Após décadas de fragilidade militar e dependência do gás russo, Berlim acelera sua maior transformação de defesa desde a Segunda Guerra Mundial — e a invasão da Ucrânia foi o ponto de virada.
Durante anos, a Alemanha foi vista como o gigante econômico da Europa, mas não como seu grande poder militar. O país que liderava a indústria, exportava carros para o mundo e financiava boa parte do projeto europeu mantinha suas Forças Armadas em estado de abandono, com equipamentos envelhecidos, baixa prontidão e uma cultura política marcada pela aversão ao uso da força.
Essa imagem começou a ruir depois da invasão russa da Ucrânia. E, ironicamente, o principal responsável por essa mudança foi Vladimir Putin.
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Antes da guerra, os sinais de fragilidade militar alemã já eram difíceis de ignorar. Em 2015, veio à tona que soldados alemães haviam usado cabos de vassoura pintados de preto para simular metralhadoras em veículos blindados durante um exercício da OTAN. Pouco antes da invasão total da Ucrânia, em janeiro de 2022, Berlim ofereceu cinco mil capacetes a Kiev, uma ajuda que o prefeito da capital ucraniana, Vitali Klitschko, classificou como uma “piada”.
A cena simbolizava uma Alemanha que, por décadas, preferiu acreditar que comércio, diplomacia e gás russo seriam suficientes para manter a paz. Essa aposta acabou em vinte e quatro de fevereiro de dois mil e vinte e dois, quando tropas russas cruzaram a fronteira ucraniana e forçaram Berlim a encarar uma pergunta que o país vinha evitando desde o fim da Guerra Fria: e se a Europa precisasse se defender de verdade?
A virada de época
Três dias depois da invasão, o então chanceler Olaf Scholz anunciou no Parlamento alemão um fundo especial de cem bilhões de euros para modernizar a Bundeswehr, as Forças Armadas da Alemanha. Ele chamou aquele momento de Zeitenwende, expressão alemã que significa uma “virada de época”.
Não era apenas uma frase de efeito. Era uma ruptura histórica.
Depois de décadas gastando abaixo da meta de dois por cento do PIB definida pela OTAN, a Alemanha passou a tratar defesa como prioridade estratégica. Em 2024, segundo o Ministério da Defesa alemão, o país finalmente atingiu a meta de dois por cento.
A mudança se acelerou ainda mais com Friedrich Merz. Em 2025, o Parlamento aprovou uma reforma das regras fiscais alemãs, abrindo espaço para um aumento muito maior dos gastos militares. A mudança flexibilizou o chamado “freio da dívida” para despesas de defesa acima de um por cento do PIB, dando ao governo margem para financiar uma expansão militar que antes seria politicamente quase impensável.
Do pacifismo ao F-35
Um dos símbolos mais fortes dessa transformação está no céu.
A Alemanha decidiu comprar caças F-35 dos Estados Unidos para substituir parte de sua frota de Tornado, aeronaves antigas da Guerra Fria. O F-35 terá papel central dentro do arranjo de compartilhamento nuclear da OTAN, no qual armas nucleares americanas permanecem em território europeu e podem ser empregadas por aliados sob regras da aliança.

A decisão é politicamente sensível. A Alemanha, marcada pela memória da Segunda Guerra Mundial, passou décadas tentando limitar sua imagem como potência militar. Agora, porém, moderniza sua aviação de combate justamente no momento em que a Europa discute como se defender com menos dependência dos Estados Unidos.
Esse é o ponto central da virada alemã: não se trata apenas de comprar equipamentos. Trata-se de abandonar a ideia de que a Alemanha poderia ser rica, influente e, ao mesmo tempo, militarmente secundária para sempre.
A indústria de defesa voltou ao centro
A mudança também aparece na economia. A Rheinmetall, uma das principais empresas alemãs de defesa e munições, tornou-se um dos grandes símbolos dessa nova fase. Em março de 2025, seu valor de mercado superou o da Volkswagen, algo impensável em uma Alemanha que durante décadas teve orgulho de ser reconhecida por carros, máquinas e engenharia civil — não por tanques e artilharia.
Esse detalhe mostra uma mudança mais profunda na mentalidade do país. O setor de defesa, antes tratado com constrangimento, passou a ser visto como parte essencial da segurança nacional e da sobrevivência da Europa.
Não por acaso, a própria Rheinmetall virou alvo. Em 2024, serviços de inteligência dos Estados Unidos alertaram a Alemanha sobre um suposto plano russo para assassinar Armin Papperger, CEO da empresa. O caso foi interpretado por autoridades ocidentais como parte de uma campanha mais ampla de intimidação e sabotagem contra a indústria europeia que abastece a Ucrânia.
A nova frente: sabotagem, drones e guerra híbrida
O rearmamento alemão acontece em meio a uma guerra que já não se limita ao campo de batalha ucraniano. Autoridades europeias vêm alertando para uma escalada de operações híbridas atribuídas à Rússia, incluindo espionagem, sabotagem, ataques incendiários, drones sobre áreas sensíveis e ações contra infraestrutura crítica.
Na Alemanha, um relatório do Escritório Federal de Polícia Criminal registrou 321 casos suspeitos de sabotagem em 2025, alguns deles ligados a possível interferência russa, segundo veículos que tiveram acesso ao documento.
Para Berlim, isso reforça a percepção de que a guerra na Ucrânia não é apenas uma guerra “lá longe”. Ela se tornou um teste direto para a segurança europeia.
Soldados alemães voltam ao Leste Europeu
Talvez o movimento mais simbólico de todos esteja na Lituânia.
Em abril de 2025, a Alemanha ativou a 45ª Brigada Blindada em território lituano. A unidade deve chegar a cerca de cinco mil militares e civis, com capacidade operacional plena prevista para 2027. Segundo a própria Bundeswehr, trata-se da primeira vez na história moderna da força que uma brigada inteira será estacionada permanentemente fora do território alemão.

O peso histórico é enorme. Oito décadas depois da Segunda Guerra Mundial, soldados alemães estão novamente no Leste Europeu — desta vez não como invasores, mas como parte da defesa da OTAN diante da pressão russa.
Para os países bálticos, isso é uma garantia concreta. Para Moscou, é um sinal de que a Alemanha deixou de ser apenas um financiador distante da segurança europeia e passou a colocar tropas onde o risco é real.
O relógio de 2029
A grande pergunta agora é se a Alemanha conseguirá se transformar rápido o suficiente.
O próprio governo alemão trabalha com uma meta ambiciosa: construir a força convencional mais forte da Europa. Em 2026, Berlim reafirmou o objetivo de chegar a uma força total de 460 mil pessoas, somando militares ativos e reservistas.
O recrutamento também começa a reagir. No primeiro trimestre de 2026, as candidaturas para a Bundeswehr cresceram cerca de vinte por cento em relação ao mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo, a Alemanha aprovou um novo modelo de serviço militar que mantém o alistamento voluntário, mas introduz registro obrigatório para jovens homens e deixa aberta a possibilidade de medidas mais duras se o número de voluntários não for suficiente.
O prazo que preocupa os estrategistas é 2029. Autoridades alemãs e analistas de segurança têm alertado que, até o fim da década, a Rússia poderá ter reconstruído parte significativa de sua capacidade militar convencional após as perdas sofridas na Ucrânia. Por isso, Berlim corre contra o tempo.
O erro de cálculo de Putin
Quando invadiu a Ucrânia, Putin apostou que o Ocidente estava dividido, cansado e dependente demais da energia russa para reagir com força. Em parte, ele conhecia bem as fraquezas europeias. A Alemanha era o melhor exemplo disso: rica, poderosa, mas militarmente hesitante.
O problema é que a invasão produziu o efeito oposto ao esperado.
Em vez de paralisar a Europa, a guerra empurrou a Alemanha para uma transformação que parecia impossível poucos anos atrás. O país que oferecia capacetes a Kiev agora compra caças de quinta geração, amplia seu orçamento militar, fortalece sua indústria de defesa, envia uma brigada permanente ao flanco leste da OTAN e discute novamente como formar centenas de milhares de militares e reservistas.
A Alemanha ainda não está pronta. Sua burocracia é lenta, sua cultura estratégica ainda está em transição e suas Forças Armadas precisam resolver décadas de negligência. Mas a direção mudou.
E essa talvez seja a consequência mais inesperada da guerra: Putin queria uma Europa intimidada. Em vez disso, ajudou a acordar o país que, por muito tempo, parecia decidido a nunca mais pensar como uma potência militar.

