A Marinha dos Estados Unidos iniciou a operação para limpar o Estreito de Ormuz das minas navais lançadas pelo Irã, mas enfrenta um cenário complicado: seus novos navios nunca foram testados em combate, os antigos caça-minas foram aposentados meses antes da guerra, e o próprio Irã perdeu o controle sobre a localização de parte das minas que lançou. A missão, considerada uma das mais perigosas da guerra naval moderna, vai definir se o comércio global de petróleo consegue voltar a fluir por uma das rotas mais importantes do mundo.

Dois destroyers e uma mensagem clara

No sábado, 11 de abril, dois destroyers da classe Arleigh Burke, o USS Frank E. Peterson e o USS Michael Murphy, cruzaram o Estreito de Ormuz. Foram os primeiros navios de guerra americanos a transitar pela região desde o início do conflito com o Irã, em 28 de fevereiro.

Destroyer Frank E. Petersen Jr. (DDG 121) navegando no Golfo do México durante exercícios.
Destroyer Frank E. Petersen Jr. (DDG 121) navegando no Golfo do México durante exercícios.

Segundo o Comando Central dos EUA (CENTCOM), a missão marca o início do processo de criar uma passagem segura e garantir que o estreito esteja livre de minas marítimas. “Começamos o processo de estabelecer uma nova passagem e compartilharemos essa rota segura com a indústria marítima em breve”, declarou o Almirante Brad Cooper, comandante do CENTCOM.

A resposta do Irã foi imediata. Segundo o The Wall Street Journal, a Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC) enviou um aviso por rádio a um dos destroyers americanos: “Este é o último aviso. Este é o último aviso.” O navio americano respondeu afirmando que estava transitando conforme o direito internacional.

Um campo minado que nem o Irã controla

O Estreito de Ormuz tem apenas 34 quilômetros de largura no seu ponto mais estreito e por ele passava cerca de 20% de todo o petróleo e gás natural liquefeito comercializado no mundo antes do conflito. Quando a guerra começou, a Guarda Revolucionária iraniana usou lanchas rápidas para espalhar minas pela região.

Segundo relatórios de inteligência dos EUA reportados pela CNN, foram identificados pelo menos dois tipos de minas iranianas na água: a Mahan 3, uma mina ancorada que flutua abaixo da superfície e é ativada por sensores acústicos, e a Maham 7, uma mina de fundo que repousa no leito marinho e é projetada para atingir embarcações menores.

Mas o dado mais preocupante veio do New York Times: segundo oficiais americanos, o próprio Irã não consegue localizar todas as minas que lançou. A operação de lançamento teria sido desorganizada, sem registro preciso das coordenadas de cada dispositivo. O chanceler iraniano, Abbas Araqchi, reconheceu indiretamente o problema ao afirmar que a reabertura do estreito levará em conta “restrições técnicas”.

Isso cria um cenário duplamente perigoso. Não se trata apenas de encontrar minas colocadas intencionalmente em posições estratégicas, mas de caçar artefatos explosivos cujas posições são desconhecidas por todos os lados.

Os EUA aposentaram seus caça-minas na hora errada

A Marinha americana enfrenta essa missão em meio a uma transição problemática nos seus meios de desminagem. Até setembro de 2025, a Quinta Frota, baseada no Bahrein, contava com quatro navios caça-minas da classe Avenger, que tinham décadas de experiência em operações no Golfo Pérsico. Esses navios tinham cascos de madeira revestidos de fibra de vidro, projetados para reduzir sua assinatura magnética e evitar detonar minas, e entravam diretamente nos campos minados para fazer o trabalho.

Porém, conforme reportou o Navy Times, todos os quatro Avengers foram aposentados em setembro de 2025, poucos meses antes da guerra. Em janeiro de 2026, os navios foram embarcados em um navio de transporte e enviados para a Filadélfia, nos EUA, para serem desmontados.

No lugar deles, a Marinha posicionou navios de combate litorâneo da classe Independence, equipados com um novo sistema de contramedidas de minas (MCM). A ideia era operar à distância, lançando drones e veículos subaquáticos não tripulados que fazem a varredura e neutralização sem que o navio precise entrar no campo minado.

Navio de combate litorâneo da Marinha dos EUA, USS Independence, atracado em Key West, na Flórida, em 29 de março de 2010, an
Navio de combate litorâneo da Marinha dos EUA, USS Independence, atracado em Key West, na Flórida, em 29 de março de 2010, antes de seguir para testes iniciais.

Na teoria, é um sistema mais seguro e moderno. Na prática, os problemas são sérios. Segundo o Christian Science Monitor, os navios LCS com pacote MCM nunca foram testados em condições reais de combate. A reportagem do Hunterbrook Media revelou que cada missão dos veículos não tripulados exige mais de quatro horas de manutenção e calibração antes de ser iniciada, e em vários testes o sonar simplesmente não registrou dados, com as equipes só descobrindo o problema depois.

Para agravar, dos três navios com capacidade de desminagem (USS Canberra, USS Santa Barbara e USS Tulsa), dois foram vistos no Sudeste Asiático quando a crise estourou, a milhares de quilômetros do Estreito de Ormuz.

Como funciona a desminagem na prática

Desminar uma área marítima é uma operação dividida em etapas e extremamente lenta. Não se parece em nada com a guerra de alta velocidade que costumamos ver nos noticiários.

A primeira fase é a busca e detecção. Navios e drones vasculham faixas do mar usando sonares de alta resolução. Esses sistemas enviam ondas sonoras que criam imagens detalhadas do fundo e da coluna d’água. Qualquer objeto que pareça uma mina é classificado como “contato” e tem sua posição marcada.

Na segunda fase, é preciso confirmar se cada contato é realmente uma mina. Para isso, veículos subaquáticos menores, equipados com câmeras e sensores, são enviados para examinar o objeto de perto.

A terceira fase é a neutralização. Uma vez confirmada a mina, ela precisa ser destruída ou desativada no local, o que pode ser feito por mergulhadores especializados ou por pequenos veículos que se aproximam e detonam uma carga explosiva junto ao dispositivo.

E a quarta fase, frequentemente esquecida, é a verificação. Depois de limpar toda uma área, é preciso varrê-la de novo, e de novo. Porque em desminagem, o objetivo não é apenas encontrar minas, é provar que elas não estão mais lá.

No caso do Estreito de Ormuz, esse processo é ainda mais complexo. Segundo o Fortune, as águas da região são turvas e cheias de sedimentos, o que dificulta a detecção por sonar. E um navio fazendo varredura a baixa velocidade é um alvo extremamente vulnerável para os mísseis costeiros, drones de ataque e lanchas armadas que a Guarda Revolucionária ainda possui.

Uma arma barata com consequências bilionárias

Minas navais são consideradas uma das armas mais eficientes da guerra moderna do ponto de vista de custo e benefício. Segundo o Strauss Center da Universidade do Texas, minas navais foram responsáveis por 77% das baixas em navios americanos desde 1950. Uma mina simples pode custar apenas 1.500 dólares, mas removê-la pode levar dias, custar milhões e colocar vidas em risco.

Analistas estimam que o Irã possui entre 2.000 e 6.000 minas no total, e ainda retém a grande maioria das suas lanchas capazes de lançá-las. Ou seja, enquanto a Marinha americana trabalha para retirar minas, o Irã pode, em teoria, continuar colocando mais.

Na segunda-feira, 13 de abril, a situação ficou ainda mais tensa quando o CENTCOM anunciou um bloqueio naval de todo o tráfego marítimo que entre ou saia de portos iranianos, tornando o ambiente ao redor do estreito ainda mais crítico.

O teste definitivo

A operação de desminagem no Estreito de Ormuz não é apenas uma missão militar. É um teste real da aposta que a Marinha dos EUA fez ao trocar navios testados e comprovados por tecnologia nova e ainda não validada. Os Avengers, com seus cascos de madeira e décadas de serviço, eram lentos e antigos, mas funcionavam. Os Independence, com seus drones e sistemas autônomos, representam o futuro, mas um futuro que nunca enfrentou uma mina de verdade em águas hostis.

É nessas águas estreitas, turvas e contestadas que essa aposta vai ser posta à prova. E o resultado não vai afetar apenas o campo de batalha: com um quinto da energia mundial dependendo dessa passagem, o Estreito de Ormuz pode definir muito mais do que o destino de uma guerra.