Em um discurso transmitido em horário nobre no dia 1 de abril de 2026, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu atingir o Irã “com força extrema” nas próximas duas a três semanas e ameaçou destruir todas as usinas elétricas do país caso não haja um acordo de paz. Ao mesmo tempo em que declarou que os objetivos militares estão “quase cumpridos”, Trump sinalizou uma escalada do conflito que contradiz sua própria narrativa de que a guerra está chegando ao fim.
Há 33 dias, os Estados Unidos e Israel iniciaram a Operação Epic Fury contra o Irã. Desde então, a marinha iraniana foi destruída, a força aérea foi gravemente danificada e o líder supremo Ali Khamenei foi morto junto com boa parte da cúpula do regime. No campo de batalha, os resultados americanos são expressivos.
Mas na noite desta quarta-feira, 1 de abril de 2026, Trump fez seu primeiro discurso formal à nação desde o início do conflito. E o que ele disse surpreendeu: ao mesmo tempo em que anunciou que os objetivos estão “quase cumpridos”, prometeu que os ataques mais intensos ainda estão por vir.
O discurso que prometeu mais guerra ao falar em vitória
O pronunciamento durou menos de 20 minutos e foi transmitido da Casa Branca. Em tom triunfalista, Trump afirmou que as Forças Armadas americanas entregaram “vitórias rápidas, decisivas e esmagadoras”. Mas foi o que ele disse a seguir que chamou atenção de analistas e mercados financeiros ao redor do mundo.
“Vamos atacá-los com força extrema nas próximas duas a três semanas. Vamos levá-los de volta à Idade da Pedra, onde eles pertencem”, declarou Trump. Além disso, ele ameaçou bombardear todas as usinas elétricas do Irã ao mesmo tempo caso não haja acordo de paz dentro desse prazo, e não descartou atacar também as instalações petrolíferas do país.

Para analistas ouvidos pela Al Jazeera, o discurso não trouxe nenhuma novidade real. “Não detectei nada novo. Foi essencialmente um resumo de tudo o que ele disse nos últimos 30 dias”, avaliou Trita Parsi, do Instituto Quincy. Segundo ele, o pronunciamento revelou justamente o que Trump não tem: um plano claro de saída.
O que os Estados Unidos destruíram até agora
Do ponto de vista estritamente militar, os resultados americanos são concretos. Segundo dados divulgados pelo Comando Central dos Estados Unidos (Centcom), a marinha iraniana foi efetivamente destruída, a força aérea está em ruínas e a capacidade de lançar mísseis e drones foi dramaticamente reduzida. O líder supremo Ali Khamenei e grande parte da cúpula do regime foram mortos durante a operação.
No lugar de Khamenei, assumiu o poder seu filho, Mojtaba Khamenei, sinalizando que o regime teocrático continua no controle, apenas com novos rostos. Trump tentou apresentar isso como uma mudança positiva, citando Mohammad Baqer Qalibaf, presidente do Parlamento iraniano, como exemplo de liderança “mais moderada e razoável”. O problema é que Qalibaf é um ex-comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, o grupo militar de elite do regime, e supervisionou pessoalmente a repressão violenta a protestos estudantis quando era chefe de polícia de Teerã. De moderado, ele não tem nada.
Os planos das próximas semanas e por que assustam
A ameaça de destruir a rede elétrica do Irã não é retórica vazia. O país tem mais de 85 milhões de habitantes, e desligar todas as suas usinas de energia ao mesmo tempo seria uma ação com consequências humanitárias e estratégicas enormes.
Além do impacto humano, há um risco estratégico importante: o Irã poderia responder com ataques contra as centrais elétricas e de dessalinização de países árabes vizinhos, que são aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. Segundo a CBS News, centenas de forças especiais americanas e milhares de fuzileiros navais e paraquedistas já estão posicionados no Oriente Médio, com capacidade para realizar operações terrestres caso Trump decida expandir a guerra. Essa possibilidade não foi descartada no discurso.
Logo após o pronunciamento, o Irã lançou um novo ataque de mísseis contra Israel, e seu comando militar prometeu ataques “mais devastadores e de maior alcance”, segundo a Time. O preço do barril de petróleo tipo Brent, referência global, subiu para mais de 105 dólares após o discurso. Antes da guerra, o barril custava cerca de 70 dólares.
As três perguntas que Trump não respondeu
O discurso deixou três questões críticas sem resposta, e cada uma delas pode definir o rumo do conflito.
A primeira é o Estreito de Ormuz. Essa é uma passagem de água estreita localizada entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo e aproximadamente um terço dos insumos globais de fertilizantes. O Irã bloqueou esse estreito desde o início do conflito, derrubando o abastecimento global de energia e fazendo o preço da gasolina nos Estados Unidos ultrapassar 4 dólares por galão, a marca mais alta em quase quatro anos. Trump disse que os países dependentes do estreito deveriam abri-lo por conta própria, lavando as mãos de uma responsabilidade central da guerra que ele mesmo iniciou.
A segunda é o urânio enriquecido. O Irã possui cerca de meia tonelada de urânio enriquecido em níveis próximos ao necessário para fabricar uma bomba nuclear. Apesar de ter declarado que um dos objetivos centrais da guerra era impedir o Irã de obter armas nucleares, Trump afirmou horas antes do discurso que esse material está “tão fundo no subsolo” que ele não se preocupa mais com isso. Ou seja, o presidente americano diz ter garantido que o Irã nunca terá uma bomba, mas descartou a necessidade de apreender o único material que poderia ser usado para fabricá-la.
A terceira é a opinião pública. Segundo pesquisa Reuters/Ipsos divulgada dias antes do discurso, apenas 35% dos americanos aprovam os ataques ao Irã, enquanto 61% desaprovam. A aprovação geral de Trump caiu para 36%, o menor índice desde o início do segundo mandato. Escalar a guerra para um patamar ainda mais violento, com o bombardeio das usinas elétricas de um país com mais de 85 milhões de pessoas, dificilmente vai melhorar esses números.
O que esperar nas próximas semanas
Com base no discurso e no contexto da operação, o cenário mais provável inclui a intensificação dos bombardeios americanos, com foco não só nos sistemas de armas iranianos, mas também na capacidade industrial do país de reconstruir seu poderio militar. A ameaça contra a infraestrutura elétrica é real, mas representa um passo que ampliaria ainda mais o conflito em um momento em que a aprovação de Trump cai e a pressão econômica sobre os americanos cresce.
As negociações permanecem travadas. O Irã não aceitará os termos americanos enquanto estiver sendo bombardeado, e os Estados Unidos não vão parar de bombardear enquanto não houver um acordo. O CFR (Council on Foreign Relations), uma das mais respeitadas instituições de análise de política externa do mundo, destacou que o discurso de Trump fez “pouca menção à diplomacia” e não ofereceu nenhuma garantia sobre a reabertura do Estreito de Ormuz.
Trump pintou um quadro de vitória. Mas a realidade no terreno é de uma guerra sem estratégia de saída clara, com consequências econômicas globais graves e uma opinião pública americana cada vez mais hostil. O plano para as próximas semanas é exatamente o que o discurso tentou suavizar: mais extremo do que parece.
