O regime em Teerã sabe que não pode vencer uma batalha convencional. Por isso, a estratégia pode ser outra: receber a invasão, sangrar as tropas americanas e transformar cada baixa em munição política contra Trump.
Quando o presidente Donald Trump disse, nas últimas semanas, que os Estados Unidos podem “eliminar” a ilha de Kharg “a qualquer momento”, ele estava descrevendo um alvo real. A ilha fica a apenas 25 quilômetros da costa iraniana, responde por cerca de 90% das exportações de petróleo bruto do Irã e foi parcialmente bombardeada por forças americanas no início de março. O problema é que tomar Kharg do ar é muito diferente de mantê-la no chão — e o Irã parece estar contando exatamente com essa distinção.
Enquanto negociações diplomáticas avançam em paralelo, os Estados Unidos deslocaram para o Golfo Pérsico um contingente de forças de assalto sem precedente no conflito. A situação coloca Trump diante de um dilema que o Irã parece ter calculado com antecedência.
O que está a caminho do Golfo
A 31ª Unidade Expedicionária de Marines — grupo especializado em desembarques rápidos pelo mar — saiu de Okinawa, no Japão, em 13 de março, com cerca de 2.200 homens a bordo do USS Tripoli e deve chegar à área de operações no final de março ou início de abril. Ao mesmo tempo, mais 2.500 marines navegam desde a Califórnia a bordo do USS Boxer.

O Pentágono também ordenou que até 3.000 soldados da 82ª Divisão Aerotransportada — tropa de elite do Exército americano treinada para saltar de paraquedas sobre território inimigo e assumir o controle de uma área em menos de 18 horas — se movessem para a região, segundo Al Jazeera.
No total, são quase 8.000 soldados de reação rápida convergindo para o mesmo teatro de operações. Não são tropas pensadas para ocupar um território por meses. São tropas pensadas para chegar, tomar um objetivo e segurar até que uma força maior apareça.
O que está sendo preparado em Kharg
Enquanto os navios americanos cruzam o Golfo, algo diferente está acontecendo dentro da ilha. Segundo fontes familiarizadas com relatórios de inteligência americana, reportadas pela CNN, o Irã reforçou as defesas de Kharg nas últimas semanas. Foram identificadas novas armadilhas nas praias — incluindo explosivos antipessoal e antiveículo — além de sistemas MANPAD, que são mísseis antiaéreos carregados no ombro por um único soldado, capazes de derrubar helicópteros e aviões voando baixo. Tropas adicionais também foram deslocadas para a ilha.
O presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, foi direto em publicação no X: afirmou que o Irã sabe que “seus inimigos estão se preparando para ocupar uma ilha iraniana” e advertiu que qualquer tentativa teria “resposta decisiva”.
Kharg tem aproximadamente um terço do tamanho da ilha de Manhattan. Tomá-la exige uma força de desembarque grande — mas mantê-la é onde os problemas reais começam.
Por que segurar a ilha é mais difícil do que tomá-la
A ilha fica no extremo norte do Golfo Pérsico. Para chegar até ela, os navios americanos precisam atravessar o Estreito de Ormuz — onde o Irã vem posicionando minas navais — e percorrer quase toda a extensão do Golfo, expostos durante todo o caminho a drones, mísseis e embarcações de ataque rápido iranianas.

O almirante aposentado James Stavridis, ex-comandante máximo da OTAN e analista militar da CNN, avaliou que, uma vez desembarcados, os marines estariam “sob bombardeio quase constante de foguetes, drones e mísseis”. A linha de abastecimento necessária para sustentar a ocupação, feita por mar, seria permanentemente vulnerável. Os mesmos navios de guerra que protegeriam as tropas em terra também seriam os alvos mais visíveis de qualquer contra-ataque iraniano.
Especialistas americanos em segurança ouvidos pela CNN descreveram o cenário como de “alto risco e ganho mínimo”. Aliados do Golfo, segundo a mesma reportagem, já estão pressionando Washington em privado contra a operação, alertando que uma ocupação de Kharg provocaria retaliações iranianas contra a infraestrutura de energia de países vizinhos.
A lógica por trás da armadilha
O raciocínio iraniano não é vencer a batalha. É torná-la cara o suficiente para que a vitória americana não valha o preço político.
Há ainda uma ironia que complica o cálculo americano: mesmo que os Estados Unidos tomem Kharg com sucesso, o Irã pode simplesmente cortar o petróleo na origem, nos campos de produção no continente. Controlar o terminal de exportação não significa controlar a produção. O regime iraniano já demonstrou, em décadas de sanções, que consegue sobreviver por longos períodos sem exportar petróleo.
Trump chegou ao conflito com um objetivo declarado: reabrir o Estreito de Ormuz, pelo qual passa aproximadamente um quinto de todo o petróleo e gás do mundo, e que permanece fechado desde 28 de fevereiro. A campanha de bombardeios não resolveu esse problema. Isso empurra a Casa Branca para duas saídas: aceitar um resultado sem vitória clara, ou escalar com forças em solo.
É exatamente nesse espaço que a estratégia iraniana opera. Cada soldado americano morto, cada helicóptero abatido, cada imagem de combate transmitida ao vivo é munição política direta contra o apoio doméstico à guerra nos Estados Unidos. O Irã não precisa ganhar o confronto. Precisa apenas que ele dure tempo suficiente — e que o custo apareça nas telas.
Trump tem até agora evitado atingir a infraestrutura de petróleo da ilha. A questão é por quanto tempo essa contenção se sustenta — e o que acontece quando ela terminar.
Fontes consultadas: CNN, Al Jazeera, Time, Newsweek, FDD, CBC News, CNBC, Christian Science Monitor, Jerusalem Post
