Um tenente russo de 26 anos passou meses dentro da própria brigada entregando à Ucrânia onde estavam os colegas, e a informação dele levou a ataques que mataram mais de 300 militares russos. Lev Stupnikov chefiava as comunicações de um batalhão da 36ª Brigada de Fuzileiros Motorizados da Guarda, na região de Donetsk, e tinha acesso a frequências de rádio, planos de avanço e posições de comando.
Resumo rápido:
- Lev Stupnikov, tenente russo de comunicações, passou dados à Ucrânia entre fevereiro e julho de 2024
- Primeiro ataque, em fevereiro de 2024: 68 mortos, 10 deles oficiais, incluindo o comandante da brigada
- Wall Street Journal: mais de 300 militares russos mortos; a emissora russa RT fala em mais de 200
- Ele cruzou a linha de frente em 6 de julho de 2024 e hoje serve ao lado da Ucrânia
Como um oficial de comunicações virou espião
Stupnikov queria ser piloto, mas foi barrado no exame médico depois de se recusar a pagar propina, e acabou numa academia militar de comunicações. Segundo o relato do Meduza sobre a reportagem do Wall Street Journal, ele decidiu, desde a invasão de 2022, que se entregaria à Ucrânia se fosse mandado ao front. A ordem veio em novembro de 2023.
O contato saiu de uma mensagem da mãe dele, em fevereiro de 2024, ao blogueiro ucraniano Dmytro Karpenko, que entrevista prisioneiros russos e trabalha perto da inteligência militar da Ucrânia. Stupnikov entrou na conversa e se ofereceu para trabalhar para os ucranianos. Combinou que continuaria no posto e que, um dia, seria retirado. Recusou qualquer pagamento. As mensagens começavam com um cumprimento e um número: o dia do mês mais 5, para Karpenko saber que ele não tinha sido pego.
Os ataques que ele ajudou a provocar
O primeiro grande golpe, em fevereiro de 2024, atingiu soldados enfileirados num campo de treinamento. Os foguetes Himars mataram 68 pessoas e feriram cerca de 60, entre elas 10 oficiais e o coronel Gusein Musayev, comandante da brigada, segundo o Nasha Niva. Stupnikov escapou porque tinha avisado a Ucrânia e se afastou do campo com a desculpa de que precisava ir ao banheiro.

Depois vieram outros alvos. Em março, uma reunião de oficiais da brigada. Em maio, um antigo hotel onde duas unidades de assalto estavam abrigadas: cerca de 20 soldados morreram, entre eles um capitão. Ele também desligou câmeras que vigiavam a linha ucraniana e mexeu nos controles dos drones russos, e passou a localização de veículos de guerra eletrônica que protegiam a brigada contra drones, segundo o relato de Stupnikov.
O número total varia conforme a fonte. O Wall Street Journal fala em mais de 300 militares russos mortos. A emissora estatal russa RT, que ouviu militares do país, citou mais de 200. Boa parte dos números sai do que o próprio Stupnikov contou, e não de uma contagem independente.
Como ele escapou
A brigada percebeu que havia um traidor, mas não sabia quem era. Em maio, ao mandar a localização de um novo quartel-general, Stupnikov enviou por engano a posição do porão em que ele próprio estava, e o local foi atingido. Ele sobreviveu e passou a insistir na retirada.
Na noite de 6 de julho de 2024, saiu da vila com um celular e um rádio, atravessou cerca de 40 minutos de terreno minado guiado por um drone ucraniano e chegou às linhas da Ucrânia, segundo o Nasha Niva. No celular, segundo o relato dele, levava as senhas de uma dúzia de drones e câmeras russas. Hoje trabalha nas comunicações do Corpo de Voluntários Russos, unidade de russos que lutam ao lado da Ucrânia.
O que isso mostra sobre o exército russo?
Um oficial com acesso a rádio, drones e planos de ataque pode causar mais dano por dentro do que muita artilharia inimiga. A brigada passou a desconfiar de todos os oficiais, e Stupnikov acabou como o único ileso do grupo que chegou com ele em novembro de 2023.
A Rússia o procura por traição, e as forças especiais chechenas anunciaram uma caçada a ele, segundo o Meduza. A emissora RT entrevistou parentes de soldados mortos, e a mulher dele diz que não deixará o país. Stupnikov afirma que não houve traição: jurou defender a liberdade e a ordem constitucional, e diz que quem as destruiu foi Vladimir Putin.
