A Wildberries, maior varejista on-line da Rússia, está construindo 260 mil metros quadrados de armazéns no Cazaquistão. O anúncio foi feito nesta terça-feira, 4 de agosto, pelo ministro do Comércio e Integração cazaque, Arman Shakkaliyev: são 160 mil metros quadrados em Almaty e outros 100 mil em Astana, com entrada em operação prevista para o primeiro trimestre de 2027. A obra avança enquanto uma campanha de ataques de drones ucranianos queima os galpões da empresa dentro da Rússia.
O que as imagens de satélite mostram
As fotos que circulam junto com o anúncio são do complexo logístico de Novosemeykino, na região de Samara, a cerca de 800 quilômetros da linha de frente. Publicadas pela Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade a partir de imagens da Planet Labs, elas comparam três datas. Em 29 de julho, aparece o telhado inteiro do galpão e as filas de caminhões no pátio. Em 2 de agosto, no lugar do telhado há uma mancha preta e uma coluna de fumaça que atravessa o bairro vizinho. Em 3 de agosto, sobraram as paredes externas e o esqueleto interno do prédio, ainda fumegando.
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O que está confirmado
Os números do Cazaquistão saíram da coletiva do ministro Shakkaliyev em Astana, e a agência turca Anadolu registrou a fala. O post original inverteu as duas cidades: o galpão maior, de 160 mil metros quadrados, é o de Almaty, e o de Astana tem 100 mil. A empresa já aluga cerca de 46 mil metros quadrados de área de armazenagem no país.
O ataque em Samara também está apurado. A Reuters confirmou a localização do vídeo do incêndio ao cruzar prédios, árvores e traçado das ruas com imagens de arquivo, e o sistema de detecção de incêndios da NASA registrou atividade térmica no ponto do armazém em 2 de agosto. O complexo tem 178,6 mil metros quadrados e funciona como principal centro de distribuição para a região do Volga. O governador de Samara disse que não houve vítimas no galpão.
Já a manchete da mudança de país não se sustenta. O Ministério do Comércio e Integração do Cazaquistão afirmou que não recebeu nenhum pedido oficial da Wildberries sobre instalar armazéns adicionais no país, que analisará eventuais propostas pelo volume de investimento e pelos empregos gerados, e que nenhuma condição especial foi oferecida. O plano de transferir estoque para o país vizinho foi noticiado pelo jornal russo Kommersant e não teve confirmação da empresa.
Doze ataques em três semanas
A campanha ucraniana contra a rede logística da varejista começou em 18 de julho, com o galpão de Elektrostal, na região de Moscou. Desde então foram atingidos depósitos na região de Tambov, na Crimeia ocupada, nos arredores de São Petersburgo, na região de Vladimir e agora em Samara, num total de cerca de doze ataques. Em 23 de julho, o Kommersant já calculava que 10% dos centros logísticos da companhia tinham sido danificados. A Euronews contabiliza pelo menos oito mortos nesses ataques.
Por que a Ucrânia escolheu um site de compras
A Wildberries responde por até 10% de todo o varejo russo e é a porta de entrada de material que termina no campo de batalha. Até os ataques de julho, o site mantinha uma vitrine chamada “Tudo para a Operação Militar Especial”, com mais de 200 mil anúncios, incluindo coletes à prova de balas, capacetes táticos, rádios, cabos de fibra óptica para drones e componentes avulsos. A Ucrânia sustenta que os galpões guardam peças sancionadas usadas na produção de drones e em equipamentos de navegação.
A ligação existe, mas tem tamanho. O veículo russo independente Meduza rastreou os pedidos de grupos de voluntários que abastecem soldados russos e encontrou 1.882 anúncios distintos da Wildberries, dos quais 333 eram material médico, somando cerca de 18,6 milhões de rublos. É um valor pequeno diante do gasto militar russo, e a apuração não achou indício de que a empresa faça parte da cadeia oficial de compras do Ministério da Defesa da Rússia. O abastecimento passa pelos voluntários, não por contrato estatal. Os termos de uso da própria plataforma proíbem a venda de equipamento militar, regra que a empresa nunca aplicou. Depois que os drones começaram a chegar, o site parou de exibir esses produtos nas buscas por termos ligados à guerra.
O problema que o Cazaquistão herda
Levar esse estoque para fora do alcance dos drones ucranianos resolve um problema e cria outro. O braço bancário da Wildberries foi sancionado pela União Europeia em julho pela contribuição da empresa ao orçamento do Estado russo, e a companhia e seus fundadores já estavam sob sanções ucranianas desde 2021. Se a varejista mantiver a venda de itens que acabam na frente de batalha, o governo cazaque passa a hospedar a logística de uma empresa sancionada, com os países ocidentais de olho. Os dois galpões ficam prontos no primeiro trimestre de 2027.