Neste domingo (12 de abril), Donald Trump anunciou um bloqueio naval no Estreito de Ormuz, a passagem marítima mais importante do mundo para o comércio de petróleo. A decisão veio horas depois do fracasso das negociações de paz entre Estados Unidos e Irã no Paquistão. Mas por trás da notícia, existem pelo menos cinco pontos que a cobertura rápida não está detalhando: essa tática já foi testada antes (na Venezuela), os mais prejudicados não são os americanos, e o verdadeiro motivo do impasse não é o petróleo, é o programa nuclear iraniano.

1. Trump já usou essa estratégia antes, e funcionou

O bloqueio naval no Estreito de Ormuz pode parecer uma escalada sem precedentes, mas não é a primeira vez que Trump recorre a essa tática. Em dezembro de 2025, os Estados Unidos impuseram um bloqueio marítimo contra a Venezuela, focado em petroleiros sancionados que entravam e saíam do país. A estratégia sufocou a economia venezuelana, que depende quase totalmente da exportação de petróleo, e precedeu a captura do presidente Nicolás Maduro por forças especiais americanas em janeiro de 2026.

Militares dos Estados Unidos desembarcam equipamentos em Ponce, Porto Rico, em 29 de novembro de 2025, durante mobilização no
Militares dos Estados Unidos desembarcam equipamentos em Ponce, Porto Rico, em 29 de novembro de 2025, durante mobilização no Caribe ligada à pressão americana sobre a Venezuela. Foto: US Marine Corps

Analistas como Robin Brooks, do Brookings Institution, vinham argumentando publicamente que a mesma lógica poderia ser aplicada ao Irã. A ideia, segundo ele, é simples: cortar as exportações de petróleo iraniano para implodir a economia do país e forçar concessões. O próprio Trump compartilhou essa análise nas redes sociais antes de oficializar o bloqueio. Em outras palavras, existe um manual sendo seguido.

2. Os mais afetados não são os Estados Unidos

Quando se fala em bloqueio do Estreito de Ormuz, o primeiro pensamento é que os preços da gasolina nos EUA vão disparar. Mas a realidade é mais complicada. Segundo dados da Agência de Informação de Energia dos EUA (EIA), cerca de 84% do petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz vai para a Ásia. A China sozinha recebe quase 38% de todo esse fluxo. A Índia, a Coreia do Sul e o Japão são os outros grandes compradores.

Os Estados Unidos, por sua vez, recebem apenas cerca de 2,5% do petróleo que transita pelo estreito, de acordo com a mesma fonte. Isso acontece porque a produção doméstica americana cresceu muito nos últimos anos, tornando o país bem menos dependente do Golfo Pérsico. O impacto global nos preços existe, sim, porque o mercado de petróleo é interligado. Mas quem sente a pancada mais forte são as economias asiáticas, especialmente a China, que depende do estreito para cerca de 45% das suas importações de petróleo, segundo a Universidade de Columbia.

3. O Irã já estava bloqueando o estreito, e esse é o ponto

Aqui está algo que muita gente perde de vista: o Estreito de Ormuz já estava praticamente fechado antes do anúncio de Trump. Desde que a guerra entre EUA, Israel e Irã começou no final de fevereiro de 2026, o Irã restringiu severamente a passagem de navios pela região. Segundo a Britannica, o tráfego marítimo pelo estreito chegou a cair mais de 95%, a maior interrupção no fornecimento global de petróleo já registrada.

O Irã inclusive passou a cobrar pedágio de navios que tentavam transitar pelo local, algo que a CNBC descreveu como a maior carta de negociação do regime iraniano. O que Trump está fazendo agora é inverter a lógica: em vez de deixar o Irã controlar quem passa, os EUA é que vão decidir. O bloqueio americano visa impedir que o petróleo iraniano chegue aos seus compradores, tirando do Irã sua principal fonte de receita. É, nas palavras dos analistas, dar ao Irã “uma dose do seu próprio remédio”.

4. O verdadeiro impasse não é petróleo, é o programa nuclear

As manchetes destacam o petróleo e o estreito, mas o motivo real pelo qual as negociações fracassaram em Islamabad é outro: o programa nuclear iraniano. Segundo a Associated Press, as conversas duraram cerca de 20 horas, com avanços em diversos pontos. Porém, o Irã se recusou a abrir mão das suas ambições nucleares.

O próprio Trump escreveu que “o Irã não está disposto a desistir de suas ambições nucleares” e chamou esta a única questão que realmente importava. Do lado iraniano, o presidente do parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que os Estados Unidos não conseguiram ganhar a confiança do governo iraniano. Com o cessar-fogo de duas semanas (iniciado em 8 de abril) já fragilizado por desentendimentos sobre o Líbano e a reabertura do estreito, o bloqueio naval é a resposta de Trump ao que ele considera intransigência do Irã na questão nuclear.

5. O relógio está correndo: o cessar-fogo vence dia 22

Talvez o ponto mais importante e menos discutido: o cessar-fogo entre EUA e Irã, mediado pelo Paquistão, expira em 22 de abril. São apenas dez dias a partir de agora. Nenhum dos lados indicou o que acontece depois caso não se chegue a um acordo, e os mediadores paquistaneses pediram que ambas as partes mantenham a trégua.

O cenário é delicado. De um lado, Trump disse que as forças americanas estão “totalmente preparadas” e ameaçou “terminar o que resta do Irã”. Do outro, o Irã rejeitou a proposta americana e apresentou seu próprio plano de 10 pontos, que inclui a solução de todos os conflitos regionais e controle sobre o Estreito de Ormuz. A distância entre as duas posições é enorme. Com o bloqueio naval agora em vigor e o prazo do cessar-fogo se aproximando, os próximos dias serão decisivos para saber se o mundo caminha para uma negociação ou para uma escalada militar ainda maior.

O que vem a seguir

A verdade é que as manchetes sobre o bloqueio naval contam apenas a superfície de uma crise com muitas camadas. Existe um precedente (Venezuela), existe uma lógica econômica (sufocar o Irã como o Irã sufocou o estreito), existe um impasse nuclear, e existe um prazo. Quando essas cinco peças são colocadas juntas, o anúncio de Trump deixa de parecer um gesto impulsivo e passa a se encaixar em um padrão. Resta saber se esse padrão vai levar a uma mesa de negociação ou a algo muito diferente.