O serviço de inteligência interna da Alemanha concluiu que um depósito clandestino de armas escondido em uma área de mata na divisa entre Berlim e o estado de Brandemburgo foi montado a mando dos serviços secretos russos. Dentro havia duas pistolas e munição. Para as autoridades alemãs, o material estava guardado ali à espera de agentes encarregados de executar ataques físicos em solo alemão, incluindo assassinatos. O caso foi revelado nesta sexta-feira, 21 de agosto, pela emissora pública Tagesschau em apuração conjunta com WDR, NDR e o jornal Süddeutsche Zeitung.
O BfV, o Escritório Federal de Proteção da Constituição, classifica o local como um “toter Briefkasten”, que em tradução literal é caixa postal morta. É o esconderijo cego do jargão de espionagem, um ponto combinado onde quem deixa o material e quem retira nunca se encontram. Um esconde a encomenda e vai embora. O outro aparece horas ou semanas depois, recolhe e some. Se qualquer um dos dois cair, não tem rosto nem nome para entregar sobre o parceiro. O método atravessou a Guerra Fria inteira porque elimina o elo mais frágil de uma operação clandestina, que é o encontro entre duas pessoas.
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A descoberta aconteceu em outubro de 2025, depois de uma denúncia que levou os investigadores ao ponto exato da mata. O depósito estava montado com cuidado profissional. Em vez de recolher tudo e encerrar o caso, a polícia fez o contrário: instalou rastreadores por GPS nas duas pistolas, inutilizou as armas e devolveu o material ao lugar, com a área sob vigilância a distância. A aposta era prender quem viesse buscar. Ninguém veio. Quase um ano depois, o esconderijo segue intocado, e é por isso que passou a ser tratado como morto.
A Procuradoria-Geral Federal da Alemanha investiga o caso sob suspeita de atividade de agente a serviço de potência estrangeira e de preparação de ato grave de violência contra o Estado. Um suspeito foi preso na Romênia no fim do ano passado e continua em prisão preventiva. O ministro do Interior, Alexander Dobrindt, disse que o país precisa partir do princípio de que o nível de ameaça é alto e apontou o envolvimento de uma potência estrangeira, a Rússia.
O termo que as autoridades alemãs usam para o que estava previsto é “operações cinéticas”, eufemismo de inteligência para violência física direta: sabotagem, incêndio criminoso, atentado, morte. O chefe do BfV, Sinan Selen, vinha avisando desde o ano passado que a atuação russa na Alemanha deixou de se limitar a espionagem e ataques cibernéticos. Ele citou três perfis de alvo possível: executivos da indústria de defesa, opositores russos exilados no país e pessoas ligadas ao apoio militar à Ucrânia.
Esse aviso não saiu do nada. Em 2024, serviços de inteligência dos Estados Unidos detectaram e frustraram um plano russo para assassinar Armin Papperger, presidente da Rheinmetall, a maior fabricante de armas alemã e uma das principais fornecedoras da Ucrânia. No mesmo período, pacotes com dispositivos incendiários despachados pela DHL pegaram fogo em centros de triagem na Europa, um deles em Leipzig, no leste da Alemanha. A suspeita das autoridades é que fossem testes para derrubar aviões de carga. A diferença entre aquilo e o que foi achado na mata de Brandemburgo é simples: um depósito de pistolas com munição não serve para atrapalhar logística, serve para atirar em alguém.
Os investigadores agora apuram se o esconderijo tem ligação com uma campanha de sabotagem contra as linhas de abastecimento que levam material militar para a Ucrânia. Em outubro, prisões na Polônia e na Romênia foram atribuídas a essa mesma rede, e o suspeito detido no território romeno pode ser o fio que une os dois casos. A embaixada russa na Alemanha não respondeu aos pedidos de comentário. O governo russo costuma tratar acusações desse tipo como teoria da conspiração.