A destruição das instalações nucleares iranianas em junho de 2025 não eliminou o material mais perigoso — e agora Washington enfrenta uma escolha sem boa saída.
Em junho de 2025, os Estados Unidos lançaram as maiores bombas convencionais já usadas em uma guerra contra instalações nucleares do Irã. O objetivo era simples de explicar: impedir que o Irã construísse uma bomba nuclear. As explosões foram enormes. As imagens de satélite mostraram crateras profundas. Os prédios foram destruídos.

Mas havia um problema. Destruir os prédios não é a mesma coisa que destruir o que estava guardado dentro deles.
Hoje, quase um ano depois, os Estados Unidos enfrentam uma situação incômoda: 441 quilogramas de urânio altamente enriquecido — material que pode ser usado para fabricar armas nucleares — continuam dentro do Irã, soterrados sob toneladas de escombros, e ninguém sabe exatamente onde estão. Para ter uma ideia da gravidade, o próprio governo americano calcula que essa quantidade seria suficiente para fabricar aproximadamente onze bombas nucleares.
O que é urânio enriquecido e por que ele é perigoso
Urânio é um minério encontrado na natureza. Por si só, ele não explode. Para se tornar perigoso, ele precisa passar por um processo chamado enriquecimento, que aumenta a concentração de uma parte específica do material, tornando-o capaz de liberar uma quantidade enorme de energia em uma reação em cadeia.
Existem diferentes níveis de enriquecimento. Usinas nucleares que geram eletricidade usam urânio enriquecido a cerca de 5%. O Irã estava enriquecendo o seu a 60% — um nível muito acima do necessário para qualquer uso pacífico, e a apenas alguns passos do nível de 90% necessário para fabricar uma arma nuclear. Com tecnologia e tempo, a distância entre 60% e uma bomba é menor do que parece.
O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) — o órgão da ONU responsável por fiscalizar programas nucleares no mundo — declarou em março deste ano que a maior parte desse estoque provavelmente ainda está dentro do Irã, especialmente na instalação de Isfahan. “A impressão que temos é que não foi movido”, disse Rafael Grossi, conforme reportado pelo PBS NewsHour.
Por que as bombas não resolveram o problema
Para entender o que aconteceu, é preciso conhecer a arma usada. O GBU-57, apelidado de “bunker buster” (algo como “destruidor de bunkers”), é uma bomba de 14 toneladas — o peso de dois elefantes africanos adultos — desenvolvida especificamente para destruir estruturas enterradas muito fundo no solo. É a maior bomba convencional do arsenal americano, tão pesada que só pode ser carregada por um tipo específico de avião: o bombardeiro furtivo B-2 Spirit. Os ataques de junho de 2025 foram a primeira vez na história que essa bomba foi usada em combate.

O problema é que algumas instalações iranianas foram construídas exatamente para resistir a esse tipo de ataque. Fordow, considerada a instalação nuclear mais protegida do Irã, fica enterrada a até 90 metros de profundidade dentro de uma montanha — o equivalente a um prédio de 30 andares abaixo do chão. Segundo análise publicada pela NPR, em rocha densa como a que cobre Fordow, o GBU-57 pode penetrar apenas cerca de 8 metros — muito menos do que os 60 metros que costuma alcançar em solo comum. Para tentar compensar, os americanos lançaram 12 bombas sobre Fordow em sequência, cada uma abrindo caminho para a próxima.
Os prédios e os equipamentos de enriquecimento foram destruídos. As entradas dos túneis foram seladas pelos escombros. Mas o urânio guardado lá dentro — armazenado em cilindros metálicos — pode ainda estar intacto, preso sob os destroços.
O debate que está acontecendo em Washington
Com o urânio fora do alcance de novos bombardeios e os inspetores internacionais sem acesso ao Irã desde o início do conflito, o governo Trump começou a discutir uma opção mais arriscada: enviar soldados para dentro do país para recuperar o material fisicamente.
Em março deste ano, o secretário de Estado Marco Rubio — o responsável pela diplomacia americana, equivalente ao nosso ministro das Relações Exteriores — foi questionado no Congresso sobre o assunto. Sua resposta, segundo o Axios, foi curta e direta: “Pessoas vão ter que ir lá buscar.”
A CNN ouviu sete fontes entre militares da ativa e ex-oficiais, e todas confirmaram que uma missão assim seria muito mais complexa do que parece. Não bastaria mandar um pequeno grupo de soldados de elite entrar, pegar os cilindros e sair — como nas cenas de filme. Seria necessário um contingente de dezenas ou centenas de militares para proteger a área, além de cientistas especializados em material nuclear e máquinas pesadas de construção para remover os escombros que cobrem o urânio. Tudo isso em território inimigo, durante semanas.
O ex-secretário de Defesa Mark Esper resumiu o problema em uma pergunta que ninguém ainda respondeu: como se transportam centenas de quilos de urânio dentro de uma zona de guerra?
O ex-comandante da OTAN — a aliança militar que reúne os Estados Unidos e países europeus — James Stavridis foi ainda mais direto ao Wall Street Journal: dependendo do que for encontrado e de onde estiver, essa poderia se tornar “a maior operação de forças especiais da história”.
Por que mandar soldados não é simples
Além de tudo isso, há um risco químico que pouca gente menciona. O urânio iraniano está armazenado na forma de um composto chamado hexafluoreto de urânio — basicamente, urânio misturado com flúor, em estado gasoso dentro de cilindros metálicos. Se esses cilindros estiverem danificados e entrarem em contato com umidade, o material reage e libera ácido fluorídrico, um gás extremamente tóxico, além de partículas radioativas. Qualquer vazamento colocaria em risco imediato os soldados e cientistas que estivessem no local, conforme alertou o Bulletin of the Atomic Scientists.
Há também o problema da distância. Isfahan, onde está a maior parte do urânio, fica centenas de quilômetros para dentro do território iraniano, longe do mar e de qualquer base americana na região. Não existe uma rota fácil de entrada ou saída. Qualquer operação dependeria de aviões para levar e trazer os soldados, o que exige controle total do espaço aéreo iraniano durante todo o período da missão.
O que está acontecendo agora
Mesmo sem uma decisão final, o Pentágono — o ministério da Defesa americano — já começou a movimentar tropas para a região. Cerca de 3.500 fuzileiros navais e paraquedistas estão sendo deslocados para perto do Irã, segundo o US Central Command, o comando militar americano responsável pelo Oriente Médio.
O próprio Trump, questionado sobre o assunto a bordo do avião presidencial Air Force One, disse que a captura do urânio “é algo que podemos fazer mais tarde. Não faríamos agora.”
A resposta é reveladora. Ele não descartou a opção — apenas adiou. E enquanto isso, os inspetores internacionais continuam sem acesso ao Irã, sem poder confirmar onde o material está ou se ainda está intacto. Quem quer que controle esse urânio quando o conflito terminar terá em mãos a matéria-prima para armas nucleares — e nenhum bombardeio até agora foi capaz de mudar isso.
Fontes consultadas: Axios, PBS NewsHour, CNN, Bulletin of the Atomic Scientists, The Wall Street Journal, Times of Israel, NPR, Scientific American
