Dona do sistema de inteligência artificial usado pelo Pentágono para escolher alvos em conflitos reais publicou um manifesto com 22 pontos. Fala em fim da era nuclear, rearmamento da Alemanha e do Japão e volta do serviço militar obrigatório nos EUA. O texto passou de 32 milhões de visualizações em poucos dias.
A bomba atômica está deixando de ser a arma mais importante do mundo. E o que vai ocupar o lugar dela é uma corrida global por inteligência artificial militar.
Não é teoria da conspiração. Não é ativista falando. Quem está fazendo essa previsão é a Palantir Technologies — a empresa americana que fornece o sistema de IA usado pelo Pentágono para escolher alvos em guerras reais. A tecnologia foi usada em operações americanas no Irã e no Iraque, e no suporte às forças ucranianas na guerra contra a Rússia.
No sábado, 18 de abril, o perfil oficial da Palantir no X publicou um texto com 22 pontos, chamado “A República Tecnológica, em resumo”. Em menos de uma semana, a publicação passou de 32 milhões de visualizações, segundo a revista Fortune. E virou uma das maiores polêmicas envolvendo uma empresa de tecnologia americana dos últimos anos.
Filósofos, economistas e parlamentares europeus estão acusando a empresa de defender abertamente um projeto autoritário. A companhia diz que é só um resumo do livro lançado em 2025 pelo seu CEO, Alex Karp, junto com o chefe de relações corporativas Nicholas W. Zamiska.
O problema é o que o texto está prevendo — e quem está prevendo.
As previsões que assustaram o mundo
A mais forte está no ponto 12: a era da bomba atômica está chegando ao fim. Segundo o manifesto, o equilíbrio de poder entre potências mundiais vai parar de ser medido pelo tamanho do arsenal nuclear e passar a ser medido pela capacidade de IA de cada país. Traduzindo: o país com a melhor inteligência artificial militar vai mandar no mundo.
A segunda previsão é direta no ponto 5. A pergunta, para a Palantir, não é mais se armas de IA vão ser construídas. É quem vai construí-las primeiro. Como se estivesse tudo decidido.
O terceiro bloco de previsões é geopolítico. O texto afirma que o desarmamento imposto à Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial foi exagerado. Que a Europa paga o preço por isso hoje. E que o pacifismo do Japão virou ameaça ao equilíbrio na Ásia. A sugestão implícita é clara: os dois países precisam se rearmar.
Tem ainda uma previsão doméstica. O ponto 6 diz que os Estados Unidos deveriam pensar em acabar com o exército totalmente voluntário e voltar a ter serviço militar obrigatório. O raciocínio: a próxima guerra deveria ser travada só se todo mundo compartilhasse o risco.
Os três últimos pontos do manifesto são os mais polêmicos. Criticam o que a empresa chama de intolerância da elite com a fé religiosa. Afirmam que algumas culturas produziram grandes avanços enquanto outras continuam “regressivas”. E atacam políticas de inclusão, questionando a ideia de pluralismo.
Por que essas previsões pesam tanto
A Palantir não é um app de rede social. É a espinha dorsal digital da máquina militar americana.
Fundada em 2003 por Peter Thiel, Alex Karp e outros três sócios, com investimento inicial da In-Q-Tel (o fundo de investimento da CIA), a empresa hoje opera o chamado Maven Smart System — que virou, em março de 2026, programa oficial e permanente do Pentágono, o que significa orçamento garantido pelos próximos anos, segundo a Reuters.

Os números do Maven impressionam. O sistema cruza mais de 150 fontes de informação ao mesmo tempo: imagens de satélite, vídeos de drones, radares, sensores, sinais de rádio, dados de localização. O vice-almirante Frank Whitworth, diretor da agência americana que interpreta imagens de satélite para o governo, afirmou numa conferência da própria Palantir que o Maven gera mil sugestões de alvos militares por hora. Um corpo do Exército americano, o 18º Aerotransportado, teria conseguido com 20 pessoas o mesmo trabalho que exigia 2 mil na invasão do Iraque em 2003.
Então, quando essa empresa diz que a era nuclear acabou e que o mundo vai se equilibrar pela IA militar, não é um palpite aleatório. É a previsão feita pela companhia que está ajudando a construir esse futuro. E vendendo ele.
No dinheiro, a empresa nunca esteve tão bem. No último trimestre de 2025, a receita cresceu 70% e chegou a US$ 1,41 bilhão. A ação foi a que mais subiu no índice S&P 500 em 2024, com alta de cerca de 340%. E o CEO Alex Karp recebeu quase US$ 6,8 bilhões em 2024, considerando o valor real das ações da empresa em seu nome — o que o tornou o executivo mais bem pago dos Estados Unidos naquele ano.
A conexão com Trump
O momento da publicação não é por acaso.
A Palantir presta serviços à ICE, a polícia de imigração dos EUA, desde 2011. No ano passado, ganhou um contrato de US$ 30 milhões, sem concorrência, para construir o ImmigrationOS — uma plataforma de IA que identifica estrangeiros não documentados e rastreia deportações. Democratas no Congresso já pediram explicações sobre o uso dessa tecnologia.
A ligação política é direta. Peter Thiel, presidente do conselho da Palantir, apoia publicamente Donald Trump desde 2016 e é padrinho político do atual vice-presidente, JD Vance. Karp se descreve como democrata, mas diz que sairia do partido se a ala progressista assumisse, e se chama de “cético em relação à imigração”.
O que tudo isso significa
Separado, cada ponto do manifesto pode ser defendido como posição conservadora comum. Junto, os 22 itens desenham outra coisa: um projeto de país — e de mundo.
Os pilares desse projeto são claros. Mais gente obrigada a servir no exército. Mais armas controladas por IA. Alemanha e Japão voltando a se armar. Menos cobrança pública sobre políticos e bilionários. A ideia de que umas culturas são melhores que outras voltando a ser aceitável. E, no centro de tudo, as decisões mais importantes do mundo sendo tomadas por softwares que só algumas empresas sabem construir — e que quase ninguém consegue fiscalizar.
Se fosse o manifesto de uma empresa qualquer, seria só um texto esquisito na internet. Mas vindo da companhia que já escolhe os alvos dos militares americanos no Oriente Médio, é outra coisa. É uma empresa prevendo o futuro das guerras — e vendendo a ferramenta para fazer esse futuro acontecer.