A Hungria vota em 12 de abril, mas a disputa já deixou de ser apenas doméstica: agentes de inteligência russos operam em Budapeste e documentos internos do Kremlin propõem encenação de atentado para mudar o resultado.
Imagine um país que faz parte da mesma aliança militar que os Estados Unidos e a maioria da Europa — a OTAN — mas cujo líder defende abertamente a Rússia, o país que invadiu a Ucrânia em 2022. Esse país é a Hungria. E esse líder é Viktor Orbán.
Orbán governa a Hungria há 16 anos. Agora ele está perdendo nas pesquisas eleitorais pela primeira vez. E a estratégia que escolheu para tentar virar o jogo é atacar a Ucrânia — o país que está sendo bombardeado pela Rússia todos os dias.
Por que um político europeu faria isso? A resposta envolve petróleo, energia nuclear e uma eleição que pode mudar o rumo da guerra.
Quem está disputando a eleição
O principal adversário de Orbán se chama Péter Magyar. Ele foi aliado do próprio Orbán por anos, mas rompeu com o governo em 2024 depois que veio à tona um escândalo: o governo havia concedido perdão presidencial a uma pessoa condenada por encobrir um caso de abuso de crianças em um lar do Estado.
Magyar fundou então o partido Tisza — sigla em húngaro para Respeito e Liberdade — e ganhou apoio rapidamente. Sua campanha é centrada em dois temas: corrupção dentro do governo de Orbán e a crise econômica que afeta o dia a dia dos húngaros.
As pesquisas mostram que Magyar está na frente por uma margem enorme. O instituto Median, um dos mais respeitados da Hungria, aponta que, entre eleitores que já decidiram o voto, o Tisza lidera com 55% contra 35% do partido de Orbán, o Fidesz. Ou seja, uma diferença de 20 pontos percentuais.
Por que Orbán ataca a Ucrânia em vez de responder às críticas
Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, havia eleições na Hungria. Orbán espalhou cartazes pelo país com a frase: “Os húngaros não vão morrer pela Ucrânia.” A mensagem funcionou: ele venceu com maioria absoluta no Parlamento.
Agora, em 2026, ele está repetindo a mesma fórmula. Em vez de debater economia e corrupção — temas em que está em desvantagem — Orbán tenta transformar a eleição em uma escolha entre guerra e paz. A ideia é convencer os húngaros de que votar na oposição significa entrar na guerra contra a Rússia.
Para isso, seu governo colocou outdoors nas ruas mostrando o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky ao lado de Magyar com a frase: “Não deixem que Zelensky dê a última risada.” Seu partido também divulgou vídeos gerados por inteligência artificial — imagens criadas por computador — nos quais crianças perguntam pelo pai enquanto soldados húngaros aparecem sendo mortos.

A Hungria não tem nenhum soldado na Ucrânia. Mas isso não importa para a estratégia eleitoral.
O dinheiro russo que explica a lealdade de Orbán
Para entender por que Orbán defende a Rússia com tanta firmeza, é preciso olhar para a energia.
Mais de 85% de todo o petróleo que a Hungria importa vem da Rússia, transportado por um oleoduto chamado Druzhba — que em russo significa “amizade”. Enquanto quase todos os outros países europeus correram para reduzir a dependência da Rússia após a invasão da Ucrânia, a Hungria foi na direção oposta e aumentou as compras.
Mas o projeto mais emblemático dessa relação é a usina nuclear de Paks. A usina fica às margens do rio Danúbio, a 100 quilômetros de Budapeste, e hoje produz cerca de 50% de toda a eletricidade do país. Desde 2014, Orbán está expandindo essa usina com a ajuda da Rosatom — a empresa nuclear estatal da Rússia. O projeto, chamado Paks 2, vai construir dois novos reatores e custa 12,5 bilhões de euros. Desse total, 10 bilhões vêm de um empréstimo do governo russo, que a Hungria vai pagar até 2046. O primeiro concreto dos novos reatores foi lançado em fevereiro de 2026.

Em outras palavras: a Hungria está presa à Rússia por décadas de contratos de energia. E Orbán foi quem assinou esses contratos.
As acusações contra a Ucrânia têm alguma base?
Em fevereiro de 2026, Orbán acusou a Ucrânia de ter sabotado o oleoduto Druzhba de propósito, para prejudicar a Hungria. A Ucrânia disse que o dano foi causado por um drone russo. A União Europeia e a própria Ucrânia se ofereceram para ajudar nos reparos. Foi Orbán quem recusou a ajuda — e usou o episódio para justificar o bloqueio de um empréstimo de 90 bilhões de euros para a Ucrânia que ele mesmo havia aprovado antes.
Há uma reclamação húngara que tem algum fundamento real: cerca de 100 mil pessoas de origem húngara vivem na região oeste da Ucrânia chamada Transcarpátia. Em 2017, o governo ucraniano aprovou uma lei que tornou o ucraniano obrigatório nas escolas a partir do quinto ano, o que afetou o ensino em húngaro nessa região. Orbán usa essa questão para bloquear a cooperação entre a OTAN e a Ucrânia.
O problema é que ele aplica essa lógica de forma seletiva. Em dezembro de 2023, o Parlamento da Ucrânia aprovou uma nova lei ampliando os direitos das minorias, incluindo os húngaros, com 317 votos a favor. E quando a Eslováquia — governada por Robert Fico, outro líder aliado da Rússia — aprovou em janeiro de 2026 uma lei que prejudica a memória histórica dos húngaros deportados nos anos 1940, Orbán ficou em silêncio. Foi Magyar, o adversário de Orbán, quem foi até a embaixada eslovaca protestar.
O que a Rússia está fazendo dentro da Hungria
A parte mais grave dessa história foi revelada nas últimas semanas.
Em março de 2026, o jornalista investigativo Szabolcs Panyi publicou no portal húngaro VSquare que pelo menos três agentes do GRU — o serviço de inteligência militar da Rússia, equivalente à CIA americana — estão operando em Budapeste com passaportes diplomáticos. Eles estariam espalhando informações falsas para influenciar a eleição a favor de Orbán.
Poucos dias depois, o jornal americano Washington Post revelou um documento interno do SVR — o serviço de inteligência estrangeiro da Rússia — propondo encenar uma tentativa falsa de assassinato contra Orbán. O objetivo seria desviar o debate da economia para a segurança nacional, fazendo os húngaros sentirem que o país está em perigo. O documento, autenticado por um serviço de inteligência europeu, teria usado o atentado real contra Donald Trump em 2024 como inspiração para o plano.
Já o portal de notícias Politico Europe identificou que uma rede de perfis falsos russos chamada “Matryoshka” começou a circular nas redes sociais húngaras a narrativa de que a Ucrânia estaria planejando um golpe de Estado na Hungria — sem nenhuma evidência.
O Washington Post também revelou que o ministro das Relações Exteriores da Hungria, Péter Szijjártó, manteve durante anos contato regular com o chanceler russo Sergei Lavrov, repassando informações confidenciais das reuniões do Conselho Europeu — o órgão onde os líderes da União Europeia tomam decisões — praticamente em tempo real.
Nos últimos quatro anos, Orbán usou o direito de veto da Hungria — um mecanismo que permite a qualquer país da União Europeia bloquear decisões que exijam unanimidade — para paralisar sanções contra a Rússia e impedir ajuda financeira à Ucrânia. Um único país com 10 milhões de habitantes bloqueando decisões apoiadas por 26 países e 450 milhões de pessoas.
Se Orbán perder em 12 de abril, esse bloqueio acaba. Os 90 bilhões de euros para a Ucrânia são liberados. E a Rússia perde o aliado mais valioso que tem dentro das instituições europeias — o que talvez explique por que Moscou parece disposta a fazer quase qualquer coisa para evitar esse resultado.
Fontes consultadas: CSIS, Washington Post, VSquare, Politico Europe, EUobserver, Bloomberg, Courthouse News Service, Wikipedia, U.S. Department of Commerce, OSW Centre for Eastern Studies, PolitPro