Com US$ 10 Milhões na Cabeça, Larijani Apareceu em Público — Quatro Dias Depois Estava Morto
Na sexta-feira, 13 de março de 2026, Ali Larijani, o homem mais poderoso do Irã desde o início da guerra, saiu do esconderijo para participar de uma marcha pública em Teerã. Era uma mensagem política: mostrar ao mundo que a liderança iraniana não havia fugido. Quatro dias depois, Israel anunciou que ele estava morto.
Confira a análise em vídeo no canal Realidade Militar
Quem era Ali Larijani
Larijani, de 68 anos, não era uma figura qualquer dentro do regime iraniano. Ao longo de décadas, ocupou os cargos mais estratégicos do país. Foi presidente do parlamento de 2008 a 2020, chefiou as negociações nucleares do Irã com o Ocidente entre 2005 e 2007 e, a partir de agosto de 2025, assumiu pela segunda vez o posto de secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional.

Com a morte do aiatolá Ali Khamenei no primeiro dia da guerra — 28 de fevereiro de 2026 —, Larijani emergiu como o principal coordenador das decisões militares e de segurança do regime. O jornal The New York Times descreveu-o como o homem que efetivamente governava o Irã desde janeiro de 2026. Era ele quem coordenava os corpos de segurança do Estado e conduzia as respostas ao ataque americano-israelense.
O erro fatal: aparecer em público
Larijani era meticuloso quanto à sua segurança. Desde o início da guerra, movia-se entre locais secretos e evitava qualquer aparição previsível. Em 13 de março, porém, decidiu aparecer na Marcha do Dia de Al-Quds — evento anual de apoio aos palestinos, transmitido ao vivo com câmeras do mundo inteiro.

No mesmo dia, o Departamento de Estado americano, pelo programa Rewards for Justice (Recompensas pela Justiça), anunciou uma recompensa de US$ 10 milhões por informações sobre o paradeiro de Larijani — a mesma quantia oferecida pelo novo líder supremo, Mojtaba Khamenei. A lista incluía outros dez altos funcionários do regime ligados à Guarda Revolucionária Islâmica.
Larijani sabia que não seria atacado no meio de uma multidão de civis. Apareceu, discursou e caminhou pelas ruas de Teerã ao lado do presidente Masoud Pezeshkian. Postou até um vídeo nas redes sociais provocando o Secretário de Defesa americano Pete Hegseth, que havia afirmado que as lideranças iranianas estavam escondidas.
A última imagem dele com vida foi tirada naquela sexta-feira, na marcha.
A operação: da marcha ao bunker
Na noite de 16 para 17 de março, Israel realizou o ataque. Larijani foi atingido num esconderijo nos arredores do leste de Teerã. Junto com ele morreram seu filho Morteza e o chefe de seu escritório, Alireza Bayat, além de seguranças.
Segundo fontes de inteligência israelense citadas pela imprensa — informações não confirmadas de forma independente por grandes agências internacionais —, a aparição de Larijani na marcha permitiu o rastreamento de seus movimentos posteriores. A operação teria envolvido a Unidade 8200, a divisão de inteligência eletrônica do Exército israelense, considerada a maior unidade de inteligência de sinal das Forças de Defesa de Israel.
O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, confirmou as mortes em pronunciamento. O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã confirmou a morte de Larijani horas depois, descrevendo-o como um “mártir”.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou o resultado em declaração televisionada.
Segundo alvo na mesma noite
Larijani não foi o único eliminado naquela operação. Na mesma noite, Israel também matou Gholamreza Soleimani, comandante das forças Basij — a milícia paramilitar da Guarda Revolucionária responsável por reprimir protestos internos no Irã. Soleimani operava em uma sede improvisada, fora de qualquer local fixo, justamente para evitar ser localizado. Não adiantou.
Um dia depois, em 18 de março, o ministro da Inteligência iraniano, Seyyed Esmail Khatib, também foi morto em um ataque israelense.
A doutrina de decapitação de liderança
Israel opera nessa guerra com uma estratégia declarada: eliminar sistematicamente as pessoas capazes de tomar decisões dentro do regime iraniano.
O ministro Israel Katz deixou isso explícito ao anunciar as mortes de Larijani e Soleimani: “Os líderes do regime estão sendo mortos e suas capacidades encerradas.”
O padrão segue uma sequência clara: Khamenei foi morto no primeiro dia de guerra. As semanas seguintes foram usadas para destruir infraestrutura militar iraniana — bases de mísseis e instalações estratégicas. Larijani, que havia assumido o comando após a morte do líder supremo, foi eliminado no 17º dia. O ministro da Inteligência, no 18º.
O paradoxo: a morte do único negociador possível
Analistas alertam para uma consequência que vai além do campo de batalha. Larijani não era apenas um comandante de guerra — era o principal interlocutor do Irã com o Ocidente. Havia sentado à mesa com diplomatas americanos e europeus durante as negociações nucleares. Conhecia a linguagem da diplomacia internacional.
Com sua morte, segundo analistas citados pela agência Al Jazeera e pelo Times of Israel, as chances de uma saída negociada para o conflito diminuíram significativamente. O regime iraniano perde não só um coordenador militar, mas o rosto que o mundo exterior reconhecia como capaz de dialogar.
O analista político conservador iraniano Hatef Salehi afirmou que a ausência de Larijani “lançará uma sombra profunda sobre a diplomacia para encerrar a guerra e reduzirá as chances de encontrar uma saída de baixo custo.”
O novo líder supremo desapareceu
Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá assassinado e novo líder supremo do Irã, eleito às pressas após a morte do pai, não fez aparições públicas desde que assumiu o cargo no início de março. O Pentágono, segundo a imprensa americana, avalia que ele pode estar ferido. Trump, em entrevista à Fox News exibida em 14 de março, afirmou acreditar que Mojtaba estaria com ferimentos.
O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, rejeitou a ideia de que o assassinato de lideranças enfraquece o Estado: “A República Islâmica do Irã tem uma estrutura política sólida, com instituições estabelecidas. Mesmo com o líder assassinado, o sistema continuou seu trabalho e imediatamente providenciou um substituto.”
Um conflito com raízes décadas atrás
A operação que eliminou Larijani não nasceu em fevereiro de 2026. A Unidade 8200, por exemplo, já havia demonstrado sua capacidade de infiltração em sistemas adversários em operações anteriores — incluindo o vírus Stuxnet, que em anos anteriores invadiu silenciosamente as centrífugas nucleares de enriquecimento de urânio na instalação de Natanz. O malware fazia as máquinas funcionarem fora do ritmo enquanto os monitores mostravam tudo normal — centenas de centrífugas foram destruídas antes que os técnicos iranianos percebessem o ataque.

O mesmo princípio — fazer o inimigo acreditar que está seguro enquanto a armadilha já está fechada — parece ter orientado a operação que eliminou Larijani.
O que vem a seguir
A questão que permanece sem resposta é ao mesmo tempo estratégica e perigosa: o que acontece quando a liderança de um país fortemente armado é sistematicamente eliminada?
O Irã possui um dos maiores arsenais de mísseis do Oriente Médio, urânio enriquecido armazenado em bunkers subterrâneos e capacidade de afetar o tráfego pelo Estreito de Ormuz — canal por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo.
Um regime sem liderança central não necessariamente paralisa. Comandantes regionais podem passar a agir de forma autônoma, sem coordenação e sem controle. Israel está eliminando as cabeças, mas o corpo ainda está de pé — armado e cada vez menos controlado por uma autoridade central.
A pergunta que ninguém ainda sabe responder é: quando não há mais ninguém com autoridade suficiente para dizer “parem de atirar”, quem para os mísseis?
Fontes: Al Jazeera, NBC News, The Washington Post, Times of Israel, CNBC, Wikipedia, Iran International, JNS, The Conversation
