Um drone atingiu na tarde de quarta-feira, 29 de julho, o navio de estocagem de gás Energos Winter, de propriedade e operação americanas, atracado no porto de Damietta, no litoral mediterrâneo do Egito. O fogo começou às 14h20 no horário de Greenwich, 11h20 em Brasília, e se espalhou para o metaneiro GasLog Salem, que estava ao lado. As tripulações saíram, ninguém se feriu e os bombeiros do porto controlaram as chamas no mesmo dia.

O vídeo que circulou nas redes mostra o navio já sem chamas visíveis, recebendo jatos de água de vários pontos ao mesmo tempo. Ao fundo aparece o tanque de estocagem do terminal de gás liquefeito, e na margem à esquerda uma escavadeira dá apoio ao trabalho. A operação é de resfriamento. Em navio de gás, o risco maior não é o fogo em si, é o calor chegar à carga.



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A versão mudou em menos de um dia

A primeira explicação que saiu do Egito foi outra. Fontes de segurança do país atribuíram o incêndio a uma falha técnica na casa de máquinas de um navio antigo. Na manhã seguinte, o gabinete egípcio confirmou que o incidente foi causado por um drone e prometeu investigar o caso. A empresa britânica de segurança marítima Ambrey e o grupo de serviços de navegação Inchcape também registraram o ataque.

Nenhum grupo reivindicou a autoria até agora. Os houthis do Iêmen negaram participação e disseram que atacam apenas a Arábia Saudita. A frase que correu junto com o vídeo, de que o Irã teria atingido o alvo, é o que a própria publicação classificou como relato inicial, e segue sem confirmação.

Quem teria alcance para chegar lá

O alvo é uma unidade flutuante de armazenamento e regaseificação, o navio que recebe o gás liquefeito, devolve o produto ao estado gasoso e injeta na rede em terra. A Energos Winter tem bandeira das Ilhas Marshall e está afretada pela americana New Fortress Energy. O GasLog Salem, atingido pelo fogo, tem bandeira das Bermudas.

Sobre quem disparou, a geografia é o filtro mais duro. Damietta fica a cerca de 480 quilômetros do sul do Líbano, 1.200 quilômetros do Iraque e 2.000 quilômetros do Iêmen. Os estragos nos dois navios foram pequenos para alvos daquele tamanho, o que costuma indicar ogiva reduzida, a troca que se faz para ganhar distância de voo. Analistas de segurança marítima leem o detalhe como indício de tiro longo.

Há também uma coincidência de calendário. Dois dias antes do ataque, a televisão estatal iraniana exibiu um mapa de possíveis alvos com Damietta assinalada e descrita como capacidade de 5,2 milhões de toneladas de gás por ano e porta de saída das exportações para a Europa. Não há evidência que ligue o governo iraniano ao ataque.

O navio atingido não era o da exportação

Damietta é conhecida como terminal de exportação, com capacidade de 5,5 milhões de toneladas por ano, a 60 quilômetros a oeste de Port Said. Só que a Energos Winter não exporta nada. Ela importa.

O Egito produz hoje cerca de 4,1 bilhões de pés cúbicos de gás por dia e consome de 6,3 a 6,4 bilhões. O campo de Zohr, que sustentou a virada exportadora do país, caiu de 2,7 para 1,9 bilhão de pés cúbicos por dia entre 2021 e 2024 por infiltração de água. Para cobrir a diferença, o governo egípcio montou uma frota de cinco unidades flutuantes de regaseificação e negociou cerca de 300 carregamentos de gás liquefeito. Quem acertou aquele navio acertou o equipamento de que o país depende para manter as usinas térmicas ligadas no verão, não a vitrine de exportação.

O que vem agora

O Egito não é parte da guerra e precisa responder a um ataque que ninguém assume. Três indicadores dizem o tamanho do estrago nas próximas semanas: se o governo egípcio aponta um responsável com nome, se as seguradoras passam a cobrar prêmio de risco de guerra na costa egípcia e se outra unidade flutuante for atingida. O Mediterrâneo oriental vinha sendo tratado como retaguarda segura desta guerra.