A guerra na Ucrânia fez a Europa perceber que não podia depender para sempre dos Estados Unidos. Agora, a Alemanha tenta reconstruir sua força militar em ritmo acelerado.

A Alemanha está passando por uma das maiores mudanças militares desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Depois de décadas evitando grandes investimentos em defesa, o país voltou a tratar a produção de armas, munições e equipamentos militares como uma prioridade estratégica.

O principal símbolo dessa virada é a Rheinmetall, maior empresa de defesa da Alemanha. A companhia ampliou rapidamente sua capacidade de produzir munições, especialmente projéteis de artilharia de 155 milímetros — o tipo usado em muitos dos canhões enviados para a Ucrânia.

Segundo Armin Papperger, CEO da Rheinmetall, a Alemanha já teria mais capacidade instalada de produção de munição convencional do que os Estados Unidos. A frase é forte e precisa ser entendida com cuidado. Não significa que a Alemanha se tornou uma potência militar maior que os EUA. Também não significa que ela produz mais armas em todas as áreas. A comparação se refere principalmente à capacidade industrial de fabricar certos tipos de munição convencional.

Mesmo assim, a declaração mostra algo importante: a Europa está tentando depender menos dos americanos para garantir sua própria defesa.

A guerra na Ucrânia mudou tudo

Antes da invasão russa da Ucrânia, em 2022, muitos países europeus ainda pensavam a defesa com uma mentalidade do pós-Guerra Fria. A ideia era simples: guerras grandes na Europa pareciam improváveis, os estoques de munição podiam ser menores e, em caso de crise grave, os Estados Unidos estariam lá para liderar a resposta.

A guerra na Ucrânia destruiu essa ilusão.

O conflito mostrou que uma guerra moderna entre países pode consumir munição em quantidades enormes. Projéteis de artilharia, foguetes, drones, mísseis, veículos blindados e peças de reposição passaram a ser usados em ritmo muito maior do que muitos governos europeus imaginavam.

A Ucrânia recebeu grande quantidade de armamentos do Ocidente, mas isso também esvaziou estoques de vários países da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a OTAN. O problema ficou claro: não basta ter armas modernas. Em uma guerra longa, é preciso conseguir produzir munição todos os meses, em grande escala.

Foi nesse ponto que a Alemanha começou a mudar.

O salto da Rheinmetall

A Rheinmetall se tornou uma das empresas mais importantes desse novo momento europeu. A companhia já era conhecida por produzir veículos blindados, canhões, munições e sistemas militares. Mas, depois de 2022, ela passou a expandir sua produção em ritmo muito mais agressivo.

Um dos exemplos mais importantes é a nova fábrica de munições em Unterlüß, na Baixa Saxônia, região no norte da Alemanha. A unidade foi construída em cerca de 15 meses e recebeu investimento de aproximadamente 500 milhões de euros.

Projéteis de artilharia de 155 mm na fábrica de munições do Exército dos EUA em Scranton (Pensilvânia). Foto: Gabinete da Pre
Projéteis de artilharia de 155 mm na fábrica de munições do Exército dos EUA em Scranton (Pensilvânia). Foto: Gabinete da Presidência da Ucrânia (CC0 – domínio público)

Quando estiver em plena capacidade, a fábrica poderá produzir até 350 mil projéteis de artilharia por ano. A Rheinmetall afirma que, a partir de 2027, sua rede global poderá produzir cerca de 1,5 milhão de projéteis de artilharia por ano.

Esse número é importante porque a munição de artilharia se tornou uma das peças centrais da guerra na Ucrânia. Mesmo com drones e mísseis modernos, os canhões continuam sendo usados todos os dias. E, para funcionar, eles precisam de uma cadeia industrial capaz de fabricar projéteis, pólvora, espoletas, cargas e componentes em grande escala.

Por que isso desafia os Estados Unidos

Durante décadas, os Estados Unidos foram vistos como o grande arsenal do Ocidente. Isso continua sendo verdade em muitas áreas. Os americanos ainda têm a maior força militar da OTAN, a maior capacidade nuclear da aliança e uma indústria de defesa gigantesca.

Mas a guerra na Ucrânia revelou gargalos na produção americana de munições. O Exército dos EUA tem trabalhado para aumentar sua produção de projéteis de 155 milímetros para 100 mil unidades por mês, o que equivaleria a cerca de 1,2 milhão por ano.

A comparação chama atenção porque a Rheinmetall afirma que sua própria rede de produção poderá superar esse patamar. Na prática, isso mostra que a Alemanha e a Europa não querem mais ficar apenas esperando pela capacidade industrial americana. Elas querem construir sua própria base de produção.

Isso não representa uma ruptura com os Estados Unidos. A Alemanha continua sendo aliada dos americanos dentro da OTAN. Mas representa uma mudança de peso: a Europa está tentando assumir uma parte maior da responsabilidade por sua própria segurança.

O dinheiro também mudou de lado

Essa transformação industrial só foi possível porque a política alemã também mudou. Durante anos, a Alemanha manteve regras rígidas para limitar o endividamento público. Essa regra ficou conhecida como “freio da dívida”.

Na prática, ela dificultava grandes aumentos de gastos, inclusive na área militar. Mas a guerra na Ucrânia e o medo de uma Rússia mais agressiva mudaram o debate interno.

Em 2025, o Parlamento alemão aprovou mudanças que abriram espaço para gastos muito maiores em defesa e segurança. Ao mesmo tempo, o país avançou com um fundo de 500 bilhões de euros para infraestrutura.

Essa mudança é histórica porque a Alemanha sempre teve muito cuidado com gastos militares, por razões econômicas, políticas e históricas. Agora, porém, o país parece ter concluído que não pode continuar com uma força militar subfinanciada enquanto a segurança da Europa está sob pressão.

A Europa tenta se rearmar

A Alemanha não está sozinha nesse movimento. A União Europeia também lançou o plano ReArm Europe, depois ligado à estratégia Readiness 2030. A ideia é mobilizar cerca de 800 bilhões de euros para fortalecer a defesa europeia.

O plano inclui mais flexibilidade para gastos militares e um instrumento de empréstimos chamado SAFE, que pode liberar até 150 bilhões de euros para compras conjuntas de defesa.

O objetivo é simples: fazer com que os países europeus comprem mais equipamentos, produzam mais dentro da Europa e dependam menos de fornecedores externos em áreas consideradas críticas.

Isso inclui munições, defesa aérea, drones, cibersegurança, mísseis e outros sistemas importantes para uma guerra moderna.

Ainda existem grandes limites

Apesar desse avanço, a Europa ainda está longe de ser totalmente independente na área militar. Produzir mais munição é essencial, mas não resolve tudo.

Os países europeus ainda dependem dos Estados Unidos em várias capacidades estratégicas. Entre elas estão inteligência militar, satélites, aviões de reabastecimento, transporte pesado, comando e controle, defesa antimísseis e dissuasão nuclear.

Dentro da União Europeia, apenas a França possui armas nucleares. O Reino Unido também é uma potência nuclear europeia, mas não faz mais parte da União Europeia. Isso significa que, mesmo com mais fábricas e mais munição, a Europa ainda depende bastante da estrutura militar americana para enfrentar ameaças maiores.

Também existem gargalos industriais. Produzir munição em grande escala exige matéria-prima, energia, trabalhadores qualificados, máquinas especiais e contratos de longo prazo. Não é algo que se constrói do dia para a noite.

Uma mudança histórica

O avanço da Rheinmetall não significa que a Alemanha se tornou a nova líder militar do Ocidente. Mas significa que algo profundo mudou.

Durante muito tempo, a Europa se acostumou a viver sob a proteção americana. Os países europeus investiam menos em defesa e deixavam grande parte do peso estratégico para os Estados Unidos.

A guerra na Ucrânia mostrou que esse modelo ficou arriscado. Se os Estados Unidos mudarem de prioridade, reduzirem apoio ou enfrentarem uma crise em outra região do mundo, a Europa precisa ter mais capacidade própria.

É por isso que a expansão da indústria alemã de defesa importa tanto. Ela não é apenas uma história sobre fábricas e munições. É um sinal de que a Europa está entrando em uma nova fase.

A Alemanha, que durante décadas evitou assumir um papel militar mais forte, agora está reconstruindo sua capacidade industrial de defesa. E faz isso em um momento em que a segurança europeia voltou a depender de algo muito concreto: fábricas, trabalhadores, aço, pólvora e dinheiro.

A mensagem é clara. A Europa ainda precisa dos Estados Unidos, mas já não quer depender apenas deles.

Referências