Os Estados Unidos iniciaram na segunda-feira (13) o bloqueio naval de todos os portos iranianos no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. Em resposta, autoridades ligadas ao líder supremo do Irã ameaçaram acionar os houthis do Iêmen para fechar também o Estreito de Bab al-Mandeb, a passagem que conecta o Mar Vermelho ao Oceano Índico. Se os dois estreitos forem bloqueados ao mesmo tempo, cerca de 25% a 30% do suprimento global de energia ficaria travado, o que poderia elevar o preço do petróleo a patamares acima de US$ 120 por barril e provocar uma crise econômica em escala mundial.
O que é o bloqueio de Ormuz e por que ele começou agora
O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima estreita entre o Irã e Omã, no Golfo Pérsico. É um dos pontos mais importantes do comércio mundial de energia: por ali circulam normalmente cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia. A crise atual começou em 28 de fevereiro de 2026, quando os Estados Unidos e Israel lançaram uma campanha aérea contra o Irã. Em retaliação, a Guarda Revolucionária Iraniana passou a bloquear navios no estreito, lançou ataques contra embarcações mercantes e minou a passagem, praticamente paralisando o tráfego marítimo na região.
Após semanas de tensão e um cessar-fogo de duas semanas iniciado em 7 de abril, negociações de paz entre EUA e Irã ocorreram em Islamabad, no Paquistão, mas terminaram sem acordo. Foi então que o presidente Donald Trump ordenou o bloqueio naval completo de todos os portos iranianos. O Comando Central dos EUA (CENTCOM) esclareceu que o bloqueio não impede a passagem de navios com destino a portos não iranianos, apenas proíbe qualquer embarcação de entrar ou sair de portos do Irã. Trump também determinou que a Marinha persiga e intercepte em águas internacionais qualquer navio que tenha pago pedágio ao Irã para cruzar o estreito, prática que o vice-presidente JD Vance classificou como terrorismo econômico.
O impacto do bloqueio sobre o Irã e o petróleo
O efeito econômico sobre o Irã é enorme. Segundo estimativas da Foundation for Defense of Democracies, mais de 90% dos US$ 109,7 bilhões em comércio marítimo anual do Irã passam pelo Estreito de Ormuz. O bloqueio custa a Teerã aproximadamente US$ 435 milhões por dia. O CENTCOM afirmou que em menos de 36 horas o comércio marítimo iraniano foi completamente interrompido, com pelo menos seis navios mercantes obrigados a retornar a portos iranianos.
Para o resto do mundo, a consequência mais imediata é o preço do petróleo. No início da semana do bloqueio, o barril de Brent ultrapassou os US$ 100. Embora tenha recuado para a faixa dos US$ 95 em meio a rumores de retomada das negociações, o preço está quase 50% mais alto do que há um ano. A Agência Internacional de Energia (AIE) alertou que o conflito pode resultar na primeira queda anual na demanda global por petróleo desde a pandemia de 2020.
Para executar o bloqueio, os EUA mobilizaram uma força considerável: o porta-aviões USS Abraham Lincoln, mais de uma dúzia de destróieres, o grupo anfíbio do USS Tripoli e mais de 10 mil militares. Dois destróieres da classe Arleigh Burke, o USS Frank E. Peterson e o USS Michael Murphy, cruzaram o estreito como parte das operações de desminagem.
A carta na manga do Irã: o Estreito de Bab al-Mandeb
Se Ormuz é o gargalo do Golfo Pérsico, o Estreito de Bab al-Mandeb é o gargalo do Mar Vermelho. Com apenas 29 km de largura no ponto mais estreito, essa passagem fica entre o Iêmen e o chamado Chifre da África (Djibuti e Eritreia). Por ela passam cerca de 10% do comércio marítimo mundial, incluindo boa parte do petróleo que segue em direção ao Canal de Suez, rumo à Europa.

Quem controla de fato o acesso ao Bab al-Mandeb são os houthis, o grupo armado iemenita apoiado pelo Irã. Em 2023 e 2024, durante a guerra entre Israel e Hamas, os houthis já demonstraram essa capacidade ao atacar navios comerciais no Mar Vermelho, forçando grandes operadoras como Maersk, CMA CGM e Hapag-Lloyd a suspender suas rotas pela região.
Ali Akbar Velayati, ex-chanceler iraniano e conselheiro do líder supremo Mojtaba Khamenei, publicou no X uma ameaça direta: a “frente unificada da Resistência” vê o Bab al-Mandeb da mesma forma que Ormuz, e que os EUA “logo perceberão que o fluxo de energia e comércio global pode ser interrompido com um único movimento”. Abed al-Thawr, oficial militar iemenita, afirmou que o fechamento do Bab al-Mandeb seria uma das primeiras respostas a uma escalada do conflito.
Por que a Arábia Saudita está no meio do fogo cruzado
Com Ormuz praticamente fechado desde o final de fevereiro, a Arábia Saudita ativou seu plano de contingência: o oleoduto Petroline (ou East-West Pipeline), uma infraestrutura de 1.200 km construída nos anos 1980, que liga os campos de petróleo da costa leste ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Segundo a Fortune, o oleoduto atingiu sua capacidade máxima de 7 milhões de barris por dia, com as exportações pelo porto de Yanbu saltando de cerca de 800 mil barris diários antes da guerra para aproximadamente 5 milhões.
Mas existe um problema crítico: todo o petróleo que sai de Yanbu pelo Mar Vermelho precisa passar pelo Bab al-Mandeb para chegar aos mercados asiáticos. Se os houthis fecharem essa passagem, a rota alternativa saudita entra em colapso. A Arábia Saudita ficaria encurralada: sem Ormuz de um lado e sem Bab al-Mandeb do outro.
É por isso que, segundo reportagens do Wall Street Journal, Riad está pressionando os EUA a recuarem no bloqueio. Para os americanos, o petróleo não é uma questão de sobrevivência econômica imediata. Para os sauditas, sim. As exportações de petróleo sustentam praticamente toda a economia do reino.
O cenário mais perigoso: dois bloqueios simultâneos
Se o Estreito de Ormuz e o Bab al-Mandeb forem fechados ao mesmo tempo, o mundo enfrentaria uma situação sem precedentes. Analistas estimam que entre 25% e 30% do suprimento global de energia ficaria bloqueado. O petróleo poderia ultrapassar os US$ 120 por barril, e os navios seriam forçados a contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança, adicionando de 12 a 15 dias às viagens e elevando drasticamente os custos de frete.
Elisabeth Kendall, especialista em Oriente Médio e presidente do Girton College em Cambridge, definiu essa possibilidade à Al Jazeera como um “cenário de pesadelo” que poderia prejudicar seriamente o comércio em direção à Europa. Vários países já estão sentindo os efeitos da crise energética, com alguns sendo obrigados a racionar combustível.
O cessar-fogo atual está previsto para expirar em 21 de abril. Se não houver acordo até lá, a possibilidade de uma escalada aumenta consideravelmente. O presidente Trump sinalizou que novas rodadas de negociação podem ocorrer nos próximos dias, e Teerã estaria considerando uma pausa temporária nos embarques pelo estreito para facilitar um acordo. Mas enquanto a diplomacia caminha devagar, os navios de guerra já estão posicionados e as ameaças sobre o segundo estreito continuam no ar.
O que acontecer nos próximos dias pode definir não apenas o desfecho desse conflito, mas o rumo da economia global nos meses seguintes.

