssil nuclear M51.3 a partir de um submarino, na costa da Bretanha
  • 10 países europeus fazem parte da iniciativa francesa de dissuasão avançada
  • A ordem de usar a arma nuclear continua só com o presidente da França
  • 20 e 21 de outubro: caças britânicos escoltaram Rafale num exercício nuclear francês pela primeira vez
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O teste de 6 de outubro foi um disparo de certificação do submarino Le Vigilant depois de uma grande manutenção, sem ogiva, segundo a Reuters. Emmanuel Macron acompanhou do convés de uma fragata e disse que a mensagem foi "enviada alto e claro para onde precisar ser recebida", sem citar a Rússia, de acordo com a Baird Maritime. Dias antes, Putin tinha avisado o Ocidente para não ameaçar Kaliningrado, o enclave russo entre a Polônia e a Lituânia, que a Rússia diz que defenderia com armas nucleares.

Como a França espalhou a dissuasão pela Europa

A virada começou em 2 de março, na base de submarinos da Ilha Longa. Macron anunciou que caças Rafale B capazes de levar armas nucleares passariam a se revezar por bases europeias, num "arquipélago de forças", e que o estoque francês, de cerca de 290 ogivas, vai crescer, segundo a The Aviationist. Os aliados entram com alerta antecipado, defesa aérea e mísseis de longo alcance. A França entra com a bomba.

Na primeira lista estavam o Reino Unido, a Alemanha, a Polônia, a Holanda, a Bélgica, a Grécia, a Suécia e a Dinamarca. Em setembro, a Finlândia virou o décimo país da iniciativa, o que permite participar de exercícios e de eventuais desdobramentos temporários de aviões franceses, conforme a Stars and Stripes.

Caça Rafale B da Força Aérea Francesa, modelo biposto que leva a arma nuclear. Foto: Laurent Errera / Wikimedia Commons (CC B
Caça Rafale B da Força Aérea Francesa, modelo biposto que leva a arma nuclear. Foto: Laurent Errera / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Em julho, a parte prática começou. Caças franceses foram deslocados para a base alemã de Nörvenich, descrita na declaração final dos dois governos como o primeiro passo operacional da cooperação, e o chanceler Friedrich Merz confirmou que militares alemães vão participar de um exercício nuclear francês ainda em 2026, de acordo com a Berliner Zeitung. A participação alemã é só com forças convencionais.

Em 20 e 21 de outubro, caças Typhoon da Força Aérea britânica escoltaram Rafale franceses num ataque nuclear simulado sobre o Mediterrâneo, o exercício Rummy. É a primeira vez que aviões britânicos entram num treino nuclear francês, segundo a The Aviationist. O Typhoon não carrega arma nuclear: o papel dele foi proteger os aviões de ataque.

Quem decide o disparo?

Só o presidente da França. O avião é francês, o piloto é francês, o míssil é francês e a ordem também. Isso diferencia o plano do esquema dos Estados Unidos, em que bombas americanas ficam guardadas em países aliados e os códigos ficam com os Estados Unidos. Os aliados da França não ganham, portanto, uma garantia formal de proteção, e sim uma participação no planejamento e nos treinos.

Submarino nuclear Le Terrible, da mesma classe do Le Vigilant, na saída do porto de Brest. Foto: Wmeinhart / Wikimedia Common
Submarino nuclear Le Terrible, da mesma classe do Le Vigilant, na saída do porto de Brest. Foto: Wmeinhart / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Por que isso pressiona a Rússia?

A Rússia tem mais de 5.000 ogivas, segundo estimativas, contra cerca de 290 da França, e a diferença parece imensa. Mas dissuasão não depende de ter mais armas do que o outro, e sim de conseguir atingir o que ele mais valoriza. A França mantém ao menos um submarino nuclear sempre no mar, e agora também pode levar aviões a bases em vários países, o que complica qualquer plano russo de destruí-los no chão antes da decolagem.

Até aqui, quem planejava um ataque a um país da OTAN calculava sobretudo a reação dos Estados Unidos. Agora a conta inclui também a França e a Grã-Bretanha, e a dúvida a mais pesa contra quem ameaça. O governo russo reagiu dizendo que problemas devem ser resolvidos "pelo diálogo, e não por lançamentos demonstrativos de mísseis", como relatou a Reuters pela Baird Maritime.

O que vem agora

O vizinho mais exposto já se mexe. Em 6 de outubro, o Parlamento da Lituânia aprovou por 106 votos a 18, com 6 abstenções, o primeiro passo para tirar da Constituição a proibição de armas de destruição em massa, segundo o LRT. Falta uma segunda votação, marcada para 12 de janeiro de 2027, e o presidente do Parlamento disse que o país não pretende abrigar armas nucleares em tempo de paz.

A pergunta que fica é se a bomba francesa realmente afasta a guerra. Para a lógica da dissuasão, sim: quanto mais incerto o resultado de um ataque, menor o incentivo para tentá-lo. O plano ainda é jovem, depende de aliados que cumpram a parte deles e terá de sobreviver à eleição presidencial francesa de 2027.