O governo alemão atribuiu nesta terça-feira, oficialmente e pela primeira vez, um serviço de inteligência russo pelo ataque com drone carregado de explosivos no aeroporto de Leipzig/Halle, na Saxônia. O ministro do Interior, Alexander Dobrindt, e o ministro das Relações Exteriores, Johann Wadephul, deram uma coletiva conjunta em Berlim para anunciar a conclusão. Wadephul interrompeu uma viagem oficial para participar do encontro.
Resumo rápido:
- Alemanha atribui oficialmente à Rússia o ataque com drone em Leipzig/Halle, em coletiva de Dobrindt e Wadephul nesta terça-feira
- O drone, com 800 gramas de explosivo, atingiu a asa de um An-124 ucraniano na noite de 4 para 5 de agosto e não detonou
- Os EUA já ligavam o ataque à GRU russa desde 7 de agosto, segundo o Wall Street Journal; a embaixada russa nega envolvimento

O episódio aconteceu na noite de 4 para 5 de agosto. Um drone quadricóptero do tipo FPV, do tamanho aproximado de um forno de micro-ondas, cruzou a cerca do aeroporto e atingiu a asa de um Antonov An-124 Ruslan ucraniano, operado pela Antonov Airlines, estacionado no pátio. A asa de um avião desse porte concentra os tanques de combustível, o que torna qualquer impacto ali um risco de incêndio de grandes proporções. O aparelho carregava cerca de 800 gramas de explosivo, uma combinação de Semtex e PETN segundo apurou o Handelsblatt junto a fontes de segurança alemãs, mas não detonou porque o mecanismo de disparo estava desconectado. O drone só foi encontrado quatro horas depois, por um motorista de ônibus do aeroporto, e foi destruído em uma detonação controlada. Na madrugada seguinte, um segundo drone, não identificado, atingiu um avião de carga em voo a cerca de 400 metros de altitude; a aeronave desviou para Hanôver e pousou com danos leves no nariz. Um terceiro drone, com 50 gramas de explosivo RDX, foi encontrado dias depois, em 14 de agosto. Não houve vítimas porque o avião estava vazio: a carga de munição que trouxera da França já havia sido transferida para outro voo.
A atribuição a um serviço de inteligência russo não é nova, mas até esta terça-feira vinha só de fontes anônimas. Em 7 de agosto, agências de inteligência dos Estados Unidos disseram ao Wall Street Journal que o explosivo e a construção do artefato tinham características típicas de dispositivos usados pela GRU, a inteligência militar russa. A avaliação foi feita em conjunto com os serviços de segurança alemães. A coletiva de Dobrindt e Wadephul transforma essa suspeita compartilhada por autoridades em posição oficial do governo alemão, a primeira vez que a Alemanha aponta diretamente a Rússia como responsável pela sabotagem. A embaixada russa em Berlim nega envolvimento.
Por que o aeroporto de Leipzig é um alvo estratégico?
O aeroporto de Leipzig/Halle é a base principal do programa SALIS da OTAN (Strategic Airlift International Solution), que usa aviões An-124 ucranianos para transportar equipamento militar e reforçar o flanco leste da aliança. É por isso que aeronaves como a atingida operam ali com regularidade, e é o que torna o local um alvo de interesse para qualquer tentativa de sabotagem contra a cadeia de suprimentos militar ocidental para a Ucrânia.
O chanceler Friedrich Merz não participou da coletiva desta terça-feira. Ele já havia dito, em pronunciamento anterior, que os responsáveis “vão pagar por isso” e alertou que os autores de ataques desse tipo aceitam cada vez com mais indiferença o risco de causar danos graves, ferimentos e mortes. Como resposta ao episódio, o governo alemão já havia anunciado, em 18 de agosto, um novo centro de pesquisa em defesa antidrone em Cochstedt, além da contratação de 150 novos agentes dedicados a essa função e a criação de quatro bases regionais de defesa contra drones.
O caso se soma a uma sequência de incidentes com drones em bases logísticas e aeroportos europeus ligados ao apoio militar à Ucrânia, e reforça a leitura de que a Rússia usa sabotagem como ferramenta de pressão contra os países que sustentam esse apoio. A atribuição oficial alemã tende a alimentar a discussão, já em curso entre parceiros europeus, sobre convocar o embaixador russo, declarar funcionários da embaixada como persona non grata ou propor novas sanções da União Europeia contra a Rússia.