Enquanto Estados Unidos e Irã disputam o controle do Estreito de Ormuz, a China se posiciona como a maior beneficiada da crise.
Pequim continua recebendo petróleo iraniano com exclusividade, impulsiona o uso do yuan no comércio global de energia e acelera a venda de tecnologia verde para um mundo desesperado por alternativas ao petróleo. O bloqueio, que já reduziu em mais de 90% o fluxo de petróleo pelo estreito, pode fortalecer a influência chinesa em pelo menos três frentes: acesso privilegiado a energia barata, avanço do yuan como moeda de troca no mercado de petróleo e domínio nas cadeias globais de energia renovável.
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã já dura mais de seis semanas. Desde que os ataques aéreos começaram em 28 de fevereiro de 2026, o Estreito de Ormuz, a passagem marítima mais importante do mundo para o comércio de energia, está praticamente fechado. Neste domingo (12), após o fracasso das negociações de paz no Paquistão, o presidente Donald Trump anunciou um bloqueio naval completo do estreito, escalando ainda mais a tensão.
Mas enquanto o mundo observa o cabo de guerra entre Washington e Teerã, há um terceiro jogador que se move em silêncio. E pode sair dessa crise mais forte do que entrou.
O estreito que alimenta o mundo
Para entender o que está em jogo, é preciso entender o que é o Estreito de Ormuz. Trata-se de uma faixa de mar de apenas 39 quilômetros de largura no ponto mais estreito, localizada entre o Irã ao norte e Omã e Emirados Árabes ao sul. Antes da guerra, cerca de 25% de todo o petróleo transportado por navios no mundo e 20% do gás natural liquefeito passavam por ali, segundo dados do governo americano.
Quando o Irã fechou a passagem em retaliação aos ataques, o efeito foi imediato. Cerca de 230 navios petroleiros carregados ficaram presos dentro do Golfo Pérsico, o preço do barril de petróleo disparou e analistas passaram a falar na maior interrupção do mercado global de energia desde a crise dos anos 1970.
O petróleo que só flui para a China
Em meio ao caos, um detalhe revelador: enquanto navios do mundo inteiro foram impedidos de cruzar Ormuz, o petróleo iraniano continuou fluindo para um destino específico: a China. Segundo a CNBC, pelo menos 11,7 milhões de barris de petróleo bruto foram enviados pelo estreito desde o início da guerra, todos com destino a portos chineses. Em março, surgiram relatos de que o Irã estaria permitindo a passagem apenas de embarcações chinesas, algo sem precedentes na história da navegação comercial moderna.
A relação entre os dois países não é nova. A China compra mais de 80% das exportações de petróleo iraniano e já vinha acumulando reservas estratégicas antes mesmo do conflito começar. Nos dois primeiros meses de 2026, as importações chinesas de petróleo subiram quase 16% em relação ao ano anterior, segundo dados alfandegários do país. Com reservas estimadas em 1,3 bilhão de barris, Pequim tem fôlego para pelo menos dois anos mesmo com o estreito fechado.
O yuan entra no jogo do petróleo
Mas a vantagem chinesa vai além do acesso ao petróleo. A crise de Ormuz está servindo como um laboratório para um projeto que Pequim nutre há anos: enfraquecer o domínio do dólar americano no comércio global de energia.
Segundo a Al Jazeera, o Irã passou a cobrar pedágios dos navios que tentam cruzar o estreito, e esses pagamentos estão sendo feitos em yuan, a moeda chinesa. Até 25 de março, ao menos dois navios já haviam pago a taxa na moeda chinesa, segundo a publicação especializada Lloyd’s List. O Ministério do Comércio da China confirmou a informação em suas redes sociais.
Hoje, cerca de 80% das transações globais de petróleo são feitas em dólar. Esse sistema, conhecido como “petrodólar”, é um dos pilares da influência econômica americana no mundo. Quando navios começam a pagar em yuan para cruzar a passagem marítima mais importante do planeta, algo simbólico e prático acontece ao mesmo tempo. Analistas do Deutsche Bank alertaram que o conflito pode ser lembrado como o catalisador para a erosão do domínio do petrodólar e o início do “petroyuan”.
Isso não significa que o dólar vai perder sua posição dominante da noite para o dia. Ele ainda representa mais de 57% das reservas globais, enquanto o yuan não chega a 2%. Mas cada transação em yuan normaliza uma alternativa, e a crise de Ormuz está acelerando essa normalização.
A carta verde: energia limpa como vantagem estratégica
Existe ainda um terceiro tabuleiro em que a China está ganhando. Com o petróleo acima dos US$ 100 por barril e governos ao redor do mundo buscando alternativas urgentes, a demanda por tecnologias de energia renovável explodiu. E ninguém no mundo produz mais painéis solares, turbinas eólicas, baterias e carros elétricos do que a China.
Segundo o Washington Post, as exportações chinesas dessas tecnologias já vinham batendo recordes nos primeiros meses de 2026, antes mesmo da guerra escalar. Agora, com a crise energética global, a tendência se intensifica. Como resumiu uma reportagem da OilPrice.com: “Nenhum país estava mais preparado para a guerra no Irã do que a China.”
Em 2024, Pequim investiu US$ 625 bilhões em energia renovável, um recorde nacional e mundial. Seu 15º Plano Quinquenal, apresentado em março de 2026, reforça essa direção, com metas de elevar as fontes de energia não fóssil para 25% do consumo total até 2030. A lógica é direta: quanto mais o mundo depende de energia limpa para escapar da volatilidade do petróleo, mais depende da China para fornecer os equipamentos necessários.
O escudo diplomático na ONU
A posição chinesa também se manifestou nos bastidores diplomáticos. Em 7 de abril, Rússia e China vetaram uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que buscava reabrir o Estreito de Ormuz. O embaixador chinês, Fu Cong, argumentou que o texto “não capturava as causas raiz e o quadro completo do conflito.” A resolução havia sido enfraquecida diversas vezes para tentar evitar o veto, mas Pequim e Moscou se mantiveram firmes. Com o veto, a China protegeu indiretamente o Irã, seu principal fornecedor de petróleo barato, e preservou o arranjo que lhe permite continuar recebendo energia enquanto o resto do mundo sofre com a escassez.
A peça que ninguém moveu, mas que está ganhando o jogo
A crise do Estreito de Ormuz expõe uma ironia geopolítica. Os Estados Unidos iniciaram a guerra para conter o programa nuclear iraniano e manter sua influência sobre a região. O Irã fechou o estreito para usar como moeda de barganha. Mas quem colhe os frutos dessa disputa, sem disparar um único tiro, é a China.
Pequim recebe petróleo com desconto por uma rota exclusiva. Promove sua moeda como alternativa ao dólar. Vende tecnologia verde para um mundo em pânico energético. E bloqueia na ONU qualquer tentativa de resolver a crise por vias que prejudiquem seus interesses. Pode não ser o vencedor que o mundo esperava. Mas é, cada vez mais, o vencedor que essa crise está produzindo.
