Os Estados Unidos estão negociando com a Ucrânia a concessão de uma licença para produzir sistemas Patriot e seus mísseis interceptadores. A confirmação veio do secretário de Estado americano, Marco Rubio, em entrevista ao programa de rádio The Brian Kilmeade Show em 2 de setembro. Questionado sobre o pedido ucraniano, ele foi direto: “Isso está sendo negociado neste exato momento”.
Resumo rápido:
- Em 2 de setembro de 2026, Rubio confirmou que a licença de produção do Patriot está em negociação com a Ucrânia.
- A Ucrânia deve receber 264 interceptadores PAC-2 e PAC-3 ao longo de todo o ano de 2026, cerca de 22 por mês.
- Em meses de campanha russa intensa, a defesa aérea ucraniana chega a gastar entre 150 e 180 interceptadores.
É a primeira vez que um integrante do primeiro escalão americano descreve a licença como uma negociação formal em andamento, e não como uma intenção. A diferença importa porque o assunto vinha se arrastando desde o meio do ano.
Da promessa verbal à mesa de negociação
A largada foi em 8 de julho, na cúpula da OTAN em Ancara. Donald Trump anunciou ali que a Ucrânia ganharia o direito de fabricar os interceptadores. “Vamos dar a eles o direito de fabricar Patriots. Vamos mostrar como se faz”, disse o presidente americano, que classificou o sistema como uma arma defensiva e admitiu ainda não ter avisado os fabricantes sobre a decisão.
Duas semanas depois, em 23 de julho, o governo ucraniano fechou um acordo com a Raytheon para produção conjunta dos interceptadores, costurado em conversas com o vice-presidente da empresa, Joseph DeAntona. O alvo inicial é a montagem licenciada do PAC-2 GEM-T, possivelmente com parte da linha instalada em território europeu. O que faltava era exatamente a peça que Rubio agora confirma estar sobre a mesa: a licença formal do governo americano, sem a qual nenhum desenho, componente classificado ou motor de foguete sai do lugar.
A conta que explica a pressa
Os números deixam claro por que a Ucrânia trocou o pedido de mais entregas pelo pedido de uma fábrica. O país deve receber 264 mísseis PAC-2 e PAC-3 ao longo de 2026, o equivalente a 22 por mês. O consumo em rotina normal fica entre 60 e 70 interceptadores mensais e sobe para a faixa de 150 a 180 quando a Rússia concentra ataques.

Do outro lado, a indústria russa entrega cerca de 100 mísseis balísticos por mês, entre 9M723 do Iskander, RM-48U adaptados de sistemas S-300 e S-400 e mais 10 a 20 armas aerobalísticas e hipersônicas, essas últimas alcançáveis basicamente pelo Patriot. Como derrubar um único míssil russo pode exigir de dois a três interceptadores e meio, o cálculo se fecha sozinho: com o ritmo atual de entregas, a defesa consegue cobrir perto de 20% do que a Rússia dispara.
A escassez não é um problema só ucraniano. Os Estados Unidos produzem pouco mais de 600 interceptadores PAC-3 por ano, e a Lockheed Martin calcula que levar essa linha para 2 mil unidades anuais exige cerca de três anos. Rubio resumiu a disputa dizendo que o interceptador virou a principal necessidade de defesa do planeta, com vários países na fila ao mesmo tempo.
O que a licença muda na guerra?
Ela ataca a raiz do problema em vez do sintoma. Hoje cada interceptador que chega à Ucrânia sai de um estoque aliado limitado e disputado por outros governos, o que dá à Rússia uma estratégia barata: gastar a munição da defesa até ela acabar. Com uma linha própria, o volume passa a depender da capacidade industrial ucraniana e europeia, e não da sobra de terceiros, e essa aposta russa no esgotamento deixa de funcionar.
Quando isso vira míssil de verdade
O próprio Rubio deu o horizonte: “Aumentar a produção, mesmo tendo uma licença, é algo que leva vários anos, é preciso construir essas fábricas”. Volodymyr Zelensky trabalha com a expectativa de que a Ucrânia tenha capacidade técnica de produzir mísseis para o Patriot até o fim de 2026. O contra-almirante reformado Mark Montgomery estima de 18 meses a três anos entre a licença e a produção efetiva. A analista Kateryna Bondar diz que especialistas ucranianos falam em prazo maior, de cinco a seis anos até o início da fabricação.
Enquanto a linha é montada, a defesa das cidades continua dependendo do que chega de fora. Kyiv passou por sete noites seguidas de bombardeio até 3 de setembro, com pelo menos 13 feridos no ataque da madrugada de 2 para 3. O governo ucraniano pediu aos Estados Unidos um pacote emergencial de interceptadores para o inverno, voltado a proteger a rede elétrica antes que o frio chegue.