Rússia disparou 24 mísseis balísticos e 115 drones contra centros logísticos civis. A defesa ucraniana, sem munição de Patriot, não derrubou nenhum míssil.
Um ataque russo com mísseis balísticos e drones matou 17 pessoas e feriu 44 na madrugada desta quarta-feira (5) em Kiev e arredores, segundo o presidente Volodymyr Zelensky. Os alvos eram centros logísticos civis: o principal armazém da Rozetka, maior varejista virtual da Ucrânia, foi destruído em Brovary, e a Nova Poshta, maior empresa de encomendas do país, perdeu um centro de triagem na capital, onde três funcionários morreram. Nenhum dos 28 mísseis foi interceptado.
A cena
O vídeo divulgado pelo canal Clash Report, gravado ao amanhecer, mostra o que restou do centro de distribuição da Rozetka: a fachada azul e laranja rasgada de ponta a ponta, o teto colapsado sobre os três andares e caminhões de bombeiros ainda trabalhando com escadas Magirus contra os focos de incêndio. As fotos que acompanham o post mostram o interior do armazém reduzido a ferro retorcido e, no bairro de Obolon, no norte de Kiev, uma agência da Nova Poshta cercada de destroços arremessados pela explosão.
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Interior do armazém da Rozetka e agência da Nova Poshta em Obolon. Imagens: Київ24, reprodução via @clashreport
O que está confirmado
A cofundadora da Rozetka, Iryna Chechotkina, confirmou que o complexo de Brovary foi atingido por três mísseis balísticos e não tem como ser restaurado. Ninguém morreu no armazém, que operava com estoque reduzido por causa dos ataques anteriores.
A Nova Poshta confirmou a destruição de seu centro de triagem em Kiev, com três mortos (dois motoristas e um funcionário terceirizado) e oito feridos. A rede de material de construção Epicentr perdeu um centro logístico na capital, onde uma pessoa morreu e três se feriram, além de uma fábrica de cerâmica em Kalynivka. A fabricante de produtos de limpeza Biosfera teve um armazém de 20 mil metros quadrados destruído em Dnipro. Instalações da Novus, da Raben, do grupo Fozzy, da Lasunka e da Millennium também foram atingidas.
A Força Aérea ucraniana contabilizou 24 mísseis balísticos Iskander, 4 mísseis Tsirkon ou Oniks e 115 drones, muitos deles a jato. Derrubou 98 drones. Míssil: nenhum.
O Ministério da Defesa russo disse que o ataque mirou “centros de transporte, logística e distribuição” que guardariam componentes de drones e equipamentos de guerra eletrônica. Não apresentou prova, e as instalações atingidas pertencem a empresas de varejo, encomendas e alimentos.
O alvo e a arma
O complexo de Brovary, aberto em 2017, era o centro de distribuição mais automatizado da Ucrânia e processava mais de 100 mil pedidos por dia. Este foi o terceiro ataque ao local em poucos dias. Em 1º de agosto, um drone Geran atingiu o estacionamento do armazém na troca de turno, matou o funcionário Volodymyr Melnychenko e feriu outros sete. Havia cerca de 270 pessoas no prédio. Um assessor da presidência ucraniana, Serhii Beskrestnov, avaliou na ocasião que o drone buscou os micro-ônibus de funcionários no estacionamento, sinal de que os russos sabiam que os galpões já estavam vazios de mercadoria.
Por que importa
O ataque é o capítulo mais pesado de uma guerra recente contra a logística civil dos dois lados. Desde 18 de julho, drones ucranianos atingiram 15 instalações da Wildberries, a “Amazon russa”, e destruíram 13 delas pelo fogo, com ao menos nove mortos. A Ucrânia acusa a empresa de abastecer o exército russo com componentes de uso militar. As perdas dos vendedores da plataforma são estimadas em até US$ 3,5 bilhões. A destruição da Rozetka e da Nova Poshta é a resposta russa na mesma moeda: cada lado agora trata os armazéns de varejo do outro como alvo legítimo.
O dado militar é ainda mais grave que o econômico. Pela segunda vez em uma semana, a defesa aérea ucraniana não derrubou um único míssil balístico. A munição dos sistemas Patriot, única arma do arsenal ucraniano capaz de interceptar um Iskander, está no fim, e as barragens balísticas russas viraram rotina neste verão para explorar essa escassez.
O que vem
A Rozetka diz que segue operando com os armazéns regionais que restaram. A Ucrânia voltou a pedir interceptadores aos aliados. Enquanto eles não chegam, cada noite de ataque repete a conta desta quarta-feira: o que a Rússia lança de balístico, chega.
Imagem: reprodução de redes sociais (@clashreport)